Para que serve um cadáver

Por Camila Appel

 

A morte é universal demais para ser tratada com tanto recalque. A jornalista norte-americana Mary Roach não tem papas na língua ao mergulhar no universo dos cadáveres e suas contribuições para o progresso da humanidade. É o tema de seu primeiro livro “Curiosidade Mórbida: a Ciência e a Vida Secreta dos Cadáveres” (ed. Paralela, 2015), escrito em 2003 mas editado pela primeira vez no Brasil apenas neste ano.

Escritora de livros de não-ficção, Roach é reconhecida por best-sellers que exploram o curioso e o inóspito sobre o corpo humano. Suas marcas são o humor e a audácia em se colocar nos ambientes mais bizarros para sua pesquisa e até mesmo se oferecer como cobaia, como fez para o livro “Bonk – The Curious Coupling of Science and Sex” (“O Curioso Acasalamento da Ciência com o Sexo”, em tradução livre), em que fez sexo com seu marido dentro de uma máquina de ressonância magnética.

“Posso me considerar uma jornalista que age em nome da ciência”, diz Roach numa entrevista à Folha. Ela afirma não ter esperado a popularidade de um livro sobre cadáveres, que acabou tornando-se um New York Times best-seller e traduzido para mais de 17 línguas.

Roach conta ter estranhado a demora da publicação no Brasil (12 anos), o que considera sinalizar uma possível resistência da nossa sociedade. “Cada cultura tem uma linha do tempo diferente para quebrar tabus, seja relacionado ao sexo, à morte ou à raça, e poder olhá-los por uma perspectiva científica ao invés de religiosa ou emocional”, diz.

Em um ano de pesquisa, ela acompanhou, por exemplo, cadáveres serem cobaias em simuladores de acidentes de carro, experimentos que contribuíram para a indústria automobilística analisar quanta força um corpo humano real pode suportar e fazer carros mais seguros. O para-brisa, o airbag e o cinto de segurança de três pontos são frutos de pesquisas como essas. Também viu cadáveres serem cobaias de testes balísticos, usados para o desenvolvimento de armas e coletes à prova de balas mais resistentes. Os corpos eram de pessoas que o doaram para a ciência e a família normalmente não recebe um retorno sobre o uso específico que ele terá.

É comum serem apresentados em pedaços, o que ajudava Roach no que chamou de “coisificação” dos mortos para poder conviver com eles. “Os pesquisadores britânicos sabem o que os açougueiros já sabiam de longa data: se você quer que as pessoas fiquem a vontade diante de corpos, divida-os em pedaços”, escreve.

Ela conta na entrevista não ter encontrado um uso de cadáver que parecesse imoral. “Nada me chocou, foi o contrário. Eu esperava ter estranhado o treinamento de cirurgiões plásticos nas cabeças humanas, por exemplo. Cheguei a questionar se era possível justificar o uso delas para esse propósito. Mas chegando lá no seminário (onde o treinamento ocorreu), percebi que há uma importância por trás disso. As cirurgias plásticas e a reconstrução facial são uma realidade, precisam ser bem feitas, sem danos aos vivos”.

No entanto, afirma discordar da venda de restos mortais por crematórios no mercado negro. Mas essa questão não foi incluída no livro. Ela optou por focar na dificuldade de obtenção de corpos para dissecação em estudos da anatomia humana, o que levava a roubos de cadáveres e a assassinatos. “Nesse caso, havia uma necessidade, porque era preciso estudar o corpo humano para a evolução da medicina. Não era motivado por ganância, mas sim pelo desejo do aprendizado”, diz.

A dissecação para estudos da anatomia humana começou em Alexandria, por volta de 300 a.C, com um decreto real de Ptolomeu I estimulando médicos a dissecar corpos de criminosos executados. Havia uma familiaridade com o processo devido à tradição das mumificações no Egito. Com a chegada do Cristianismo, ela passou a ser vista como uma penalidade pior do que a morte. A escassez de corpos levava certas escolas de medicina na Escócia do século 18, por exemplo, a aceitar o pagamento do curso com corpos ao invés de dinheiro – informação oferecida numa nota de rodapé, uma marca da autora em todos os seus cinco livros. Essa área da medicina acabou evoluindo na clandestinidade e só passou a ser aceita e legalizada no século passado.

A fazenda de corpos, expressão usada por Roach para se referir a um laboratório a céu aberto no Tennessee para o estudo da decomposição humana (e único no mundo) – é um exemplo de sua preocupação com a forma de apresentar uma situação. “Procurei não ser tão cruel na descrição, e mais cuidadosa na forma como apresentar a cena”, conta.

Os estudos sobre a decomposição humana oferecem resultados úteis para a compreensão de como definir com maior precisão a hora da morte de alguém, vantajoso em investigações de assassinatos, por exemplo.

A pedido da sua editora, manteve o capítulo sobre a análise de ferimentos de vítimas de acidentes aéreos para a compreensão de como e por que ocorreram. “Eu temia que que as famílias das vítimas dos acidentes mencionados se ofendessem. Todos os outros corpos são anônimos, mas esses não. São passageiros do voo 800 da TWA”, explica.

Ela afirma ter visto pouca mudança sobre o tema do livro desde que o escreveu. “As pessoas não mudam rápido no que se refere à morte”, diz oferecendo como exemplo a demora da aceitação da cremação como uma alternativa ao enterro. E esperava que a pesquisa sobre compostagem humana que acompanhou na Suécia, e detalhou num dos capítulos, tivesse conquistado mais espaço nesses doze anos. “Porque os leitores gostaram muito da ideia de sermos reduzidos a moléculas e devolvidos à natureza. Hoje em dia se pode fazer um enterro verde (sem caixão), mas não a compostagem”.

Devido ao sucesso do livro, Roach conta ter achado que ele estimularia um aumento de doações de corpos e órgãos. “Tive a fantasia de pensar que o livro poderia influenciar mudanças políticas, como usar condutas existentes na Europa, onde a doação do corpo para a ciência é um pressuposto e não ocorrerá se você especificar que não a deseja”. Nos Estados Unidos (e no Brasil) o caminho é inverso – a doação deve ser autorizada, o que diminui sua incidência, segundo Roach.

No livro, presenciar uma cirurgia de doação de órgãos leva Roach a refletir sobre a definição de morte já que o coração é retirado pulsando do doador. “Quando você põe a mão sobre o coração, sente uma pulsação leve mas basicamente estática, como os dedos de uma mão tamborilando o código Morse no tampo da mesa”, escreve. E aproveita o embalo para fazer uma humorística revisão histórica sobre os métodos de se constatar a morte, como o jogo de pinças de mamilos para reanimação e os necrotérios de espera, muito comuns na Alemanha do século 19 – aonde os mortos eram levados antes do enterro, para evitar o sepultamento de vivos.

Roach também discorre sobre o uso de restos humanos para fins farmacêuticos, passando por Egito, Roma, Arábia do século 12, França e Alemanha do século 18. Do coliseu que vendia sangue dos gladiadores para curar epilepsia, aos dias atuais com chineses consumindo pílulas para tratamentos de pele que contem traços de fetos humanos abortados – recolhidos por uma empresa controlada pelo Ministério da Saúde chinês. Ela conclui que a medicina cadavérica – da mesma forma que a diversidade culinária entre as culturas – é antes de tudo uma questão de hábito.

Ela diz que gostaria de doar seu corpo para dissecação ou para pesquisa, mas ainda não formalizou o desejo. “O que pode refletir meu próprio desconforto com a morte”, conclui na entrevista.

OBS: artigo publicado no caderno Saúde +Ciência da Folha, em 4 de julho de 2015.