Os cinco estágios do luto

Por Camila Appel
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Chlorophylle/Fotolia

Os cinco estágios do luto é um modelo popularizado com base no trabalho da médica-psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross, em seu livro “Sobre a Morte e o Morrer” (Martins Fontes, 2008) e assumido como uma referência para o processo do luto. Inicialmente, foi elaborado a partir de pacientes terminais e seus estágios ao lidar com a morte iminente, e posteriormente expandido para a compreensão de perdas e do luto.

Abaixo, segue uma breve descrição de cada etapa.

  • Negação e Isolamento

Nessa primeira fase, nega-se a realidade da situação e é comum o pensamento de que isso não pode estar acontecendo. É um mecanismo de defesa sentido como um choque. Há a tendência de se isolar e não querer falar a respeito. É uma resposta temporária seguida por:

  • Raiva

A fase de negação aos poucos cede espaço para a raiva, devido ao ego não conseguir sustentar a primeira fase por muito tempo. Pode ser dirigida a objetos, familiares, amigos, ou mesmo estranhos. Pode-se sentir raiva da pessoa que morreu por causar tanta dor, pelo abandono, mas ao mesmo tempo há culpa por esse sentimento, o que aumenta a raiva.

  • Negociação

Procura-se negociar com a emoção ou com quem achar ser culpado pela sua perda. Pensa-se muito no “e se”, elaborando-se outros cenários para a situação. Na medida em que eles são entendidos como irreais, há a sensação de impotência que aos poucos é acompanhada pelo um sentimento melancólico da…

  • Depressão

Há tristeza e arrependimento, além da angústia vinda da dualidade de querer se isolar em contraposição com a necessidade de continuar a vida, como encaminhar afazeres do cotidiano e não deixar pessoas na mão. A depressão tem duração diferente de pessoa para pessoa até chegar na…

  • Aceitação

Nem todo mundo atinge essa fase e não há pressão para que isso ocorra. Ela normalmente é marcada por calma e resignação.

Um resumo do livro “Sobre a Morte e Morrer” pode ser encontrado aqui.

É importante ressaltar que esse modelo é considerado um pouco ultrapassado por alguns estudiosos do tema. A jornalista Ruth Davis Konigsberg lançou o livro “The Truth About Grief: The Myth of its Five Stages and the New Science of Loss”, Simon & Schuster, 2011 – “A Verdade sobre o Luto: o Mito dos Cinco Estágios e a Nova Ciência da Perda”, em tradução livre. A jornalista critica o fato dessa teoria não ter sido validada por estudos e se basear apenas nos processos de pacientes terminais e não em pessoas enlutadas. Também questiona a sequência dos estágios, alegando que nem sempre ocorrem nessa ordem e nem todos são experimentados pelas pessoas enlutadas. Ela afirma que, segundo um estudo realizado pela Associação Médica Americana, o enlutado tende a passar mais por um processo de saudades profunda, chamada em inglês de yearning, do que negação e raiva, como consta no modelo. Esse estudo pode ser visto aqui (em inglês). A própria Elisabeth Kubler Ross escreveu um livro no fim de sua vida “On Grief and Grieving: Finding the Meaning of Grief trhough the five stages of loss”, onde ela se arrepende de ter criado os cinco estágios, pois as pessoas pensam nele como etapas lineares e contínuas. Um bom artigo sobre esse livro pode ser visto aqui (em inglês).

A professora e psicóloga Maria Helena Franco é pioneira no tema do Brasil e uma referência importante. Em 1996, ela fundou o LELU – Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto, na faculdade PUC-SP, com inserção na grade curricular da graduação em Psicologia, na pós-graduação em Psicologia Clínica e com atendimento à população enlutada na Clínica Psicológica da PUC-SP. Esse laboratório é uma fonte de pesquisa e busca conectar a teoria com a atuação clínica. Em 1998, ela fundou o Instituto de Psicologia 4 Estações. Mais informações sobre seus trabalhos pode ser visto aqui. Falei um pouco sobre o 4Estações no post: Vamos falar sobre o luto.

A professora Maria Helena diz que os cinco estágios de Elisabeth Kubler-Ross caiu um desuso por ser uma teoria muito descritiva e normalmente abordada ao pé da letra, não se levando em conta que cada pessoa tem um processo diferente de lidar com o luto. Ela diz que não se trabalha mais com esse entendimento de fases e sequências, pois essa categorização não abrange a complexidade do luto. Mas ela diz que pode-se falar em padrões de comportamentos e sugere a leitura dos livros de  Colin Murray Parkes. Há dois livros importantes traduzidos para o português por ela: “Luto – Estudos sobre a Perda na Vida Adulta” (Summus, 1998) e “Amor e Perda” (Summus, 2009). Uma breve análise sobre o primeiro pode ser encontrada aqui.

Ela coloca que Elisabeth Kubler-Ross tem o mérito de levar o tema da morte e do morrer para os hospitais e para a formação dos médicos, nos Estados Unidos. Foi pioneira e nesse aspecto cumpriu um papel importante. Mas que o luto merece ser visto além desses estágios e rotulá-lo pode ser perigoso. O DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), um manual sobre desordens mentais da Associação Americana de Psiquiatria- definiu o luto como um transtorno mental. A professora acredita que essa classificação não é adequada porque o luto tem muitas nuances para ser um transtorno de qualquer esfera. O luto não é depressão, apesar de poder contemplar um estado depressivo em algum momento.

Maria Helena diz que recentemente há um movimento na área da saúde para se capacitar sobre como lidar com o luto. Tema que no passado não era bem aceito. Ela dá palestras para profissionais de saúde e diz se surpreender com o crescente interesse e sensibilidade desses profissionais. Por fim, a psicóloga afirma que o luto é um processo individual (mais um motivo para não colocá-lo em fases genéricas), único, e não tem tempo determinado para durar. Em um artigo na Folha, ela diz: “As pessoas se perguntam quanto tempo dura o luto, como uma confirmação de que estão no caminho certo. Essa pergunta é diretamente relacionada à impaciência que nossa cultura tem com o pesar e o desejo de sair logo da experiência do luto. Um exemplo disso é a pressão que o enlutado sofre, logo após a perda, para voltar à atividade normal. O luto passa a ser visto como algo a ser evitado, e não como algo que precisa ser vivido e que trará possibilidades de reconstrução. Mascarar ou fugir do luto causa ansiedade, confusão e depressão. Viver o luto não significa passar por ele, significa crescer por meio dele, para renovar o senso de confiança e a energia, para reconhecer a realidade da morte e a capacidade de se tornar envolvido novamente”.

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