Menos Flores aos Mortos

Por Camila Appel

Na avenida Dr. Arnaldo, em São Paulo, destaca-se a fileira de bancas de flores, colorindo a fachada do Cemitério do Araçá.

Denilson Domingues, florista há dez anos, é proprietário do Box 2. Ele diz que o movimento do Dia de Finados tem caído bastante, “porque os jovens de hoje não têm dado continuidade à tradição de dar flores aos mortos. É um costume de pessoas mais velhas”, ele disse.

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Denilson Domingues de Almeida, e sua ajudante Sonia Regina Scervino, na frente de sua banca de flor. Foto de Camila Appel

Os floristas de lá encabeçam uma campanha “Dê Flores aos Vivos”, para estimular vendas. Pelo visto tem funcionado, porque Denilson me falou que os dias de maior venda de sua banca são o Dia das Mães e o Dia dos Namorados.

 Denilson disse que os proprietários dos outros boxes são, em sua maioria, parentes de primeiro e segundo grau. Ficam abertos 24 horas por dia, sete dias na semana e nunca tiveram assaltos. “Só vemos muitos acidentes de carro aqui na frente”.

 Normalmente, as flores mais vendidas são rosas vermelhas e depois, lírios e tulipas. Mas no Dia de Finados vende-se mais crisântemo, por ser uma tradição dar crisântemos aos mortos.

 Outra característica desse dia, além de flores, é o costume de acender uma vela. Vi um homem vendendo velas com ilustrações católicas na porta do cemitério. A vela representaria a luz dos falecidos, e as coisas boas que deixaram.

 Dentro do Cemitério do Araçá, encontrei Yolanda, uma senhora que prestava homenagem aos seus parentes. Ela não quis tirar foto nem ser identificada pelo sobrenome, por timidez, como ela colocou. O túmulo de família de Yolanda tem uma pequena capela, construída por seu avô. Ali está enterrado seu pai, seu avô e outros parentes, mas sua mãe preferiu ser enterrada junto à mãe dela, em outro cemitério. Yolanda é católica e costuma visitar o túmulo em datas especiais, como aniversários, Dia dos Pais e Dia de Finados. Ela tinha muitas flores ao redor, e acredita que sejam uma forma de deixar os mortos felizes, por serem lembrados. Dentro da capelinha, tinha uma mesa, coberta por linho branco, uma vela e uma foto da família. Yolanda passa a mão pelo cabo de uma rosa, tirando espinhos: “Do mesmo modo que presenteamos os vivos, devemos presentear os mortos”,  ela sorri.

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“Dê Flores aos Vivos”. Foto de Camila Appel
Foto de Camila Appel
Cemitério do Araça. Foto de Camila Appel