Por uma autópsia menos invasiva – aprendendo com os mortos

Por Camila Appel

No post “Visita ao Necrotério”, descrevo um dia inusitado. É a visita ao Instituto Médico Legal (IML) de Campinas e o acompanhamento de três autópsias. Minhas percepções vão além de uma descrição técnica e até hoje me pego refletindo sobre aquele momento. Mas uma constatação inegável é a de que a autópsia é um procedimento altamente invasivo. Há cortes, sangue e, claro, órgãos, muitos deles. Posando como fruta passada na feira, aguardando a inspeção do médico legista que fará suas investigações para encontrar o que levou aquele corpo a parar de funcionar (veja o post “Oração ao Cadáver Desconhecido” sobre esse tema).

Nessa sexta feira, 13 de março, será inaugurado um novo laboratório (research facility) na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), batizado de PISA (Plataforma de Imagem na Sala de Autópsia). Seus 500 metros quadrados subterrâneos contam com a presença de uma máquina chamada “Magnetom 7T MRI”. É um aparelho de ressonância magnética, inédito na América Latina segundo a instituição, que será usado para estudar cadáveres. A pesquisa tem o objetivo de desenvolver técnicas alternativas para a identificação da causa da morte e assim, proporcionar uma autópsia menos invasiva.

Outro objetivo é o de ajudar os vivos, na medida em que se propõe a contribuir no entendimento e progresso  no tratamento de doenças. Por isso a matéria que serviu de fonte para esse post foi intitulada de “A morte explica a vida”, da agência FATESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Ela cita uma entrevista com o Dr. Paulo Hilário Saldiva, professor titular de Patologia da FM-USP. Ele diz que o estudo é muito importante no entendimento de doenças porque algumas patologias são mais difíceis de estudar enquanto o paciente estiver vivo, já que a retirada de tecidos pode trazer riscos. O professor cita a necessidade de trabalhar com a família a “doação de conhecimento” para aprovação dos exames.

Saldiva está à frente de um projeto chamado “Brazilian Imaging and Autopsy Study (Bias)”, criado para investigar métodos alternativos às autópsias atuais, com base em diagnósticos por imagem.

A matéria cita uma pesquisa que indicou que a taxa de erro na definição da causa da morte nos atestados de óbitos  chega a 20%. O uso desses equipamentos, voltados ao estudo em cadáveres, pode ajudar a diminuir essa margem de erro, com o que é chamado de “estudos comparativos” para aprendizado. Pode-se comparar os resultados da autópsia feita por exames de imagens com uma invasiva tradicional, por exemplo.

As novas técnicas para autópsia também podem tornar essa área do conhecimento mais atraente aos médicos, contribuindo para o aumento do número de salas de autópsias em hospitais e de patologistas. E assim, desenvolver melhor esse campo pouco explorado pela ciência e usarmos nossa inteligência para buscar aprender com os mortos, ao invés de simplesmente descartá-los. Me parece digno.

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3d render of CT Scanner on digital background. Foto: bluebay2014 – Fotolia