A era dos adictos

Por Camila Appel

Vamos falar sobre o suicídio.

O tema é considerado tabu e uma questão alarmante. Todos os anos, cerca de 12 mil pessoas se suicidam no Brasil, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), e 800 mil no mundo. A taxa de suicídio cresceu 62,5% nos últimos trinta anos, aumentando o ritmo a partir da virada do século, segundo o Mapa da Violência 2014, organizado por Julio Jacobo Waiselfisz. De acordo com esse estudo, há pouca discussão sobre o tema e haveria um tabu na mídia de divulgar essas questões para evitar o efeito de incentivar suicídios por imitação ou indução, chamado de Efeito Werther. A produção acadêmica também não estaria acompanhando essa realidade. Acesse o mapa neste link.

A OMS divulgou um relatório em 2014, colocando o crescimento das taxas de suicídio como um grave problema mundial de saúde pública. É a segunda causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos e há indícios de que para cada adulto que se suicida, 20 tentaram cometer o ato. A instituição afirma que os suicídios são evitáveis e elaborou uma cartilha sobre como preveni-lo. Disponível aqui.  Ela é destinada a profissionais de saúde, mas acredito poder ser útil para o público em geral. Segundo reportagem da Folha sobre esse relatório, o Brasil é o oitavo país no ranking mundial de suicídios.

Tenho escutado cada vez mais notícias de que um amigo de infância, colega de classe ou mesmo amigo próximo, se suicidou. E acredito que não sou a única. Há várias questões fundamentais a serem discutidas do porquê do aumento das taxas de suicídio e o que fazer a respeito. A entrevista abaixo traz o ponto de vista de Thiago Sarkis, psicanalista de Belo Horizonte, membro e supervisor da CAPA*.

Ele faz uma análise dos tempos atuais, refletindo sobre o que chama de “A era dos adictos”. O cenário traçado me parece um bom ponto de partida para a discussão que pretendo trazer cada vez mais a esse fórum. Já abordei em outros posts as campanhas “Precisamos falar sobre o aborto” e a “Vamos falar sobre o luto”. Agora inicio essa: “Vamos falar sobre o suicídio”, seja pensando sobre características patológicas da nossa sociedade ou mesmo em termos práticos.

Dizem que não se fala em suicídio na mídia por causa do tal Efeito Werther, que se baseia na ideia de que explorar o tema pode incentivar potenciais suicidas a cometerem o ato, ao lerem notícias de pessoas famosas que se mataram, por exemplo. De forma mais abrangente, o efeito fala sobre como comportamentos humanos podem ser influenciados por ideias, e tem esse nome herdado de um romance de Goethe – “Os Sofrimentos do jovem Werther” (1774), em que o protagonista se suicida por causa de um amor frustrado. Utilizar o medo desse efeito como justificava para ficarmos calados não é válido e talvez uma das causas para as taxas aumentarem ainda mais. Claro que não é benéfico falar em suicídio de forma sensacionalista, mas fora isso, é fundamental discutirmos esse tema e suas ramificações.

Segue, abaixo, a entrevista.

O que seria a era dos adictos?

Vivemos numa era alarmante quanto ao abuso, à compulsão, ao vício. Não só em relação a drogas (remédios e drogas ilícitas), mas também a vícios de todo tipo: viciados em celular, internet, rede social, futebol, televisão, bebida. Tudo é vício e tudo é vivido à exaustão. Compramos demais, comemos demais, bebemos demais, jogamos demais, teclamos demais, produzimos demais, trabalhamos demais, fazemos exercícios físicos demais, contudo, falamos de menos sobre o que eu chamo de “território do negativo” – fragilidade, tristeza, falta de sentido, dificuldades, desordem, morte, falhas, diacronia, estranheza, desencontros, adoecimentos, suicídio etc. Diferenças então? Nem pensar. Jamais tratamos disso.

Esse cenário pode estar relacionado ao aumento das taxas de suicídio?

Essa situação da adição não necessariamente leva ao suicídio ou teria a ver com o aumento das taxas de suicídio, mas os dois temas tocam a mesma questão, que é a de como lidamos com o vazio na contemporaneidade. Procuramos sempre reafirmar nossa identidade, ou aquilo que está no que eu chamo de “território do positivo”. Fazemos com esse território, que inclui, dentre outras coisas, identidade, potência, capacidade, força, saúde, vitalidade, resistência, beleza, sincronia, sentido, ordem, ideal etc., o oposto do que fazemos com o “território do negativo”. Enquanto fugimos e evitamos a todo custo qualquer contato com o registro da falta, vamos sedentos em busca de tudo – e o tempo todo – que tange ao registro do “positivo”. É importante ressaltar que, quando falo de positivo e negativo não associo qualquer ideia de bom ao positivo e mau ao negativo, nem qualquer coisa similar. O território do negativo apenas marca uma subtração no Eu e o do positivo marca um acréscimo, um “a mais”.

