Como falar sobre morte com as crianças

Por Camila Appel

Um assunto delicado que a maioria dos pais precisa encarar em algum momento. As crianças, normalmente, tem seu primeiro contato com a morte por meio de um animal de estimação ou dos avós. E o que dizer quando alguém que elas estimam muito falece?

Lucélia Paiva é psicóloga com atuação clínica, hospitalar e educacional. Especializada em situações de morte, perdas e luto, com as quais trabalha há mais de 20 anos. Em 2011, lançou o livro “A arte de falar da morte para crianças”, pela editora Ideias e Letras, já na terceira edição. O livro é resultado da pesquisa de sua tese de doutorado na USP, onde entrevistou 54 educadores.

O principal ponto defendido por Lucélia é o uso da bliblioterapia, que consiste na utilização de livros para processos terapêuticos. Nesse caso, a literatura infantil serve como mediadora da comunicação com a criança para abordar temas como morte e perdas, desenvolvendo a imaginação e permitindo que se coloquem como personagens das histórias, o que facilita a expressão das ideias e sentimentos.

Lucélia acredita ser fundamental falar de morte com as crianças porque ela permeia o universo infantil e seu cotidiano. Elas entram em contato com o tema através de notícias, dos desenhos animados (que sugerem a imortalidade, quando Pica Pau é atropelado, vira papel e logo volta ao normal) e dos videogames (onde é possível driblar a morte). Mas a criança está disposta a saber a verdade sobre a morte e pergunta sobre ela de várias maneiras, é o adulto que evita falar sobre o assunto.

Falar a respeito é necessário para que possam trabalhar esse momento e sirva como apoio para futuros lutos e perdas também. As crianças, assim como o adulto, passam por um processo complexo de luto e não superam a dor da perda tão rápido como alguns imaginam, por se distraírem facilmente com suas brincadeiras. Não falar a respeito dificulta sua superação. Não só a morte física de alguém próximo, mas também os processos de morte simbólica, como a separação dos pais.

Estudos sugerem três atributos básicos para a criança compreender ao se falar de morte: a universalidade (que todo ser vivo morre e vai morrer um dia, como a plantinha, os animais, o papai, a mamãe e ela mesma), a irreversibilidade (quem morre não volta mais – isso quer dizer que a criança não pode ficar esperando vovô “voltar de férias”) e a não funcionalidade (o corpo para de funcionar na morte). São conceitos aprendidos entre os cinco e sete anos de idade. Wilma Torres foi a psicóloga pioneira em estudos sobre a morte (tanatologia) e abordar o tema em relação à criança. Em 1999 lançou o livro “A criança diante da morte, desafios” da editora Casa do Psicólogo, resultado de vinte anos de estudos.

Lucélia comentou que antigamente, a morte era um evento público, já que familiares morriam e eram velados dentro de suas próprias casas. As crianças, então, tomavam contato direto com o morrer. A partir do século XX, isso começou a mudar. Com a transferência desse processo para o isolamento do hospital, as crianças passaram a ter menos contato ou até nenhum contato com o processo do final da vida e morte em si. Muitos autores discorrem sobre esse processo, como Phillipe Ariès e Maria Julia Kovács. Falei sobre esse assunto no post: a solidão dos moribundos. Esse afastamento e a crescente divisão entre universos geracionais faz com que adultos sintam ser necessário proteger a criança dessa realidade, evitando que ela se encontre com alguém que esteja morrendo e não fale objetivamente sobre o que está acontecendo.

Encarar essa questão desde cedo possibilita a criança, e seu futuro adulto, a “elaborar o processo de luto com mais facilidade, e provavelmente, se relacionar melhor com as situações inevitáveis, sendo capaz de encarar a morte como algo que faz parte do processo de viver”, diz Lucélia.

