O primeiro natal sem ela

Por Camila Appel

Família reunida, há comida típica, luzes, em algumas casas, velas. A melhor toalha de mesa, os melhores copos e pratos são retirados do armário. Nos vestimos com atenção e embrulhamos presentes. É uma data especial, independente da crença, de se comemorar o nascimento de Cristo ou ter essa referência como pano de fundo para se render ao sentimento de amorosidade e reflexão que normalmente permeia o fim do ano. Revisitamos os acontecimentos e nos confortamos com o sentimento revigorante de que o próximo pode ser melhor.

Num momento ou outro, olha-se para uma cadeira vazia. Ela remete a um parente querido que costumava sentar-se ali, ansioso para compartilhar a ceia, contar novidades ou apenas oferecer segurança emocional, observando filhos e netos correndo de um lado ao outro, organizando um grupo de pessoas que talvez não se reúna com tanta frequência, conectados por sangue ou pelo tempo. Alguns com mais afinidades do que outros, mas todos presentes, se disponibilizando para o mesmo momento, compartilhando um evento que não mais se repetirá da mesma forma. E quando a pessoa não está mais ali, até das desavenças sentimos falta.

Gustavo, 52 anos, jornalista, passou os últimos quinze natais ao lado da mãe, Roseli, morta há um mês. Com o passar dos anos, o número de pessoas presentes em sua ceia foi diminuindo. Em 2009, havia a sogra, o sogro, a avó, seu pai e sua mãe. Agora, em 2014, essas pessoas não existem mais. Pelo menos não fisicamente, porque a lembrança permanece. E, claro, as saudades.

Todas as perdas foram perto do Natal. Mas isso não entristece a data para Gustavo, porque ele acredita ser um momento para celebrar a família, com a esperança de que aqueles que partiram estejam num lugar melhor e que os que ficaram tenham um ano melhor, fortalecendo o símbolo da renovação. “A gente sente falta, mas tem que pensar para frente, pensar no futuro, na crença de que ele trará alegrias e felicidade, nesse sentido é uma oportunidade”, ele diz. Gustavo não fala diretamente, mas dá para perceber o tamanho da sua dor e a falta que Roseli faz nessa data.

A ceia de sua família começa às 22h, logo depois trocam presentes e à meia noite estouram uma champanhe. Ele sempre coloca a música do John Lennon: “Happy Christmas”, por ser alegre e falar sobre o ano que passou e o novo que está começando, com o desejo de que seja um ano bom e sem medos.

É uma boa mensagem para Gustavo, que tem tido crises de transtorno de ansiedade desde a morte da mãe. Ele acredita ser fruto do processo de lidar com toda a burocracia e o choque de enterrá-la. Roseli faleceu em casa, dormindo. Para ela, parece ser o que vemos como uma “boa morte”. Para os filhos, gera um desgaste complicado, porque se não houver um médico para dar uma atestado de óbito, é preciso ir a uma delegacia, fazer um boletim de ocorrência e esperar a visita de um delegado, com o corpo intocado. O delegado verificará sinais de violência para decidir se o corpo será encaminhado ao IML (Instituto Médico Legal) ou ao SVO (Serviço de Verificação de Óbitos). As mortes de causa natural vão para o SVO enquanto as de causas externas são direcionados ao IML. Falei sobre isso no post “Visita ao necrotério”. A mãe de Gustavo tinha marcas de uma cirurgia recente, no fêmur, e por isso ela foi encaminhada ao IML, como morte suspeita. Após a autópsia, Gustavo foi chamado para reconhecer o corpo e assim poder ser levado ao cemitério. Ele diz que vê-la morta foi um choque muito grande e está lutando para lidar com isso. “Ver uma mulher tão inteligente, tão culta, virar um saco de batata no congelador de um necrotério”, como ele colocou, “foi impactante”. Ele acredita que essa visão choca, por conflitar com a imagem que se tem da própria mãe. “Você percebe que não tem mais volta, que não poderá mais conversar com ela”. Esse momento também desencadeou um processo de lidar com sua própria mortalidade, o que tornou o medo da morte mais latente para ele.

O sociólogo Norbert Elias diz que só conhecemos a morte através da morte dos outros, e com certeza ver um dos pais falecer gera um sentimento complexo de ser digerido.

A vida é feita de ciclos. E onde senta nossa mãe hoje, um dia sentaremos nós, com novas pessoas à mesa, os filhos crescidos, filhos dos filhos, com maridos, esposas, cunhados e novos amigos. Se essa realidade é difícil de aceitar, talvez uma boa palavra para permear um Natal seja empatia e impermanência. A noção de que aquela senhora, talvez um pouco calada, um dia será você e que os momentos são únicos.

 A morte é uma realidade e quem sabe a melhor forma de lidar com ela seja essa mesma, a de simplesmente aceitar sua existência, celebrar a vida, e ter compaixão por todos os seres que compartilham do mesmo destino que nós: o fim.

Feliz Natal.

ParaWeb
Fotolia – Gina Sanders

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