Lidar com o registro da falta não é de fato fácil, mas quanto menos o fazemos, mais dificuldade temos ao nos depararmos com isso. Lembro-me de assistir a jogos de futebol com as torcidas misturadas. Hoje em dia a coisa se agravou de tal forma que decidiram separar as torcidas, inclusive impedir que ambas estejam nos mesmos jogos, porque o lidar com o outro, com esse registro da alteridade radical, com aquilo que não confirma minha identidade mas sim marca uma diferença, traz dúvidas insuportáveis: o que sou eu? Quem sou eu? Sou de fato o que penso que sou? Então, procura-se eliminar a dúvida.

Quais aspectos podem ser vistos como determinantes em casos de suicídio e como isso se correlacionaria com o que estamos falando?

Algo que me parece claro no caso do sujeito que comete suicídio é certo raciocínio peculiar que vai se desdobrando desta maneira: “Não há sentido. Tudo dá em nada. Tudo é nada. Nada é tudo. Eu sou nada. Nada vai mudar. Não há mais nada a fazer”. O sujeito que comete um suicídio, entretanto, não é necessariamente um niilista. O niilista vê a falta de sentido em toda e cada parte ou ao fundo de tudo. O suicida não vê nada além do nada. Ele habita exclusivamente o território do negativo e crê que este território é tudo o que há.

Outro aspecto importante: talvez todos nós já passamos por um ou vários destes pensamentos: “tudo dá em nada”, “não há nada que eu faça que adiante”, “tudo é nada”, “eu sou nada”, “eu não sirvo para nada”, “tudo dá errado comigo”. Enfim, estes e similares. O suicida não é alguém que me parece simplesmente passar por estes pensamentos. Ele é alguém que se afunda nestes pensamentos, que não consegue se desvencilhar minimamente de quaisquer destas perspectivas e que, ao invés de se psicanalisar e se tratar a fim de questionar todas estas certezas, encerra seu suplício indo ao encontro da única coisa que enxerga: o nada.

É absolutamente equivocado e simplista dizer que o pensamento da pessoa que comete um suicídio é um “raciocínio estúpido” ou que, para mudar, basta que a pessoa “pense diferente”. Não é uma questão consciente. O raciocínio descrito é resultado de uma série de fatores que incluem agressividade, ansiedade, sensações de depreciação, exclusão, inutilidade, inoperância, impotência, fracasso em relação às próprias expectativas ou de outros, frustrações, sérios conflitos em relações interpessoais (principalmente com aqueles que operam nas funções paterna e materna) etc. A quantidade de questões singulares que acharemos nestas situações é imensa também. Não há como dizer: “é assim para todos”. No máximo: “generalizando, é assim”. Só ouvindo a história de cada um para entender.

O que mais podemos ver de comum em pessoas que pensam ou chegam a efetivar um suicídio?

Outro ponto comum é ver nas pessoas que falam seriamente em suicídio a aplicação em si de uma agressividade que, na verdade, se desviou: inconscientemente se direciona a outro, porém, algo impede que essa agressividade se realize em relação a este outro, e ela “estaciona” na pessoa ou, em termos freudianos, “retorna” na própria pessoa.

Em outros casos, é possível observar a pessoa agredindo o que há deste outro em si. Ao se ver repetir um ato que repudia e que é usual de algum outro que ele não quer ser e com quem não quer se parecer minimamente (em outras palavras, ao se deparar com uma identificação indesejada), o sujeito pode se agredir de múltiplas formas, dentre elas, o próprio suicídio.

Há um abuso do uso de remédios como anti-depressivos e ansiolíticos?

Em determinadas situações, sim, há abuso. O remédio deixa de ser medicamento e passa a ser droga destinada a perpetuar o estado do paciente, ao invés de ajudá-lo. Por exemplo, já escutei analisandos dizendo que não podem parar de tomar o remédio porque não podem falhar, não podem parar de forma alguma em qualquer âmbito: não podem, nem por um instante, vacilar, parar de trabalhar, parar de ser um bom marido, um bom pai, lidar com os próprios limites, pensar em questões pessoais.

