Procura-se um sentido para a vida

Por Camila Appel

“Qual é o sentido de nossa existência” é um questionamento que muitos de nós levantamos em alguma fase da vida, ou mesmo em todas. A jornalista Gabriela Gasparin resolveu mergulhar nessa indagação e fazer dela um projeto pessoal, ao qual vem se dedicando desde 2013, com a criação do blog “Vidaria”, que em março chegou às livrarias com esse mesmo título.

É uma coletânea de entrevistas com personagens de diversas classes sociais para formar uma “amostra do mundo”, como Gabriela coloca na apresentação do livro. Com mais de cem depoimentos, optou por separar os sentidos em seis grupos: os que atribuem o sentido de suas vidas ao amor, os que consideram nossa estadia no universo como uma forma de aproveitar e curtir a vida (viver o momento, estilo “carpe diem”), os que mencionam Deus como a essência do viver, aqueles que enfatizam a evolução, o tornar-se seres humanos cada vez melhores, os que fazem da sua família seu fundamento e aqueles que veem na vida uma forma de conquistar sonhos e trabalhar, tornando-se útil para a sociedade de alguma forma. 

Numa conversa com Maria Júlia Kovács, coordenadora do LEM – Laboratório de Estudos sobre a Morte do IP-USP, Gabriela percebeu que só questionamos o sentido da vida porque temos consciência da nossa morte.

A consciência de que tudo isso um dia terá fim pode tornar a existência mais obscura e levar a uma inquietação sobre valer a pena ou não todos os esforços realizados. Por isso acredito que muitos veem esse sentido no estar presente no momento, sem racionalizar o porquê de respirarmos, apenas usufruir das boas coisas que nos são propiciadas, como poder compartilhar amor, fazer bem ao próximo, ser útil ou mesmo se satisfazer na ideia ficcional, mas de certa forma fundamental, de estarmos servindo a um deus ou uma forma de ser maior, que transcenda o sentido “terreno” que tanto procuramos encontrar.

Muitos dos entrevistados de Gabriela passaram por eventos traumáticos na vida, como a perda da visão, a descoberta de doenças graves, como câncer e HIV, e a perda de um filho. Para esse grupo, Gabriela considera que o sentido da vida tornou-se o aproveitar cada momento como se fosse único, já que não se sabe o dia de amanhã.

Ela me disse perceber sua busca como algo racional, já que se considera extremamente reflexiva. Essa constatação foi colocada em xeque quando leu o texto “A vida não em mais sentido porque paramos de sentir”, da jornalista Mariana Viktor. Gabriela mandou um e-mail à autora perguntando o que ela poderia fazer para sentir. A resposta foi em torno de tirar o foco da mente e passar a observar “sensações físicas, a intuição, os sentimentos e emoções”.

Nessa busca aparentemente racional, Gabriela me parece ter agido de forma intuitiva, já que muitas de suas entrevistas foram feitas “sem querer”, com figuras que encontrou pelo caminho. Não é somente objetivo o olhar de se deparar com uma pedinte na rua e sentar-se ao seu lado na calçada para ouvir sua história. Ou abordar um pescador que diz não poder falar sobre o sentido da vida porque “não tem estudo”, para logo depois sentir-se a vontade o suficiente para afirmar que a honestidade e o fazer o bem são seu motor principal. E mesmo entrar numa prisão feminina e receber a gratidão de uma presa por “ter sido escutada”… Esse impulso de proporcionar ao outro um momento de profunda reflexão, é, no mínimo, um exercício de empatia genuíno, partindo do coração e não da cabeça.

O prefácio me chamou a atenção pela constatação do psicanalista Arthur Meucci de que seus pacientes com depressão acusam não ver sentido nenhum para a vida, e alguns mencionam o caminho do suicídio por “não se sentirem engajados no mundo”. Ele coloca como irônico o fato de essa visão ser considerada um distanciamento da realidade pelos manuais de saúde mental, ao passo que para ele, nada mais é do que a própria constatação da realidade. Meucci afirma que inventamos um sentido para a vida, e essa capacidade de criação seria a maior magia do ser humano, “a capacidade de criar uma explicação para o mundo material que não tem explicação. O que realmente somos? Um acidente”, ele diz.

Meucci também coloca um ponto interessante ao afirmar que “todo discurso que promete dar um sentido para a vida se inscreve em um campo de luta pela dominação – empresas, religiões e partidos políticos tentam vender uma vida que eles consideram ideal para nos manipular”. Penso que estaria aí, então, um dos pontos fracos da raça humana. Como não temos como saber se há um motivo por trás de toda a evolução das espécies que trouxe o homem à vida, seguimos inventando motivos pessoais que nos confortem e nos estimulem para acordar todos os dias prontos para cumprir tarefas que muitas vezes também não possuem motivos claros. O que remete ao mito Sísifo e a reflexão de Albert Camus (1913-1960) de que é necessário imaginarmos Sísifo feliz.

Gabriela segue na sua busca sem juízo de valor, procurando, ao meu ver, descobrir no encantamento com o outro, seu próprio sentido de viver.

Um sentido para chamar de seu

O sociólogo Norbert Elias (1887-1990) afirma que vivemos um processo de individualização profunda, iniciado no Renascimento. Uma de suas consequências é cada um se considerar um ser separado da sociedade, independente e autônomo. Cada um buscaria um sentido para a sua vida como um ser isolado do mundo, procurando um sentido para si mesmo e em si mesmo. Quando não encontramos essa espécie de sentido, a vida nos parece sem sentido, deixando um sentimento de vazio e desilusão. A exigência de sentido seria uma característica predominantemente humana, e a individualização dos homens indicaria que cada um precisa encontrar um significado exclusivamente seu.

Elias faz um paralelo com a morte, ao constatar que uma pessoa que acredita viver sem sentido, deverá morrer da mesma forma. Como seres autônomos, vivemos sós e morremos sós. Elias afirma que morrer é mais fácil para aqueles que acreditam terem alcançado seus objetivos, dotados de significâncias pessoais (leia mais em “A Solidão dos Moribundos”).

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