Morte psicodélica: drogas alucinógenas para pacientes terminais e a morte de Aldous Huxley

Por Camila Appel

Estudos sobre a administração de drogas alucinógenas como tratamento terapêutico entra em pauta novamente com o retorno de pesquisas controladas encabeçadas por universidades ao redor do mundo. O post também traz a história da morte do escritor Aldous Huxley, que pediu para sua esposa injetar LSD nele, em seu leito de morte.

A administração de drogas alucinógenas para tratar estresse existencial e depressão em pacientes com risco de morte iminente voltou ao centro de discussões psiquiátricas. O retorno deve-se a universidades ao redor do mundo estarem desenvolvendo experimentos com voluntários, como aponta artigo recente de Michael Pollan, da revista “The New Yorker”.

Esses estudos controlados têm o objetivo de verificar como essas drogas (como a psilocibina, o componente ativo dos chamados cogumelos mágicos) podem ajudar pacientes com câncer avançado, transtorno de estresse pós traumático, vício de drogas e álcool e ansiedades relacionadas ao fim da vida.

Um artigo de capa do jornal “The New York Times” em 2010, “Hallucinogens Have Doctors Turning In Again” (“Alucinógenos Recebem Atenção dos Médicos Novamente”), mencionou que universidades, como a N.Y.U (New York University) estavam fazendo experimentos controlados com a psilocibina em pacientes com câncer na tentativa de aliviar ansiedade e “estresse existencial”, como citou a reportagem. Um pesquisador disse que “os indivíduos transcendem suas primárias identificações com seus corpos e experienciam um estado de ego-free (ausência do ego), e retornam com uma nova perspectiva e profunda aceitação”. O artigo aponta para uma nova onda de estudos com psicodélicos, desde sua proibição em 1970, quando o presidente Ricard Nixon assinou um ato proibindo o consumo, a venda e o uso medicinal de LSD e cogumelos mágicos (psilocibina).

Michael Pollan conta a experiência de um diretor de reportagem de TV americano com câncer avançado, ao participar desses estudos da N.Y.U, ainda em andamento. Ele cita comentários de psicólogos ressaltando que o uso de drogas psicodélicas com esses fins já foi explorado e bem sucedido no passado. Na década de 60, LSD e psilocibina eram drogas legais e fácies de obter nos Estados Unidos, e há estudos, inclusive financiados pelo governo, indicando o sucesso do LSD para tratar alcoolismo e ansiedade acerca do fim da vida.

Os psicoterapeutas que ele entrevistou para sua reportagem se dizem muito contentes com o resultado que a pesquisa tem mostrado e indicam que pacientes com câncer que recebem apenas uma única dose de psilocibina experienciam “imediata e dramática redução em ansiedade e depressão”, estado que perdura por pelo menos seis meses – com apenas uma dose da droga, e que a droga ajuda os pacientes a superarem o medo da morte.

Muitos pacientes com câncer mencionaram sentir como se estivessem nascendo ou parindo durante o experimento. Alguns também descreveram um encontro com seu câncer, resultando na diminuição do poder que a doença tem sobre eles.

A experiência envolve uma espécie de conversa e os pesquisadores acreditam que isso seja responsável pelo efeito terapêutico da droga.

Os voluntários mencionam uma mudança de perspectiva, pois sentem como se pudessem ver as coisas de uma forma mais abrangente, como um astronauta olhando a Terra. Esse distanciamento proporcionaria uma mudança permanente em suas prioridades.

Uma possível explicação que o repórter coloca para o efeito dos pacientes relatarem deixar de temer a morte, é o fato de eles encararem a morte durante a experiência e voltarem com um aprendizado, ou uma informação, em relação a ela. Uma psicoterapeuta afirma que a própria experiência pode ser considerada uma morte, porque o paciente “desprende-se do ego e do corpo, deixando para trás tudo aquilo que é considerado a realidade”.

O neurocientista Robin Carhart-Harris tem feito estudos com a injeção de psilocibina em voluntários e acompanhado seus efeitos no cérebro com equipamentos como a magnetoencefalografia. Ele diz que as formas de consciência que as drogas psicodélicas proporcionam são um estado primitivo de cognição. “O objetivo principal do desenvolvimento do ser humano é o ego, que impõe uma ordem na mente primitiva. A droga inibe o ego, trazendo o subconsciente à tona”, ele diz na reportagem. Carhart-Harris afirma que o estresse existencial acerca do fim de vida se assemelha a um modelo de hiperatividade – pois o ego, com medo de sua dissolução, fica hipervigilante.

Outras universidades que estão encabeçando experimentos desse tipo são a John Hopkins, a Harbour-UCLA Medical Center, a University of New México, a Universidade de Zurich e o Imperial College – em Londres. Em janeiro deste ano, a mais relevante revista médica da Inglaterra, “The Lancelet”, publicou um editorial defendendo pesquisas sobre o uso terapêutico de drogas psicodélicas, “Turn on and Tune in to Evidence-based Psychedelic Research” (“Se ligue e se conecte nas pesquisas psicodélicas baseadas em evidências”). Outro artigo publicado com esse tema é o “Reviving Research into Psychedelic Drugs” (“Revivendo pesquisas sobre drogas psicodélicas”).

