A Solidão dos Moribundos

Por Camila Appel

Nunca antes na história da humanidade, as pessoas que estão perto da morte estiveram tão afastadas para os bastidores da sociedade, e tão sós. O que afetaria não só a qualidade da vida que lhes resta, mas também a qualidade de suas mortes.

Esse é o princípio do sociólogo Norbert Elias (1887-1990) em seu livro “A Solidão dos Moribundos”, escrito em 1982, e ainda uma referência.

Confesso que estranho a palavra moribundos. No dicionário, ela se refere aos que estão morrendo e por isso seu uso nesse texto é adequado. Mas sinto como se moribundo fosse uma ofensa, um xingamento usado para criticarmos alguém. Meu próprio preconceito é espantoso e, exatamente por percebê-lo, presenteei o título desse post com o título do livro de Elias. O autor usa o termo com a maior naturalidade, sem tabu algum, procurando escancarar uma realidade: a de que afastamos cada vez mais esse grupo de pessoas da vida social e pior, tendemos a rejeitá-los, sem percebermos que todos nós um dia estaremos naquele mesmo lugar.

 Norbert Elias discorre sobre alguns fatores que estariam ligados a essa realidade.

Ele sustenta que, como o único ser a ter consciência da própria finitude, o homem não consegue lidar naturalmente com esse conhecimento, criando fantasias para se proteger. Uma fantasia típica é imaginar-se imortal. A convivência com os moribundos ameaça sistema de crenças como esse e por isso, o afastamento.

 Além disso, o autor afirma que as pessoas ficam desconfortáveis na frente dos moribundos, por não encontrarem uma forma espontânea de expressar simpatia. A convenção social oferece algumas poucas formas estereotipadas e padronizadas de comportamento para esse tipo de situação. Com medo de soarem superficiais e pouco sinceros, os jovens não encontram palavras e, assim, se afastam. Segundo Elias, também é crescente a dificuldade de exprimirmos emoções fortes, que acabam sendo ventiladas em conflitos políticos e sociais.

 Outro ponto interessante é o de que podemos sentir, em algum nível subconsciente, que a morte é contagiosa e esse é mais um motivo para o afastamento.

 Mas nem sempre foi assim. Antigamente, nascimento e morte eram eventos mais públicos. As pessoas nasciam e morriam cercadas por familiares e amigos e inclusive crianças. A noção do privado era diferente da de hoje e muitos se aglomeravam no mesmo espaço.

 Em relação às crianças, Elias critica a relutância dos adultos em familiarizá-las com a morte, com medo de que esse conhecimento possa, em alguma instância, prejudicá-las. Uma hipótese levantada é a de que os adultos teriam receio de falar de morte com seus filhos, por temerem transmitir suas próprias angústias a eles. Elias usa como exemplo um manual escolar que indica o que se deve falar aos filhos quando uma pessoa morre: vovó está no céu agora, ou, ela agora é um anjo. Eufemismos como esses mostrariam a tendência de ocultarmos das crianças a finitude humana.

Rosely Sayão escreveu na sua coluna “Gerações”, na Folha, que crianças não sabem conviver com velhos, porque na “nossa sociedade segregacionista tradicional, dificilmente eles se encontram”.  Não haveria espaços de convivência para gerações diferentes. Ela também cita que o Dia da Criança, 12 de outubro, foi amplamente reportado e comemorado, ao passo que o Dia do Idoso, 1 de outubro, nem foi lembrado. Com certeza, Norbert Elias consideraria esses pontos como exemplos do isolamento dos velhos e dos moribundos nas sociedades desenvolvidas.

 

Medicina solitária

 Norbert Elias diz que nunca antes as pessoas morreram tão silenciosa e higienicamente como hoje, e nunca em condições tão propicias à solidão. Os hospitais priorizam ambientes esterilizados e de circulação de poucas pessoas (como nas UTIs), proporcionando um ambiente seguro, higiênico e tecnicamente perfeito ao moribundo, mas extremamente só.