Virar estrelinha

Para falar sobre morte, não há problemas em se usar metáforas, porque elas trazem um conteúdo importante, mobilizam as emoções e são uma forma de comunicação válida. No entanto, quando é necessário falar de uma situação específica, como vovô morreu por exemplo, é aconselhável que se utilize uma linguagem mais realista, com o uso da palavra morte, tanto com crianças quanto com adultos. Lucélia diz que essa é uma palavra pesada mas é a única que dá o real significado do fato. Negá-la, pode privar a pessoa do luto e assim, de se trabalhar emocionalmente a situação e poder superá-la. Um dos sentimentos que surge no luto é o sentimento de abandono. Sabendo que a pessoa morreu e assumindo a morte de forma objetiva, faz com que esse sentimento seja melhor compreendido. Se driblarmos as dores, como pensar que a pessoa viajou, o sentimento do abandono corre risco de ficar mais forte.

Um outro exemplo do que seja falar realisticamente do assunto é no caso da criança perguntar para onde vai a pessoa que morreu. Lucélia diz que se deve contar que ela será cremada ou enterrada e procurar descrever o processo. No âmbito mais sutil, Lucélia acha interessante “mencionar sobre a existência de várias culturas e as várias crenças religiosas e que isso deve ser respeitado”. Ela recomenda o livro “Quando os dinossauros morrem” (Marc e Laurie Brown, ed. Salamandra), que tem essa temática.

As histórias devem ser o mais realistas possíveis. “Um bom livro é aquele que apresenta um enredo, uma solução para os problemas e enfrentamento de desafios. Deve-se evitar histórias com vítimas e super-heróis, características estereotipadas, simplistas, soluções fácies com finais felizes para sempre, ou com situações de manipulação carregadas emocionalmente. Deve-se evitar livros não-realistas com características que não o ofereçam um modelo apropriado”, Lucélia afirma em “A arte de falar da morte para crianças”.

Lucélia gosta muito dos livros de Rubem Alves, que tratam de temáticas existenciais, como “A operação de Lili”  e “A Montanha Encantada dos Gansos Selvagens” (editora Paulus). Outros livros que ela indica são: “Dona Saudade” (de Claudia Pessoa, editora Callis), “Os Porquês do Coração” (de Conceyl Silva e Nye Ribeiro Silva, Editora Do Brasil), “A Floresta” (de Claire A. Nivola, Ed. Martins Fontes), “O Teatro de Sombras de Ofelia” (de Michael Ende, editora Atica) e “A História de uma Folha” (de Leo Buscaglia, editora Record). Também recomenda o autor Jonas Ribeiro, que pode ser conferido nesse site.

Nesse artigo, leia mais sobre a bliblioterapia e o trabalho de Lucélia.

A importância de compartilhar

Durante a pesquisa para sua tese de doutorado, Lucélia se impressionou com a importância de um espaço de reflexão e compartilhamento. Os entrevistados comentaram como era bom estar em grupo e poder falar dos sentimentos de impotência, frustração e da falta de preparo que sentem ao lidar com essa temática. Ela encontrou essa mesma questão no seu estudo de mestrado, onde pesquisou a relação dos médicos com a morte no tratamento no final de vida.

“Foi marcante perceber o quanto um espaço de compartilhamento, de reflexão é capaz de tratar essas angústias. Tirar o profissional de sua solidão é muito importante”, diz Lucélia. É por isso que ela trabalha com workshops e cursos para educadores e profissionais de saúde.

Ela termina os agradecimentos do livro dizendo: “vivo com minhas histórias, ora criança, ora mulher… ora triste, ora feliz… entre sonhos e espantos, mas vou vivendo cada canto, cada momento, muitas vezes tropeçando na morte, que atravessa a vida, mas sempre com a esperança de poder compartilhar a vida que há na morte”.

Ilustração de Juliana Paiva Zapparoli no livro "A arte de falar da morte para crianças", de Lucélia Paiva
Ilustração de Juliana Paiva Zapparoli no livro “A arte de falar da morte para crianças”, de Lucélia Paiva

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