Nação da ferida aberta

Por Camila Appel

Qualquer morte tem o potencial de ser emblemática. Não é apenas a pessoa que morreu e a forma como ocorreu que a torna uma comoção nacional, mas sim como atiça em nossa imaginação, o pior de nossos medos.

            Imaginemos uma caixa do supermercado Sé (que hoje em dia só existe na minha memória afetiva) que morra agora e sua morte saia por aí, como um personagem tomado de vida própria, repercutindo em uma cobertura-cascata pela mídia. Essa moça é desconhecida do público geral e não morreu dormindo nem de um câncer prolongado. Ela teve um AVC na escada da igreja, segundos antes de seu casamento, não achou onde se segurar, rolou escada abaixo, puft, o cérebro parou, ela era doadora de órgãos, ela vai para a mesa da cirurgia às pressas e ali, na tábua, os médicos percebem que ela está grávida – situação mantida em segredo por causa das crenças religiosas dos pais do noivo.

A historinha cara de pau acima pode virar uma comoção nacional. Alguém levanta a bandeira contra a doação de órgãos, outro fala do perigo de se casar grávida (tem louco para tudo), colunistas discutem como nem mais se casa tanto em igrejas, um médico escreve sobre como evitar um AVC, e ainda deve ter alguém apontando para a importância de ter-se escadas mais seguras mundo afora e um financista sobre os perigos que a falta de orçamento traz às instituições.

Ainda deve ter alguém discutindo qual vida vale mais – as que a pobre moça salvaria ou as do feto, e eu aqui iria procurar a corregedoria dos jornalistas para denunciar quem inventou uma história sem pé nem cabeça para tentar embasar um pensamento. Mas isso é uma ficção e todos nós somos dotados de uma imaginação louca (mesmo que não a compartilhemos). Por outro lado, a vida flerta mesmo com o absurdo e a culpa não é de quem o relata.

           Bom, Cristiano Araújo morreu. Eu particularmente não conhecia suas músicas, mas isso pouco importa. Deve ter um monte de leitor aqui que nunca ouviu falar em Carlos Lyra, por exemplo, e seguimos com nossas diferenças (ele está bem vivo, obrigada).

Há um debate recente baseado na reflexão de Zeca Camargo sobre a cobertura midiática da morte de Araújo como um desdobramento do vazio cultural de nossa era.

Cristiano Araújo não é só a dor de fãs. Ele é um espelho para aquele que tem filho de uns vinte anos e não aguenta mais madrugadas acordado morrendo de medo de um acidente e quem sabe imaginando milhares de possíveis acidentes e uma ligação da polícia rodoviária. Ele toca naquela que pede para sua filha usar cinto de segurança e não ultrapassar o limite de velocidade, mesmo sabendo que ela ainda se considera imortal e muitas vezes tem a cabeça oca. Ele é o medo dos que iniciam uma vida a dois, se apaixonam e temem um infortúnio que os desprive de um futuro juntos. Ele lembra que o sucesso não garante vida eterna e os que hoje se veem em ascensão nas suas carreiras, podem vê-las ceifadas em um segundo, em uma derrapada de pneu. E fortalece a sensação de que, enfim, não controlamos tudo na vida. É uma carta na cara – a morte existe para todos, não importa a idade, o sucesso profissional, ou a quantidade de fãs que uma pessoa tem.

Nesse caso, é injusto comparar a repercussão da morte de Paulo Goulart ou a de Antônio Abujamra com a de Cristiano Araújo, com o pretexto de dizer que os primeiros significam mais para a cultura do país do que Araújo. Porque não se trata disso. São mortes que têm intelectualidade e não apelo emocional. Independente da dor dos fãs, que é completamente legítima, nossa nação está com uma ferida aberta – pelo momento político e econômico em que vivemos. Uma pena de pavão pode arder como um estilete. A noção do que é realmente relevante, e o que não é, está confusa. Não porque uma coisa é de fato mais importante do que a outra, mas porque temos agido como seres impulsionados  pela emoção. Antes de pensar, o Brasil de hoje sente.