A nova vida após a morte – no Reino do Face

Por Camila Appel

Vida após a morte existe num espaço que tem começado timidamente a se consolidar. É o que estou chamando aqui de o Reino do Face – um conjunto de contas que recebem o nome de “conta memorial”. Na prática, não existe um espaço físico para os perfis dos mortos – arrisco dizer, ainda. A conta de alguém que morreu se parece com uma conta viva. Visualmente, a única diferença é a frase “EM MEMÓRIA”, entre parênteses, ao lado do nome da pessoa. Todas as publicações enviadas em vida estão lá, num mosaico de uma biografia escrita em tempo real. A foto do casamento, do nascimento do bebê, de uma viagem importante ou mesmo de um pedido de ajuda, uma nota de luto, um agradecimento qualquer. Tudo registrado na intimidade generalizada do Face. Essa conta é privada e não é possível (nem para familiares) ver as mensagens trocadas ou o histórico do chat sem a senha de acesso – paqueras online permanecem protegidas, se essa era sua preocupação.

Outra característica da conta memorial é que o perfil deixa de ser exibido em espaços públicos, como naquela sugestão que aparece “pessoas que você talvez conheça” ou nos lembretes de aniversários e anúncios.

Por enquanto, a conta memorial permanece com as mesmas configurações de quando o usuário estava vivo. Por exemplo, se era permitido publicações na sua linha do tempo, continuará assim. As fotos de perfil e capa também serão as últimas postadas pelo usuário. E o conteúdo já publicado segue visível para o público em que foi compartilhado.

Nos Estados Unidos, já existe uma opção chamada “CONTATO HERDEIRO” (Legacy contact). É um contato que você deixa permitindo que essa pessoa altere as configurações da sua conta depois que você morrer. Essa opção ainda não está disponível no Brasil. A assessoria de imprensa do Facebook me informou que a ferramenta está, aos poucos, sendo lançada em outros mercados, com o cuidado e a atenção necessária a questões culturais locais de cada um. A partir do momento em que o Facebook é avisado que um usuário morreu, por meio da Central de Ajuda, se essa pessoa escolheu um contato herdeiro, o perfil dela será transformado em um memorial e o contato herdeiro poderá: Escrever um post para ficar marcado no topo da Linha do Tempo, dando avisos, por exemplo, sobre velório e missa de 7º dia; e atualizar as fotos de perfil e de capa. Esse contato não terá acesso a dados confidenciais do usuário (como ler as mensagens privadas). Além de definir esse “herdeiro”, a pessoa poderá decidir também se deseja que sua conta seja deletada após sua morte. Por enquanto, cabe aos amigos e familiares solicitarem essa opção.

Mas a maior parte da comunidade do Facebook ainda é nova. A primeira geração a aderir em massa à rede deve começar a morrer daqui a uns 40 anos. Por enquanto, os “em memória” são vítimas de acidentes, doenças ou suicídio. São poucos os que morrem em consequência da idade por ali, já que os bem velhinhos de hoje não costumam ter um perfil virtual. Mas um dia teremos milhares de perfis sendo transformados em memoriais diariamente, num reino ainda misterioso de vida após a morte na rede social virtual.

Num dos e-mails que enviei à assessoria de imprensa do Facebook, escrevi algo como: gostaria de entender o que acontece com o perfil do usuário após a morte do corpo físico. Aí apaguei as palavras por considerar a frase mística demais. E me ocorreu: será que a internet vai reinventar a religião? A ponto de o perfil virtual de alguém ser uma referência para alma? Afinal, qual é o consenso geral do que de fato sobra quando um coração para de bater? As memórias dos que ficam. Se somos feitos de lembranças, o Face é o reino perfeito para uma vida após a morte. Na página da pessoa ficará os eventos mais marcantes da sua vida. Esse novo reino é internacional, aceita todas as línguas e crenças espirituais. Ele é democrático e confessional. E ainda poderá se desenvolver de formas surpreendentes, trazendo novas discussões éticas pela frente.

Grupos           

Caso o administrador de um grupo morra, poderá ser indicado um novo administrador para ele. As páginas que têm um único administrador – que foi transformado em conta memorial – serão removidas. O grupo poderá ser removido caso seja enviada uma solicitação válida ao Facebook.

Também é possível criar um grupo para compartilhar lembranças do morto com outros usuários do Facebook.

Morte denunciada

Segundo a central de ajuda da rede, “quando você morrer, seus amigos e familiares poderão solicitar que sua conta seja transformada em memorial”. Deve ser preenchido um pequeno formulário indicando um atestado de óbito ou documento que comprove a morte. Tentei contato com um funcionário encarregado de aprovar a transformação de contas para memoriais, mas não foi possível.

Essa solicitação fica no link: “denuncie algo do Facebook”. É uma forma prática de viabilizar o processo, mas imagino que com o tempo, será necessário criar uma ferramenta mais adequada do que uma “denúncia”. Em algum momento, haverá toda uma estrutura para o luto, o memorial e quem sabe até enterros e cremações virtuais.

Minha imaginação pintou um cenário gracioso. Com o Facebook lançando seu próprio cemitério e crematório, com direito a todos os serviços funerários disponíveis. Enterros sendo acompanhados pelo mundo todo, algo digno de uma manchete em letras grafais: morte ao vivo!. Quem sabe, homenagens em vídeos e fotos organizadas por uma equipe específica do Face, usufruindo da facilidade de acesso a todas as imagens importantes da sua vida. Eles já poderão saber suas preferências, onde quer ser enterrado ou espalhado em cinzas, e de repente terão uma seção específica para cadastro de testamento, testamento vital ou cartas misteriosas com segredos de família a serem entregues somente após a morte. Eles saberão suas flores prediletas, seus hobbies, e figurei aqui altares personalizados, como um caixão em cima de um piano de calda caso o morto fosse um apaixonado por Beethoven – tudo dependendo do quanto você desembolsou no seguro funeral que o Face pode ter lançado em parceria com alguma instituição financeira.

A morte do “corpo físico” nem fará mais falta. O corpinho virtual poderá ser manejado com uma inteligência artificial que mimetiza suas ações, compartilhamentos e escritos, com base nos seus quase um século de histórico. A imortalidade, a um passo. Mas isso tudo, por enquanto, só na minha imaginação.