A despedida de Oliver Sacks

Por Camila Appel

Um texto do escritor e neurologista inglês Oliver Sacks, 81, para o jornal “The New York Times”, tem sido muito compartilhado no Facebook. Com o título “My Own Life” (“Minha Própria Vida”, em tradução livre), Sacks anuncia ter câncer terminal, com múltiplas metástases no fígado, e reflete sobre a vida e a morte.

Sacks, o escritor do livro “Tempo de Despertar” que inspirou o filme de mesmo nome indicado ao Oscar (1991), afirma usar o tempo que resta para aprofundar relações, ser produtivo e acima de tudo, focar no essencial. Para ele, estar perto da morte é ter certa perspectiva e poder não se importar com coisas que pertencem ao futuro, como o aquecimento global e a desigualdade social.

Apesar de ele não mencionar a palavra, seu texto me passou a sensação de liberdade. Como se Sacks agora pudesse ser livre para fazer o que realmente quer, conversar apenas com quem realmente deseja, ser extremamente sincero, tudo aquilo que pensamos quando nos deparamos com a noção de não se ter mais tempo a perder.

Norbert Elias (1887-1990), um sociólogo bastante mencionado aqui no blog, diz que morrer é mais fácil para aqueles que veem sentido na sua vida e sentem ter alcançado seus objetivos. Sacks aparenta a tranquilidade de quem está confortável com as escolhas que fez, suas conquistas e relacionamentos.

A dra. Milena Reis mencionou numa entrevista para o blog, no post “A tal da boa morte”, que ter um tempo para se despedir e pensar no legado deixado é muito importante no processo de lidar com a morte iminente. Sacks menciona já ter publicado cinco livros, uma autobiografia e ainda ter outros para terminar, o que me soou como fruto de um pensamento como esse, uma das respostas para a pergunta: que legado deixarei?

Dra. Milena também pede para seus pacientes em final de vida escreverem sobre como acham que as pessoas que amam se lembrarão deles. No texto, Oliver Sacks diz que as pessoas que o conhecem reconhecem sua “disposição veemente, entusiasmo violento e extrema imoderação em todas suas paixões” (tradução livre). É possível perceber certo orgulho nessa afirmação. E arrisco dizer ser um sentimento bom, esse de achar que se é reconhecido por uma característica de intensidade, ainda mais para um escritor.

Claro que ele menciona o medo da morte e inclusive a dificuldade em se sentir desapegado da vida em seu atual momento, frase emprestada do filósofo David Hume (1711-1776), que Sacks admira. Mas esse medo não é o foco do escrito. Com 81 anos, ele aponta para certa resignação, gratidão e carinho pelo mundo que em breve deixará.

Achei o texto leve no tratar da morte iminente e belo, com a capacidade de tocar o leitor para uma realidade dura mas ao mesmo tempo essencial, complexa mas ao mesmo tempo simples, universal e ao mesmo tempo completamente particular, um destino bonito de tão cruel que é, no fundo, a grande ironia da vida – a morte.

“I have been increasingly conscious, for the last 10 years or so, of deaths among my contemporaries. My generation is on the way out, and each death I have felt as an abruption, a tearing away of part of myself. There will be no one like us when we are gone, but then there is no one like anyone else, ever. When people die, they cannot be replaced. They leave holes that cannot be filled, for it is the fate — the genetic and neural fate — of every human being to be a unique individual, to find his own path, to live his own life, to die his own death. I cannot pretend I am without fear. But my predominant feeling is one of gratitude. I have loved and been loved; I have been given much and I have given something in return; I have read and traveled and thought and written. I have had an intercourse with the world, the special intercourse of writers and readers. Above all, I have been a sentient being, a thinking animal, on this beautiful planet, and that in itself has been an enormous privilege and adventure”.

—- Oliver Sacks

 

Tradução livre:

“Tenho estado extremamente consciente, pelos últimos dez anos mais ou menos, sobre as mortes de meus contemporâneos. Minha geração está se extinguindo, e sinto cada morte como uma ruptura, um rasgo de uma parte minha. Não existirá ninguém como nós quando formos embora, mas até aí, não existe ninguém parecido com ninguém, nunca. Quando as pessoas morrem, elas não podem ser substituídas. Elas deixam buracos que não podem ser preenchidos, mas é esse o destino – o destino genético e natural – de cada ser humano ser um indivíduo único e individual, e encontrar seu próprio caminho, viver sua própria vida, morrer sua própria morte. Não posso fingir que não tenho medos. Mas meu sentimento predominante é o de gratidão. Eu amei e fui amado; recebi e dei em troca; li e viajei e refleti e escrevi. Eu tive um relacionamento* com o mundo, o tipo de relacionamento especial que os escritores e leitores tem. Acima de tudo, eu fui um ser sensível, um animal pensante, nesse lindo planeta, e isso em si mesmo tem sido um grande privilégio e uma aventura”.

* intercourse também pode ser traduzido como relação sexual e nesse sentido, Sacks poderia indicar, de forma poética, “ter tido uma relação sexual com o mundo, o tipo de relacionamento especial que escritores e leitores tem”.

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Ilustração de Hanna Barczyk para o jornal “The New York Times” no artigo de Oliver Sacks, “My Own Life”.