Os resultados dos estudos do centro médico da Harbor-UCLA sobre a administração de psilocibina para pacientes com câncer avançado (estágio 4) foram publicados no “Archives of General Psychiatry” (Arquivos de Psiquiatria em Geral”), em 2011, indicando que o uso da droga para pacientes nesse estágio pode ser feito de forma segura e reduzir a ansiedade e a depressão acerca de suas iminentes mortes, segundo artigo da revista do “The New York Times”, “How Psychedelic Drugs Can Help Patients Face Death” (“Como Drogas Psicodélicas podem Ajudar os Pacientes a Encarar a Morte”).

A distinção entre o uso terapêutico e o recreativo de drogas psicodélicas está na forma como a droga é administrada, no acompanhamento médico e terapêutico das seções, que guiam os voluntários em suas “viagens”, e nos critérios de seleção. Rejeita-se quem tem histórico de esquizofrenia e transtorno bipolar na família, por exemplo. A matéria da “The New Yorker” menciona que as reações negativas normalmente associadas ao uso recreativo dessas drogas, como psicose, flashbacks e suicídio, não foram identificadas em nenhuma das 500 administrações da psilocibina na NYU e na Universidade de John Hopkins.

O laboratório da Hopkins está, atualmente, desenvolvendo experimentos sobre o uso de psilocibina na meditação (com o uso de ressonância magnética para acompanhar o processo) e em profissionais religiosos de diversas crenças, para verificar como a experiência com a droga pode contribuir para seus trabalhos.

Segundo a reportagem da “The New Yorker”, a ideia de oferecer drogas psicodélicas aos moribundos foi criada pelo escritor Aldous Huxley. E aqui sigo para a segunda parte desse post. Vamos falar sobre a “mágica” morte de Aldous Huxley.

A morte de Aldous Huxley

 Em 1953, Huxley conheceu a mescalina, uma substância com propriedades alucinógenas extraídas de um cacto mexicano, numa experiência com acompanhamento médico retratada na crônica “Doors of Perception” (“As Portas da Percepção”, editora Globo, 2002), em 1954. A obra inspirou Jim Morrison a nomear sua banda de “The Doors”. Huxley propôs um projeto de pesquisa que estudasse o uso do LSD em pacientes com câncer terminal, na esperança de tornar a morte uma experiência mais espiritual e não apenas fisiológica.

Em 22 de novembro de 1963, mesmo dia em que John F. Kennedy foi assassinado, Aldous Huxley faleceu. Ele tinha 69 anos e uma avançado câncer na laringe. Horas antes de morrer, ele pediu para sua esposa, Laura, injetá-lo com LSD (veja um vídeo com o depoimento dela aqui).

Laura escreveu uma carta ao irmão mais velho de Huxley, contando sobre seus últimos dias e a experiência com a droga nos momentos finais.

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“LSD, 100µg, intramuscular”, conforme o entendimento que Laura teve das letras

Ela diz achar que o uso do LSD tornou a morte de seu marido “pacífica e bonita”. Nas suas últimas quatro horas de vida, ele recebeu duas injeções da droga, junto com sua mulher, que falava para ele seguir adiante, sem medo. “É fácil e você está fazendo isso lindamente, conscientemente e de sua própria vontade. Querido, você está indo em direção à luz”. Laura afirma que as últimas respirações de Huxley foram como uma música terminando “in a sempre piu piano dolcemente”.

“Tenho a sensação de que a última hora de sua respiração só era o reflexo condicionado do corpo, que estava acostumado a isso por 69 anos, milhares e milhares de vezes. Não havia o sentimento de que com o último suspiro, o espírito se foi. Ele estava gentilmente indo embora pelas últimas quatro horas”, Laura diz na sua carta.

A carta foi retratada no livro “This Timeless Moment, a personal view of Aldous Huxley”, escrito por Laura. Pode ser vista em seu formato original nesse link e foi traduzida no livro “Cartas Extraordinárias” (Companhia das Letras, 2014).

Em seu último livro, escrito em 1962, “A Ilha” (Ed. Globo, 2001), Huxley fala sobre a sociedade idealizada de Pala, que vive em uma ilha fictícia em busca da felicidade, com base em conceitos budistas e hinduístas. Os palaneses confrontam diretamente a morte, meditam e fazem sexo tântrico . Eles buscam atingir o nirvana, estado no qual não há mais sofrimento e sente-se a felicidade plena. Utilizam drogas psicodélicas – (chamadas de “moksha”). Laura diz que Aldous estava fazendo o que ele descreveu em “A Ilha”, e teria ficado ressentido pelo livro não ter sido levado a sério e considerado somente uma obra de ficção científica.

O documentário “Huxley sobre Huxley”, veiculado pela TV Cultura com legendas em português, tem Laura Huxley como protagonista e mostra a casa onde ela vivia com o marido, assim como o escritório onde ele trabalhou e morreu.

Os artigos mencionados nesse post apontam que experimentos em andamento sobre a administração de drogas alucinógenas como a psilocibina para pacientes com câncer avançado têm mostrado benefícios e contribuído para diminuir aflições como estresse existencial e depressão sobre a possibilidade de morte iminente. A aprovação do seu uso medicinal, no entanto, não parece estar em discussão, ainda.

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Ilustração de Stephen Doyle para a reportagem “The Trip Treatment” da revista “The New Yorker”