Uma dama na morte

Por Camila Appel

Sua família começou com uma pequena fábrica de caixões, em 1920. Hoje, na terceira geração, expandiu para virar o Crematório Vaticano, com unidades no Paraná e Santa Catarina. A diretora funerária Mylena Cooper conta como foi crescer brincando de se esconder em caixões e quando começou a perceber que seu cotidiano não era considerado normal pela sociedade.

Entrevista com Mylena Cooper, transformado em depoimento para o formato “Minha História” – matéria publicada no caderno mercado da Folha em 07.07.15.

O negócio da família começou com meu avô, que fazia engradados de madeira para condimentos. Até que um dia, faleceu um de seus vizinhos e pediram para que ele fizesse um caixão com a madeira usada nos engradados. Ele aceitou e passou a investir em caixões. Eram entalhados à mão, com desenhos de flores. Quando meu avô percebeu que o negócio não dava dinheiro porque todo lucro ficava nas mãos das funerárias, ele comprou uma funerária. Inicialmente, tinha o nome Cooper, que é o sobrenome da família, para depois se tornar a funerária Vaticano e, hoje, o Crematório Vaticano. O sobrenome Cooper significa “fabricantes de caixões” em irlandês, por isso há uma tradição na Europa das famílias Cooper fabricarem caixões. É uma coincidência.

Eu lembro de brincar de esconde-esconde com meus primos nos caixões. Tinha uma época que guardávamos caixões em casa. O estoque era grande porque a empresa ainda era muito pequena e não havia outro lugar para colocá-los. Algumas crianças se assustavam. Tenho amigas que até hoje lembram de chegar em casa e ver caixões no jardim. Hoje sei que o caixão assusta as famílias, mas para mim era, e ainda é, algo muito natural.

Foi na adolescência que eu comecei a perceber que minha família era diferente das outras. Um dia, a professora perguntou onde meu pai trabalhava. Eu disse: funerária. Ela me corrigiu: não, ele trabalha numa funelaria, nunca mais diga funerária. Ela achou que eu estava confundindo e não queria entender. Meus pais tiveram que ir lá explicar.

Fiquei muito tempo com vergonha de falar que minha família trabalhava nesse ramo. Mas chegou um dia em que percebi que o assunto na mesa de jantar era só esse: o trabalho na morte. Eu tinha 16 anos quando decidi entrar na empresa também. Meu irmão, com 18, já trabalhava lá, junto com meu pai, meu avô, minha mãe… Comecei vendendo planos funerários, aí fiz curso de preparação de corpo, de maquiagem, e acabei passando por todos os setores da empresa. Uma das coisas que fiz muito foi ser a DJ do crematório – eu selecionava as músicas para o velório e para a cerimônia de cremação.

Lembro de as pessoas ficarem assustadas quando eu falava do meu trabalho e algumas achavam nojento. Brincadeiras sempre tinham (e ainda tem) porque é o modo do brasileiro de lidar com a morte. A educação que meu pai me passou foi que nosso trabalho é o de tornar mais fácil o momento mais difícil da vida das pessoas. É um trabalho digno.

Hoje todo mundo já conhece meu trabalho e valorizam o que eu faço. Meu pai, Edson Cooper, é muito respeitado. Ele é bem empreendedor. Na primeira possibilidade que teve começou a ir em congressos. Hoje ele participa de três congressos internacionais por ano e dois nacionais. Ele não falava inglês e não entendia as feiras funerárias, mas com o tempo foi aprendendo. Sempre se espelhou nos países mais desenvolvidos. Ele trouxe a cremação para o sul do Brasil, há quinze anos, quando a cremação não era comum, com a consciência de que ela é uma alternativa mais econômica, prática e polui menos o meio ambiente.

Ele inovou em outros aspectos, como o de usar poltronas confortáveis ao invés das cadeiras duras e na instalação de ambientes climatizados, além do oferecimento de lanches para as famílias durante a cerimônia.

Um dos maiores legados do meu pai é a tanatopraxia – um conjunto de técnicas de conservação do corpo, que retarda sua decomposição. Foi ele quem trouxe esse estudo ao Brasil e passou a ensiná-lo gratuitamente. Por ser engenheiro químico, ele criou o líquido que é injetado no corpo. Isso se espalhou muito rápido. Hoje se cobra 2000 reais para dar um curso de tanatopraxia, e meu pai ensinou todo mundo de graça. Antigamente, não se podia transportar corpos de uma cidade para outra, ou fazer velórios depois de 24 horas porque não existia essa técnica. É um procedimento fantástico para a família, porque parece que a pessoa está dormindo. Ele tira a rigidez do corpo, tornando possível entrelaçar as mãos do defunto, por exemplo. Além disso, tira o cheiro forte e age como um bactericida, possibilitando o toque. A tanato também tornou possível a reconstituição facial e a reconstituição do corpo.

