Técnicas de conservação do corpo

Por Camila Appel

Quando morremos, o corpo humano inicia um processo natural de decomposição chamado autólise. Ele começa a nível celular, passando para as vísceras (órgãos), principalmente na região abdominal, e depois para os demais tecidos.

As técnicas de conservação do corpo existem para retardar esse processo. Em alguns casos, elas são obrigatórias, em outros, uma alternativa para fins estéticos. Cabe à família escolher se deseja fazer uso delas ou não e qual técnica usar. É interessante saber o que há por aí e como funciona, para poder ter um pouquinho mais de conhecimento na hora de tomar uma decisão tão estranha como essa, justo no momento em que estamos menos dispostos a isso.

Erivelto Luis Chacon, médico legista, diretor da SETEC (Serviços Técnicos Gerais da Prefeitura de Campinas) e professor de anatomia na Faculdade de Medicina de Jundiaí, me passou as informações abaixo.

“Embalsamamento” é um termo genérico para se referir a algum método de conservação de cadáver, já que hoje existem vários, como: Formolização, Embalsamamento Nacional, Embalsamamento Internacional e Tanatopraxia. São considerados tecnicamente como “serviço de somatoconservação de cadáveres”, previstos na Resolução SS – 28, de 25/02/2013 da Secretária de Estado da Saúde de São Paulo.

A técnica mais apropriada a ser empregada depende dos seguintes fatores:

1-) A causa da morte;

2-) O tempo que vai decorrer entre o falecimento e o sepultamento;

3-) No caso de transporte por via terrestre a outras cidades, a distância que será percorrida;

4-) No caso de transporte aéreo nacional em aeronave de passageiros ou comercial ou especialmente fretada. A legislação obriga que o cadáver seja embalsamado.

5-) No caso  de transporte aéreo internacional em aeronave de passageiros ou comercial ou especialmente fretada e/ou transporte marítimo. A legislação obriga que o cadáver seja embalsamado por uma técnica reconhecida pelas convenções internacionais (Processo Espanhol de Embalsamamento).

Algumas causas de morte têm recomendação específica por embalsamamento, como as por doenças que geram grande acúmulo de líquido no corpo, (insuficiência hepática, cirrose hepática, insuficiência renal aguda, entre outras), alguns tipos de câncer que causam a necrose dos tecidos e o diabetes em estágio avançado, quando se tem a necrose “gangrena” das extremidades.

Algumas mortes por causas externas, como acidentes, queimaduras e afogamentos também recebem a indicação de passar por um processo de embalsamamento, independente da técnica, caso contrário, o cadáver estará rapidamente exalando mau cheiro e/ou apresentando transformação cadavérica (inchaço, esverdeamento do tegumento, extravasamento de líquidos corpóreos, etc.).

A conservação do corpo também pode ser requerida pela família por uma questão estética, pois deixa o cadáver com uma aparência serena, como se estivesse dormindo, sem algumas das características de morte como a cianose (coloração azul-arroxeada da pele) em especial na face e nas pontas dos dedos. A tanatopraxia deixa a pele levemente rosada, hidratada, sem a rigidez cadavérica, permitindo moldar-se a face para que perca o aspecto de dor.

Segue uma breve descrição de cada técnica.

Formolização:

A “Formolização Simples” consiste em aplicação de múltiplas injeções de formol (formaldeído na concentração de 10%) nas grandes massas musculares. Isso resguarda o cadáver em velório ou transporte terrestre a curta distância por aproximadamente 24 horas após a morte.

Embalsamamento:

O “Embalsamamento Nacional” consiste na abertura das cavidades craniana e toracoabdominal com a remoção de todos os órgãos e vísceras. Preenche-se as cavidades com serragem embebida em  formol (formaldeído na concentração de 10%). Também se aplica múltiplas injeções de formol nas grandes massas musculares. Essa técnica resguarda o cadáver em velório ou para transporte terrestre acima de 500 km,  ou transporte aéreo por aproximadamente 36 horas após a morte.

