O riso e a morte como instrumento

Por Camila Appel

O mundo repugna o terrorismo, porque ele é brutal e usa a morte como instrumento de causa. O grupo denominado Estado Islâmico não é o primeiro nem o único a pensar assim na história da humanidade.

O assassinato dos cartunistas do Charlie Hedbo instigou não só a questão da liberdade de expressão mas também uma revolta contra esse tipo de ação. Ou talvez seria melhor colocado, reação. Reação a quê?

 Para o filósofo José Arthur Gianotti é uma reação profunda de intolerância às diferenças porque os extremistas muçulmanos não aceitam que existam outras crenças. “No fundo eles queriam que todos fossem muçulmanos, não podem admitir que uns sejam católicos, outros sejam hindus e outros não tenham crença nenhuma. Esse que é o problema. Essa intolerância vai até o ponto de liquidar o outro, onde ele se torna desnecessário no mundo”, ele diz.

O filósofo acredita que o que está no cerne da questão é uma velha briga no ocidente onde se luta pelo direito de rir de crenças alheias. Isso vem desde Aristófanes (dramaturgo da Grécia Antiga, que escrevia sátiras com duras críticas políticas e sociais) caçoando de Sócrates, de Sócrates caçoando dos Deuses antigos, de Juvenal (poeta satírico) em Roma dizendo que é rindo que se castiga os costumes e assim por diante. Ele diz não ver diferença nenhuma entre um muçulmano se arrepiando ao ver a caricatura de Maomé e um cristão ao ver Jesus Cristo saindo de um bordel após participar de uma orgia onde estuprou escravas sexuais, num filme de Luis Buñuel.

Gianotti afirma não haver limites para a sátira e que ela não ofende as pessoas que têm bom senso, só ofende os fanáticos, mas os fanáticos ao seu ver, devem ser satirizados. Também diz que o muçulmano que não é capaz de rir de uma sátira com Maomé, não acredita realmente que seu profeta esteja além dessas brincadeiras, ou dessas ironias como colocou. “O cristão pode ficar incomodado quando vê cristo saindo do bordel, mas se ele tiver crença em Deus, ele não acha que Deus seja afetado por uma imagem de Buñuel. O verdadeiro muçulmano, ao ver a caricatura de Maomé, não vai achar que a figura de Maomé ou os ensinamentos de Maomé são afetados por essa travessura”.

Nesse sentido, Henri Bergson em seu livro “O Riso”,  fala sobre a insensibilidade que acompanha o riso, pois para vermos graça em algo, precisamos nos distanciar emocionalmente. “O maior inimigo do riso é a emoção”, Bergson escreve, “o cômico exige algo como certa anestesia momentânea do coração para produzir todo o seu efeito. Ele se destina à inteligência pura”.

Para Gianotti, esses ataques mostram que nós estamos em guerra. Não é uma guerra declarada, mas uma guerra terrorista entre fanáticos e pessoas que ainda querem manter a liberdade de pensamento. Quando a intolerância chega ao limite, você passa a matar o inimigo. Só que a guerra moderna é uma guerra de guerrilha, não são mais dois exércitos se enfrentando no campo de batalha, mas é uma guerra de terror, que aterroriza a população. Essas mortes chocaram mais do que outras porque são emblemáticas, “mostram como uma crítica que é absolutamente inócua, por ser no fundo um desenho que faz rir, é capaz de matar”.

O combustível do canhão

O cartunista Chico Caruso me disse acreditar que o objetivo da sátira é ajudar a sociedade a pensar. Ele cita o pequeno conto “A função da Arte/1”, de Eduardo Galeano, publicado em “O Livro dos Abraços” (L&PM, 1997):

“Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: Me ajuda a olhar!” .

Chico diz que a sátira cumpre com esse papel, nos ajudar a ver a realidade. E por isso precisa ter força e não ter medo de ofender, para poder “descabaçar conservadorismos”, como ele colocou. A própria palavra charge simboliza força, energia, é a carga do combustível do canhão. Perguntei se o humor deveria fazer ponderações e ele disse que a reunião de pauta do Charlie Hedbo (já divulgada na mídia) era cheia de ponderações.