Outra inovação é o uso de resguarda de pombas brancas no sepultamento. Meu avô sempre criou pombos, passarinhos e galos, mas teve que parar de trabalhar por causa da idade. Inicialmente, meu pai implantou a resguarda para dar uma atividade para ele. O que acabou sendo muito benéfico, porque há estudos científicos mostrando que quando as pessoas olham para cima, elas ativam um nervo que relaxa. Esse movimento circulatório de olhar a resguarda de pombas voando (elas dão cinco voltas acima da cabeça) faz com que você movimente o pescoço, relaxando ainda mais. As famílias vão embora mais relaxadas, tranquilas para pegar um carro, ou até mesmo viajar – voltar para sua cidade natal após um velório.

Também fizemos a chuva de pétalas que agora está se espalhando pelo Brasil. No final da cerimônia, tem uma esteira embutida no teto que solta pétalas de rosas em cima do caixão. É uma última homenagem que as famílias têm adorado e possibilita esse olhar para cima. Assim como a chuva de balões – a família escreve textos que são colocados dentro dos balões e soltos.

Temos a árvore das saudades (mensagens colocadas em corações ou flores de papel), e os QR-code na sala de memórias, com informações sobre a pessoa falecida. São nichos de vidro que representam um túmulo, com objetos pessoais como óculos ou celular, estetoscópio… artigos que mostram o trabalho e os hobbies daquela pessoa. São coisas que ajudam no processo do luto.

Algumas inovações são referências que vemos fora do país, como a transformação de cinzas em cristais. Antes usávamos diamantes, mas era muito caro por ser um produto importado. O cristal é bem mais barato e é feito por nós mesmos, na fábrica de vidros do meu outro avô. Uma vez, a esposa de um falecido nos pediu para fazermos um sapo em cristal verde com as cinzas dele, pois ele tinha o apelido de sapo. Também oferecemos cristais com cinzas dos bichos de estimação.

Tentei fazer uma parceria com a NASA para mandar as cinzas para o espaço (um serviço comum lá), mas não deu certo, porque ninguém quer mandar o parente para longe. O pingente é mais popular, por permitir que a pessoa amada fique perto de si.A materialização faz bem no lidar com o luto.

Nossa cerimônia é pensada para ajudar as famílias. Procuramos montá-la da forma mais personalizada possível, pesquisando sobre a vida do falecido e buscando coisas marcantes e positivas na sua trajetória. Pegamos as músicas que ele mais gostava, montamos um vídeo, elaboramos uma carta com as últimas homenagens dos amigos e de pessoas do convívio social, como do trabalho ou do clube.

Os americanos fazem muito isso. Vai todo mundo para o microfone falar sobre o falecido, fazem até santinhos. Só que eles têm uma semana para preparar a cerimônia lá. Aqui temos duas horas para montar tudo.

E procuramos ajudar no que for possível. Por exemplo, se sabemos que há briga na família, colocamos um vídeo falando sobre a importância da união familiar. Tudo tem que ter um sentido.

O trabalho é prejudicado pelo preconceito que o setor enfrenta. Nos Estados Unidos, por exemplo, o diretor funerário é visto como uma figura que ajuda a comunidade. Aqui, no Brasil, as pessoas têm a impressão de que a funerária se aproveita da família no momento do luto.

Eu represento o Brasil, junto com meu pai, nas reuniões do FIAT-IFTA, um conselho internacional em que se vota assuntos relacionados à morte, junto à UNESCO e à ONU. Discute-se, por exemplo, o sepultamento no mar, se deve ser permitido ou não e quais seus impactos no meio ambiente.

Em relação aos outros países, estamos atrasados quanto ao percentual de cremação. Aqui são 3%, nos EUA é acima dos 70%, na China é 99,5%. A Austrália também já passou dos 70%. Em relação a serviços, o Brasil está avançado. Em poucas horas já entregamos o corpo embalsamado, com lanche, ritual, todo evento preparado. Também admiram nossas inovações no serviço. O brasileiro é muito criativo.

A tendência do nosso mercado funerário é aumentarmos as taxas de cremação de pessoas e animais. Eu prefiro a cremação por ser mais prática, limpa, higiênica e mais leve. Também acho que crescerá essa ideia de se elaborar a cerimônia como uma homenagem – com vídeo, fotos, texto biográfico, ou seja, com grande participação dos familiares e amigos.

Infelizmente o sistema funerário de Curitiba é um retrocesso. A federação diz que cada município deve gerar o ramo funerário de sua cidade como quiser. Em Curitiba, há um rodízio de funerárias (são todas particulares, ao contrário de São Paulo, onde há o monopólio da prefeitura). Cada um que morre vai para uma funerária, em formato de rodízio. É um pesadelo você não poder escolher a funerária que preferir. A livre concorrência só agrega para o consumidor, então é ele quem está perdendo.

Então posso dizer que sonho com mudanças como essa. E desejo a melhoria contínua do setor. De poder atender sempre com qualidade e inovação. E quando eu tiver filhos, adoraria que eles continuassem nesse segmento, com o amor em ajudar os outros nesse momento difícil, como o que meu pai me ensinou.

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