Socorro, meu cachorro morreu

Por Camila Appel

“Socorro, meu cachorro morreu” foi como se sentiu a advogada Luciana Freire Rangel ao deparar-se com o corpo frio de seu querido animal de estimação, o cocker spaniel Tom. A palavra socorro vem do choque de ter que lidar com uma situação inesperada, nunca pensada e emocionalmente aterrorizante. Rangel conta ter percebido ali que, por mais que soubesse que ele partiria antes dela, nunca tinha racionalizado essa realidade e encontrou algumas dificuldades. “Muitas pessoas próximas não conseguiam aceitar que a minha dor profunda vinha da morte de um animal”, ela diz.

Para o médico veterinário especialista em comportamento animal, Dr. Mauro Lantzman, o luto por um animal não é validado pela nossa sociedade. Ele é procurado para orientação e disponibiliza um espaço físico e psicológico de aceitação e acolhimento. “A gente nunca pensa na morte, ela é uma coisa oculta, misteriosa, agourenta. Então, na hora que o bicho morre você fica perdido e ainda numa sociedade que diz: que ridículo, compra outro. Ah, é seu filho? Mas tem tanta criança abandonada por ai…”, comenta.

Para Rangel, o amor que sente pelo Tom é insubstituível. Ela esperou seis meses para adotar um cachorro e diz acreditar ser importante viver essa experiência da dor, mesmo que não seja compreendida por muitos. “O lugar que o Tom ocupava em mim era o de um filho. Ele abriu meu coração para minha relação com o mundo”, afirma.

Rangel conta que com a chegada do Tom, percebeu como tinha certo medo de se relacionar com as pessoas. “Foi por meio do lúdico que ele me mostrou uma outra possibilidade de existir. Eu tinha uma postura mais rígida, mais séria, distante, e com ele eu comecei a relaxar e a olhar para o outro de uma forma mais doce. Na verdade, ele me tocou profundamente para resolver uma questão minha. Foi uma história de amor”. Por causa do Tom, Rangel adotou mais dois cachorros e passou a socorrer animais na rua que precisam de ajuda.

Para lidar com seu luto, ela ficou horas na internet vendo casos parecidos com o seu, como vídeos de homenagens no You Tube e depoimentos em blogs e no Facebook sobre a dor da perda de um animal de estimação. “Era o que me confortava – saber que há um mundo de pessoas que vivem essa dor, como eu estava vivendo a minha”, ela diz.

O que fazer com o corpo?

 A veterinária Regina Motta oferece a seus clientes três possibilidades para o destino do corpo. A primeira (e mais barata) é enterrá-lo na própria propriedade, como em um sítio ou no jardim de casa. Mas ela diz haver cuidados específicos que devem ser tomados com a orientação de um veterinário, para a não contaminação do solo e não possibilitar o acesso de crianças e outros animais. Se a causa da morte for uma doença infectocontagiosa, é necessário optar pela cremação.

Em segundo, há o serviço da prefeitura de coleta e destinação de animais mortos. As clínicas veterinárias pagam uma taxa trimestral para terem essa coleta disponível duas vezes por semana. Nesse caso, a prefeitura diz que fará a cremação do corpo, mas o dono não recebe as cinzas. Se o animal morreu em casa, pode ser levado até um clínica que vai encaminhá-lo a essa coleta.

Como terceira opção, tem-se os serviços particulares – cemitérios e crematórios privados.

Motta não indica uma preferência entre essas alternativas. Com 30 anos de consultório, ela diz ver que cada um tem uma relação muito diferente com seu animal, com o corpo e com a morte. “O importante é cuidar bem dos animais enquanto eles estão vivos”, afirma.

Para a veterinária Márcia Lembo, do Centro de Saúde Animal Jardins, o enterro em terreno particular também não é necessariamente um problema, se tomado as devidas precauções, como não ter morrido de doenças infectocontagiosas como tétano e raiva, que são conhecidas como zoonoses – doenças que podem ser transmitidas do animal para o ser humano. Animais que estão fazendo tratamento com quimioterápicos, nos casos de câncer, também não podem ser enterrados em casa. não há o problema de contaminar o lençol freático. “Mas no caso de morte natural, ou por doenças que vem com idade, não há problema. A matéria orgânica na qual ele vai se decompor é uma matéria natural, é um adubo”, ela diz.

Uma nova possibilidade foi inaugurada recentemente na Alemanha: o enterro de animais de estimação junto aos donos. Dois cemitérios, em Essen e Braubach, oferecessem essa permissão. Uma das lápides tem a marca de uma mão ao lado da pata de um cachorro, indicando esse novo tipo de união.

Rangel optou pela cremação do Tom, com direito a velório. Passou a madrugada pesquisando um “mundo que eu nem sabia que existia”, como ela comenta. Viu uma lista de locais, e como todos eram abertos 24h, foi ligando de um em um até escolher aquele que sentiu sua dor ser mais acolhida.

Ela escolheu o serviço de cremação individual do Eden Pet, em Campinas. Eles oferecem tanto a cremação individual quanto a coletiva. A diferença principal é que na coletiva não se recebe as cinzas do animal (por ele ser cremado junto a outros bichos) e, claro, o preço. A coletiva está em torno de R$ 450,00, e a individual sai por R$ 890,00. A remoção do corpo e o velório estão inclusos nos valores, mas o acompanhamento da cremação, se desejar, é cobrado a parte. Há diversas urnas disponíveis, como de bronze, de mármore, de resina ou biodegradável (que vem com uma semente da árvore Angico branco para ser plantada num jardim). Essa biodegradável custa R$ 220,00.