O “Embalsamamento Internacional” consiste na infusão de formol no sistema arterial e drenagem do sangue pelo sistema venoso. Após esse procedimento, realiza-se a abertura das cavidades craniana e a toraco-abdominal com a remoção de todos os órgãos e vísceras e as preenche-se com serragem misturado a uma série de produtos químicos, denominada “Fórmula A”. Após a reconstituição do cadáver, ele é banhado com álcool canforado. Em seguida, prepara-se um acolchoado no fundo da urna mortuária com uma outra série de produtos químicos denominada “Fórmula B”.

Essas duas fórmulas, quando ativadas, exalam um gás conservante no interior da urna, não permitindo que o cadáver entre novamente no processo de decomposição. Para isso, a urna mortuária zincada é hermeticamente soldada. Esse procedimento resguarda o cadáver em velório ou para transporte terrestre a longas distâncias, ou principalmente para transporte aéreo internacional por mais de 15 dias após a morte.

Tanatopraxia

É uma técnica relativamente nova. Está no Brasil desde 1994 e é considerada uma arte conservativa e restaurativa de cadáver. Ela consiste na infusão, através de um equipamento próprio chamado “Bomba Injetora”, que injeta um líquido conservante no sistema arterial do cadáver e faz a drenagem do sangue pelo sistema venoso. Assim, não há necessidade de abertura das cavidades corpóreas para a remoção dos órgãos e vísceras.

Após o término da injeção, aplica-se com um trocater introduzido na cavidade abdominal, um outro produto conservante que vai atingir internamente a cavidade torácica, abdominal e pélvica. Associada a essa técnica, realiza-se, quando necessário, a reconstituição cadavérica utilizando-se massas, ceras, peles artificiais ou a colocação de próteses. Quando o cadáver está íntegro, pode-se apenas aplicar a necromaquiagem. Esse procedimento resguarda o cadáver para velório ou para transporte terrestre para pequenas e longas distâncias, ou para transporte aéreo nacional. O tempo de conservação do cadáver é determinado pela concentração dos líquidos conservantes. Quanto menos diluído, maior o tempo de conservação pós-morte.

Liguei numa empresa especializada em tanatopraxia que me informou o custo de R$ 1450,00 para um procedimento de duas a três horas que resgarda o corpo por 72h (impede sua decomposição até 72h após a morte). Eles não recomendam a formolização por ser irregular (realizada em espaços inadequados) e não oferecer garantia, apesar de ser mais barata. Outra empresa me informou o custo de R$ 1000,00 mais R$ 100 para a necromaquiagem. Eles também não recomendam a formolização, por já ser uma técnica ultrapassada e com restrições na Anvisa. Essa empresa disse que se o corpo estiver necropsiado, o procedimento sugerido é o embalsamamento. Se não, eles indicam a tanatopraxia, por deixar o rosto com uma aparência mais serena, e os dois procedimentos têm o mesmo custo. Uma terceira empresa me passou o valor de R$ 500,00, o que dá a atender estarmos lidando com um setor um tanto quanto instável.

Existem ainda técnicas de conservação de cadáveres utilizados para fins didáticos, como para uso em aulas práticas de anatomia humana. Pode-se usar o embalsamamento, a glicerinização e, atualmente, a técnica mais moderna é a plastinação – em que  as peças cadavéricas ficam parecendo plastificadas, pois se utiliza materiais plásticos como silicone, resina de epóxi e poliéster. A plastinação foi desenvolvida pelo anatomista Alemão Prof. Gunther von Hagens e usada para exposições como “Fantástico Corpo Humano” e “Human Bodies”. Veja um passo a passo dessa técnica aqui (em inglês).

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Leia mais sobre esse tema nos posts: “Enterrar ou cremar?” e “O que você quer ser quando morrer”.

Interessado em entender como funciona uma autópsia? Veja em “Visita ao necrotério”.

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Exposição Human Bodies, 2012. Foto: divulgação.