O que você quer ser quando morrer, parte 2 – árvore ou vinil?

Por Camila Appel

“Quando eu morrer, quero virar árvore” é um comentário comum dos empolgados com o anúncio de um projeto italiano chamado “The Capsula Mundi”. Desenvolvido por dois designers, Anna Citelli e Raoul Bretzel, consiste na substituição de caixões por cápsulas biodegradáveis, em formato de ovo. O corpo é enterrado em posição fetal, dentro dessas cápsulas, e servirão de nutrientes para uma árvore que crescerá a partir de sua decomposição. Pode-se plantar uma semente de árvore ou a própria árvore em cima do casulo. O site do projeto disponibiliza algumas opções de árvores para escolha, dependendo da região, e afirma que “a árvore representa a união entre a terra e o céu, o material e o imaterial, o corpo e a alma”.

Ainda não funciona na prática, porque as leis italianas não permitem esse tipo de enterro. Quando houver a permissão, seu objetivo é criar um cemitério cheio de árvores ao invés dos túmulos tradicionais. E oferecer um impacto positivo no meio ambiente, já que estaríamos adicionando uma árvore no mundo ao invés de usarmos uma para fazer o caixão.

Outra ideia inovadora é a opção de “virar um vinil” ao morrer. Os restos mortais são prensados num disco de vinil que toca músicas de sua escolha. Segundo uma empresa inglesa “End Vinyly”, o pacote básico custa £3.000 libras e inclui decoração e gravação de até 30 discos com duração máxima de 24 minutos cada, 12 minutos cada lado. Pode-se gravar depoimentos, sua própria voz, o testamento falado, músicas ou mesmo nada, para apenas escutar o som produzido pelas cinzas no vinil. O site da empresa que faz esse tipo de serviço diz: “quando o disco da vida finalmente chega ao fim, não seria bom mantê-lo rodando por toda a eternidade?”.

Opções alternativas para o destino de nossos restos mortais têm surgido a cada dia, e podem ser utilizadas para animais de estimação também. No post “O que você quer ser quando morrer”, exploro alguma delas. Citei a transformação de cinzas em diamantes (para fazer um colar ou uma anel, por exemplo) ou em tinta para a pintura de um quadro escolhido ainda em vida (ter o vovô pendurado na sala, misturado ao “O Beijo” de Klimt, por exemplo). Também é possível mandar suas cinzas para o espaço. Veja as empresas que fazem esse tipo de serviço e os custos no post.

Acredito que a tendência de escolhermos o que será feito com nossos restos mortais está relacionada à abertura da discussão sobre o tema da morte. A própria possibilidade de editarmos um blog como o “Morte sem Tabu” mostra que esse assunto já pode ser debatido hoje com maior naturalidade.

Há a possibilidade de pensarmos na morte e no morrer além do que um discurso religioso proporciona e assim surgem ideias próprias sobre rituais fúnebres. A religião se coloca não mais como algo pré-determinado e de conceitos inquestionáveis, mas abre a possibilidade para certa autonomia. Assim, quem sabe podemos personalizar nossa ideia de morte, recortando informações de várias fontes, misturando dogmas, religião com filosofia e ciência, e permitindo a expressão de desejos pessoais, sem o rótulo de profano ou desrespeito que existia antigamente.

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