 O remédio tem o seu lugar e vem auxiliando para que, mesmo em condições psicológicas desfavoráveis, a pessoa possa seguir a vida. Alguns cenários psicopatológicos são seriamente impossibilitantes e nestes o remédio atua muito bem. Mas o uso do remédio às vezes é que é questionável, pois entra no lugar de uma droga. Ao invés de auxiliar o paciente a lidar com suas questões, o remédio comumente tem surgido como aquilo que se alia ao excesso do paciente e “o ajuda” a não ter que lidar minimamente com quaisquer de suas questões. Algo similar a um jovem que toma uma pílula na boate para poder se manter de pé até o amanhecer. Ou o funcionário que precisa trabalhar a noite inteira e apela a todas as substâncias possíveis para não dormir, “não parar”, “não falhar”. Todos esses cenários partem do princípio da necessidade de se produzir esse “a mais” eterno. É sempre um mais, a coisa não acaba. A pessoa, sim, “se acaba”, mas não sei se no melhor sentido da expressão.

Você vê alguma pressão para sermos felizes?

Uma marca cruel da atualidade é a exigência de felicidade, assim como a necessidade de você transmitir essa felicidade a seus semelhantes e vivê-la constantemente, ininterruptamente. Isso não é felicidade. Isso é mania. Toca mais no pathos do que na felicidade real, que seria mais próxima de coisas momentâneas, do desfrutar, contemplar do que do “se acabar”, ou viver em um interminável excesso. A felicidade não existe initerruptamente. A tristeza tem o seu lugar e é fundamental que ela tenha o seu lugar. Não podemos excluí-la. E ai tocamos novamente no território do negativo: a tristeza, a diferença, a falha, a incapacidade, a dificuldade, a morte, o adoecimento. Não falamos sobre isso, excluímos esses temas das nossas conversas e agimos como tudo isso sequer existisse.

Mas não é possível tamponar essas coisas porque são elas que se afirmam para além de nossa vontade. Podemos fazer o esforço que for, por meio de drogas, de Instagram, de inúmeros selfies, aquisições e compras de todo tipo, sorrisos amarelos de suposta alegria, horas e horas conectados à Internet, mil “amigos” no Facebook que sequer nos conhecem e qualquer outra coisa que nos ajude a ser vistos da forma desejada ou idealizada por nossos semelhantes, mas não adianta. Esse projeto de “eterno a mais” é fracassado desde seu princípio, por tentar afirmar aquilo que – eventualmente – se conquista, e evitar a todo custo aquilo que inevitavelmente se impõe.

Como lidar com isso?

É uma resposta difícil e não penso que falemos de uma cura aqui. Falamos mais de um tratamento, de algum apaziguamento possível. Talvez um ponto crucial seja conseguir encontrar um sentido próprio para a vida; conseguirmos nos esquivar um pouco dos sentidos ofertados e, assim, tentar encontrar um sentido mais particular, que tenha ressonância com nosso desejo, não com a demanda externa.

Essa tentativa eterna de afirmar um positivo faz justamente com que se caia no vazio – em relação ao próprio desejo principalmente. E se não sabemos lidar com isso, porque evitamos qualquer contato com este ponto no nosso dia a dia, acabamos reagindo aos encontros com o “território do negativo” com quadros de ansiedade, pânico, depressão, adição, e até mesmo, o suicídio.

Porque essa questão da adição, como você coloca, está impactando essa era especificamente?

Além da maneira como lidamos com a falta, nossa era tem uma maneira muito particular de lidar com os objetos. É uma via intensa, funcional, sem limite. O que marca a experiência da adição no nosso tempo pode estar conectado a essa experiência ininterrupta com nossos objetos de investimento. Estamos em absoluto curto-circuito com as centenas de objetos com os quais nos relacionamos.

Acho que isso que estou falando é caricaturalmente representado em um episódio recente dos humoristas do “Porta dos Fundos”, chamado “Sem Bateria”, onde um casal está num restaurante e o homem fica sem bateria do celular. Assim, ele é obrigado a conversar com sua esposa e vê que não sabia nada da vida dela, nem de sua própria de certa forma. Esse sujeito é um emblema da adição da nossa sociedade, da vivência funcional com nossos objetos e de como o “vazio” se impõe para além de todos os nossos infrutíferos esforços do contrário. Estamos em curto-circuito.

Qual é o futuro dessa realidade?

O futuro dessa realidade já é um pouco do que vemos na atualidade. Se é um curto-circuito, em algum momento vamos pifar, entrar em colapso. Mas não é uma situação apocalíptica, porque temos nossos meios e temos outras habilidades. Essa questão de nossas relações de objeto tem uma marca muito forte no homem contemporâneo e nos causa danos seríssimos, mas não somos só isso.

Há solução?

Há apaziguamentos, possibilidades de melhora. Algum excesso, porém, estará sempre ali. Ou melhor, aqui (em nós). E cada analisando encontra a sua forma de melhorar a partir da análise. O certo é que uma forma de amenizar esse processo agudo é passar a discutir essas questões, falar dos sentimentos, falar do que dói, abrir as portas a esse território que tão freneticamente evitamos.

* CAPA: China American Psychoanalytic Alliance

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Lassedesignen – Fotolia

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