O Pet Memorial indica em seu site ser o primeiro crematório de animais de estimação da América Latina e o mais bonito do mundo. Fazem a remoção do corpo nas residências ou em clínicas – serviço também já considerado no preço. Como diferencial, é oferecido o velório online, caso um dos familiares não possa ir até o local, em São Bernardo do Campo, mas é necessário ter um responsável presente fisicamente. A cremação individual custa R$ 1.638,00, (já incluso coleta, certificado, nota fiscal e devolução de cinzas em urna padrão, feita de madeira). A coletiva custa R$ 1.200,00 (acompanha também remoção, documentos e placa em vidro com o nome do animal e uma foto com a réplica da raça). Como justificativa para um preço mais salgado, colocam o fato de oferecerem um serviço documentado e assegurado por um veterinário próprio que acompanha todo o procedimento, e por serem pioneiros na América Latina e estarem no mercado há 15 anos. Além dos 12.000 metros de área verde do local.

Veja outras opções de serviços particulares nessa matéria da Folha e algumas recomendações sobre o destino do corpo do animal nessa reportagem -que não indica o enterro no jardim de casa como uma opção a ser considerada e coloca a cremação como a melhor alternativa.

Luto

O luto pela perda de um animal de estimação pode ser tão forte quanto o de um familiar e deve ser tratado com o mesmo respeito. Ele não precisa de validação social, e trata-se de um processo individual – não há tempo certo para durar e nem intensidade adequada. Veja reportagens sobre como é o processo de luto na seção “luto” deste blog. Sobre como falar sobre morte com as crianças, no caso de perda de uma animal de estimação, por exemplo) veja a entrevista desse blog com Lucélia Elizabeth Paiva, escritora do livro “A Arte de falar da Morte para Crianças”, ed. Ideias e Letras, 2011.

O site Veterinários no Divã aborda o luto de veterinários em relação a práticas como a eutanásia, e indica formas de falar e de se posicionar fisicamente com uma pessoa que acabou de perder um animal de estimação. “Depois você compra ou adota outro animal” está vetado do discurso.

Como ajudar um animal de estimação em luto

Para a adestradora de cães, Naila Fukimoto, a ideia de que animais sentem luto é controversa. Mas ela diz acreditar que ele possa ocorrer, porque observa casos nos quais os cachorros perdem outro cachorro ou o próprio dono, e apresentam sinais de luto, como sintomas de tristeza e depressão – não querer comer, brincar ou sair para passear. Mas também há animais que não demonstram qualquer alteração.

Para aqueles com os sintomas, ela aconselha buscar manter a rotina do animal e enriquecer seu ambiente com brinquedos interativos. Esse tipo de brinquedo, complexo e que entretêm o bicho por mais tempo, seria uma tendência do mercado pet porque ela diz que os animais têm ficado muito tempo sozinhos.

Por outro lado, Fukimoto afirma não ser bom recompensar o comportamento depressivo do cão, mostrando pena ou deitando com ele no chão, por exemplo. “O bicho não pode ganhar mais atenção por estar triste do que por não estar”, ela diz.

Para Mauro Lantzman, especialista em comportamento animal, o luto não é um sentimento. Ele é um processo que depende da história do indivíduo, da relação dele com o outro, assim como da concepção que se tem sobre a morte e a cultura em que se está inserido. Ele diz que não se sabe até que ponto o animal passa pelo processo luto, pois ele envolve aspectos da cognição e da elaboração psicológica das experiências. Dr. Lantzman comenta que ao observarmos um animal, podemos reparar em mudanças de comportamento, como mostrar-se desinteressado pelas coisas que antes o estimulava e a redução do apetite. “Ele pode ficar num estado de pequena depressão, mas logo se estabelece o processo de homeostase emocional, que é a busca do reequilíbrio do corpo e fará com que ele volte ao normal”.

Dr. Lantzman aconselha não reforçar esse comportamento triste e procurar manter as atividades cotidianas. Também não indica comprar outro bicho no lugar imediatamente. “Porque se ele estiver num processo de elaboração da perda, ela precisa de um tempo para ocorrer”.

A necessidade de uma intervenção médica seria indicada para animais que demonstrem esse estado por mais de uma semana. Dr. Lantzman nunca foi procurado por um dono buscando ajuda para lidar com o luto do seu cachorro. Mas se fosse, trabalharia com homeopatia, sugestões de atividades e alteração de ambiente – sugestões de mudanças de ambiente como retirar as roupas do falecido para tirar o cheiro do local. “Mas sou muito procurado por pessoas que perderam seus animais e estão muito chateadas, buscando orientação”, ele diz.

Atualização em 23.04

O leitor Wilton Assis atentou para um complemento importante a esse post (nos comentários). Além de retirar os corpos de animais falecidos diretamente nas clínicas veterinárias, a prefeitura disponibiliza o serviço da empresa Delcq Ambiental (gratuito), que recebe animais mortos no Aterro Santo Amaro – endereço Rua Miguel Yunis, 343, Usina Piratininga, São Paulo. Os animais serão incinerados coletivamente e, por isso, não é possível receber as cinzas. tel: 11- 5613-1530. Funciona das 10h às 17h, de segunda a sábado. Outra opção é a estação de transbordo Ponte Pequena, que também recebe animais falecidos, no endereço Avenida do Estado, 300.  tel: 11- 2165-3791.

Veja mais informações sobre os serviços da prefeitura relacionados ao “controle de animais domésticos” diretamente nesse link.

Tom 4
Tom – o animal de estimação de Luciana Rangel

Pode-se considerar tentar mostrar para o bicho de estimação o corpo daquele que morreu, para assimilar sua morte, mas não há qualquer evidência científica de que essa atitude realmente ajuda.