Esse cidadão sou eu

Por Camila Appel

Fui renovar minha CNH (Carteira Nacional de Habilitação) no Poupatempo Santo Amaro, em São Paulo. Fazia muito tempo que eu não entrava lá. Mas lembro de ter uma impressão positiva. Aqueles corredores coloridos, placas, telas apitando senhas, num sistema que me parece altamente funcional. O processo todo durou uma hora e a CNH ficou pronta no mesmo dia. O valor total da renovação foi de R$ 105 reais. Fico sem saber que cálculo fazer para analisar esse custo. Na hora me pareceu muito.

Na penúltima das seis etapas do processo, uma atendente jovem e toda bonita apontou para um x no papel que dizia: “assinatura do cidadão”. Me deu um branco momentâneo. Pensei na descrença política que estamos vivendo, nos escândalos de corrupção, no desemprego, na crise hídrica, no barranco político, no aumento da inflação, do dólar, na conhecida que vendeu o carro para pagar os funcionários da sua empresa. Que cidadão?

Segurei a caneta lembrando das últimas manchetes do jornal, dei aquele suspiro de quem vai emprestar o carro para o filho mesmo depois de ele ter batido os últimos três, e assinei. Tá bom vai, esse cidadão sou eu. Mas a assinatura me revigorou de alguma forma e consegui por um segundo esquecer os problemas atuais e sentir orgulho em ser cidadã de uma nação, em ter direitos e deveres com o Estado, um Estado, o nosso Estado! Um país que vive seu exemplo de democracia, de liberdade de expressão, as pessoas nas ruas discutindo ideais políticos, num esforço real para conseguir fazer discernimentos e tomar uma posição. Ai veio um segundo suspiro que tinha força de grito. Sim, esse cidadão sou eu!

Saí do Poupatempo feliz, como a ilusão de ter cumprido uma tarefa relacionada à cidadania. Meu sorriso ingênuo encontrou uma mulher se esgoelando para anunciar serviços de advocacia e imaginei o perfil e a situação de quem a contrataria. Provavelmente com dinheiro emprestado a juros exorbitantes, se enrolando cada vez mais para conseguir limpar uma barra, resolver algum perrengue e poder ser considerado um cidadão em dia com a sua nação e assim poder trabalhar, sustentar a família e assistir ao Jornal Nacional cuspindo no chão só para não sujar a tela da TV.

Aí eu lembrei de tudo o que está acontecendo e da pesquisa que tenho feito sobre a burocracia da morte nesse país. A realidade de uma cultura que nunca parou para pensar nos direitos de quem está morrendo, que esquece dos considerados idosos, como uma roupa velha que daqui a pouco será descartada e quanto mais empurrado para debaixo do tapete, melhor. Não é fácil viver no Brasil, mas morrer pode ser ainda mais difícil (a Folha falou recentemente sobre essa questão nessa reportagem). Ai veio aquele terceiro e último suspiro no Poupatempo. Putz, esse cidadão sou eu. Tenho permissão para dirigir, que maravilha.