A última escolha de Marco

Por Camila Appel

Marco Archer Moreira foi condenado à morte na Indonésia por tráfico de drogas. O instrutor de voo tentou entrar no país com 13 quilos de cocaína escondidos no tubo de uma asa delta, que foram detectados pelo raio-x. Após constantes rejeições a pedidos de clemência ou permissão para cumprir pena no Brasil, o governo do país anunciou sua execução. Ela deve ocorrer por fuzilamento, junto com mais cinco pessoas, nesse domingo.

Marco tomou uma decisão errada, lá em 2003, quando resolveu cometer um crime num país onde todos sabem ser punido com a morte. Durante sua vida deve ter passado por infinitas decisões certas, erradas, mais ou menos, ou mesmo nada, sem significância. Na cadeia escutou muitos nãos e está sentindo na pele o que é a não-opção.

Ironicamente, ele poderá fazer uma última escolha: morrer deitado, sentado ou em pé. De qualquer forma terá seus olhos cobertos (por uma venda ou capuz). Por que dar a possibilidade dessa última escolha aos condenados? Fiquei refletindo sobre esse mistério e fui atrás de uma psicóloga.

Lúcia, 65, disse não conhecer nenhum estudo sobre isso. Mas por ser espiritualista, acredita ser mais confortável estar deitado, para facilitar o desprendimento do espírito. Ela acha que a sensação de cair deve tornar o impacto maior. “Em casos de morte violenta, a energia vital, que mantém o corpo grudado no espírito, não se dissolve imediatamente com um tiro. Ela vai se desfazendo lentamente até cortar o cordão. Essa morte súbita é dolorida. Na morte natural, esse cordão é rompido imediatamente. Por isso, estar deitado amenizaria o impacto, já que não há a queda brusca, nem a força da gravidade”, ela disse.

Essa resposta não me satisfez, mas não encontrei um conhecimento científico a respeito e fiquei grudada nesse dilema. Perguntei para amigos, que deram respostas variadas. Sueli, 70, preferiria morrer de pé, para encarar a situação de frente, com dignidade. Marcos e André, 33, também, e se possível olhando para o executor. Luiza, 28, já escolheria sentada, por ser uma posição que representa espera. Sara, 30, preferiria deitada, porque assim ela teria se feito deitar e ninguém mais. Para Luciana, 35, não importa a posição contanto que seja de costas. Uma amiga comentou que escolheria estar de pé e cuspiria no chão simbolizando seu nojo pela ignorância deles. A resposta dela gerou um debate sobre tráfico de drogas, vícios e pena de morte.

A maior parte das respostas que encontrei toca na questão do orgulho. Erguer a cabeça e encarar de frente ou mesmo no caso da Sara, que prefere ela mesma se colocar na posição deitada para que ninguém o faça. Existe a probabilidade de a queda não ser sentida, mas a ideia de cair não agrada muitos. Não há resposta boa, claro, e o enigma continua. De pé, sentada ou deitada? Caramba! Prefiro não morrer, dá?

Parece que no caso de Marco, não. Marco, torço para que consiga enviar sua mente a algum cenário que traga o mínimo de conforto. Se eu estivesse no seu lugar, acho que faria de tudo para visualizar o paraíso, uma cachoeira gelada em dia quente, com um banco natural de pedras aconchegantes, envolvendo o corpo como um abraço materno. Fecharia os olhos com certo orgulho sim e emanaria amor. Mas eu faria tudo isso, nem deitada, nem sentada, nem de pé. Ia pedir para rodopiar, para pelo menos assim deixar os soldadinhos um tanto zonzos, e na tontura de um pega-pega, morrer criança.

* O repórter Ricardo Gallo, enviado à Indonésia, me alertou que, de acordo com a lei local que trata das execuções, as opções são em pé, sentado ou ajoelhado.

** Atualização em 22/01: Segundo reportagem da Folha, Marco decidiu ser fuzilado em pé. Veja aqui.