 As rotinas institucionalizadas dos hospitais oferecem uma estrutura social para a situação de morrer. Mas são destituídas de sentimentos e acabam contribuindo ainda mais para o isolamento dos moribundos.

 Atul Gawande, um cirurgião e popular escritor americano, recentemente lançou o livro “Being Mortal: Medicine and What Matters in the End” (“Sendo Mortal: Medicina e  o que Importa no Final”, em tradução livre). Gawande discorre sobre fatos medicinais e casos para falar sobre a relação médico-paciente no que se refere à morte. Ele sustenta que os médicos devam estar preparados não apenas para falar com seus pacientes sobre como viver, mas também sobre como morrer. É interessante um ponto colocado por Gawande sobre como poucos médicos tem se interessado por Geriatria, já que os geriatras tem a missão desconfortável de ir contra a fantasia, predominante hoje, de que não envelhecemos. Gawande diz que usamos hospitais e asilos para isolar os que estão morrendo dos saudáveis de formas nunca antes feitas. E sustenta ainda que médicos deveriam conversar sobre os medos e objetivos dos doentes, assim como entender o que eles precisam para confortá-los nesse difícil estágio da vida. Para Gawande, a conversa médico-paciente deve se iniciar com o entendimento das prioridades do paciente e não necessariamente com providências médicas.

 

Morrer sem sentido

 Norbert Elias destaca um ponto interessante em seu discurso, que culmina com o que ele chama de “morrer sem sentido”. Estamos vivendo um processo de individualização profundo, que iniciou com o Renascimento, onde cada um se considera um ser separado da sociedade, independente e autônomo. A sociedade é o que ele chama de “ mundo externo” e a pessoa o “mundo interno”.  Essa pessoa buscaria um sentido para sua vida, como um ser isolado do mundo, procurando um sentido para si mesmo e em si mesmo. Quando não encontra essa espécie de sentido, a vida parece sem sentido, deixando um sentimento de vazio e desilusão. É fácil compreender que uma pessoa que acredite viver como um ser sem sentido morra da mesma forma”. Essa exigência de sentido é uma característica predominantemente humana, e essa individualização dos homens indica que cada um precisa encontrar um sentido exclusivamente seu.

 Essa autoimagem dos homens como indivíduos totalmente autônomos, sugere que se vive só e assim, se morre só, já que a imagem da nossa própria morte está ligada à imagem de nós mesmos, de como vivemos nossa vida. Para o autor, há uma conexão entre como uma pessoa vive sua vida e como ela morre.  O modo como ela morre depende do quanto ela sente que alcançou seus objetivos, do quanto sente que sua vida foi realizada e significativa ou frustrada e sem sentido: “morrer é mais fácil para aqueles que acreditam terem feito a sua parte, mais difícil para aqueles que sentem terem fracassado na busca de seus objetivos”.

 Somos os únicos seres com capacidade de estabelecer objetivos e atribuir sentidos. Mas para muitas pessoas isso é um fardo, uma responsabilidade que não é bem vinda, e por isso buscam alguém que alivie esse peso, formulando para elas os objetivos que farão com que suas vidas sejam dignas. Esperam, assim, um sentido pré-determinado, vindo de fora, que dê direção às suas vidas.

 Uma parte um pouco mais polêmica do livro de Norbert Elias é a constatação de que mitos muito antigos como o de Adão e Eva (assim ele o define), dificultam ao homem lidar com a morte, por associá-la ao sentimento de culpa, seguido de julgamento e punição.

Como Rosely Sayão apontou, nossa sociedade segregacionista está isolando os velhos e os moribundos para o que Norbert Elias chamou de “bastidores da sociedade”. Estão cada vez mais vivendo sós e morrendo sós, apartados em asilos e casas de repousos que não se comunicam com o mundo ou ilhados numa cama de hospital, circundados por higiene e tecnologia, muitas vezes sem poder dar opinião sobre como os médicos podem ou não prosseguir em relação aos cuidados de sua doença, sem abertura para desabafarem sobre o que estão dispostos a aturar e o que não estão.