Odete Lara: a bela em busca da paz

Por Camila Appel

cleOdete Lara foi uma inspiração para o blog “Morte sem Tabu”. A ideia surgiu ao ler um depoimento seu onde dizia que a morte é o próximo tabu a ser quebrado na nossa sociedade, depois do sexo. Ela morreu dormindo, de infarto, aos 85 anos, numa clínica de repouso no Rio de Janeiro, onde passou seus últimos dias.

O abandono sempre esteve presente na vida de Odete Lara. A mãe suicidou-se pulando num poço de água do jardim de casa quando ela tinha 6 anos, e o pai quando ela tinha 18, tomando soda cáustica.

Após a morte da mãe, foi para um internato de freiras mas não se adaptou – recebia castigos por chorar muito – e foi transferida para a casa da madrinha de batismo. Era muito ligada ao pai, apesar da distância devido à tuberculose que ele sofria e de rejeitar a decisão profissional da filha em ser atriz. Depois da morte dele, Odete se fez a promessa de ser “alguém”.

Nasceu em 17 de abril de 1929, como Odete Righi, herdando o sobrenome da mãe, por seu pai já ser casado. Ele largou a esposa e um filho na cidade natal, Veneza, alegando vício de jogo. Como não levava o sobrenome do pai, Odete sofria preconceitos, chamada de filha ilegítima, um tabu para a época.

Assim foi construída sua imagem de mulher séria, dotada de uma solidão ancestral, como disse Ignácio de Loylola Brandão no prefácio da autobiografia de Odete “Minha Jornada Interior” (Best Seller, 1990).

Foi justamente esse semblante que a levou ao sucesso. Quando começou a carreira de atriz, num comercial na então recém inaugurada TV Tupi, chamou atenção por se recusar a sorrir, uma atitude nada comum para alguém tentando vender um produto.

O ar enigmático e sua beleza falaram mais alto e essa musa incomum virou atriz da TV Tupi, encarnando a rainha má da Branca de Neve. Atuou em telenovelas e foi estrela de um famoso programa de adaptacão de clássicos da literatura, um marco no início da TV.

Odete foi modelo, participando do primeiro desfile da moda brasileira, realizado no MASP em 1951, cantora de shows como “Skindô”, ao lado de Vinicius Moraes e “Meu Refrão” com Chico de Buarque. Também foi escritora, publicou três livros autobiográficos, “Eu Nua” (Civilizacão Brasileira, 1976), “Minha Jornada Interior” (Best Seller, 1990) e “Meus Passos na Busca da Paz” (Rosa dos Tempos, 1997) além de traduzir várias obras do budismo.

Foi atriz de teatro, iniciando no TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), e dizia não gostar do teatro por não suportar sua timidez. Estreou no palco com “Santa Marta Fabril SA”, contracenando com Walmor Chagas e Cleyde Yáconis. Mas antes atuou em “Luz de Gás”, ao vivo na TV Tupi, ao lado de Paulo Autran e Tônia Carrero. Suas atuações acentuavam a imagem de mulher grave e distante, conquistando cada vez mais atenção.

Odete será lembrada mesmo como atriz de cinema. Fez 32 filmes entre 1956 e 1979. Estreou ao lado de Mazzaropi até se tornar musa do cinema novo, com destaque para o polêmico “Noite Vazia” (1964) de Walter Hugo Khouri e o premiado “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (1969), de Glauber Rocha.

Ela era namoradeira assumida. Disse em sua autobiografia só se sentir integrada no mundo quando estava fazendo amor. Foi casada com o dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho e com o diretor de cinema Antonio Carlos Fontoura. Teve um caso com o novelista Euclydes Marinho, Tom Jobim e Paulo Autran. Não teve filhos. Segundo sua autobiografia, engravidou virgem. Queria abortar pela barriga para não perder a virgindade. Ao longo da vida fez mais quatro abortos.

Odete tinha traços avançados para a época: a busca da independência financeira com o trabalho – com 16 anos já era secretária na reitoria da USP, o autoconhecimento através da psicanálise – frequentava o mesmo psicanalista da sua amiga Nara Leão – e o namoro assumido com homens mais jovens. Ela teve um longo relacionamento com o ator Paulo Sacks, 25 anos mais novo.

Foi premiada no festival de gramado por sua contribuição ao desenvolvimento do cinema brasileiro e ganhou o APCA em 1975 pelo conjunto da obra.

Odete estava no auge da carreira cinematográfica quando decidiu abandoná-la protagonizando o movimento que sentiu ser vitima durante sua vida. Auto-exilou-se em Nova Friburgo onde passou a se dedicar ao budismo, ocupando seu tempo com meditação, yoga, leituras, tradução de livros e escrita. Seu último longa, em 1979, foi “O Principio do Prazer”. A bela que marcou toda uma geração com seu ar enigmático e despudor passou os últimos anos de sua vida nas montanhas do Rio de Janeiro, em busca de paz.