Hoje é o dia mundial de prevenção do suicídio

Por Camila Appel

10 de setembro é o dia mundial de prevenção do suicídio e faz parte da campanha “setembro amarelo” lançada pela Associação Internacional para Prevenção do Suicídio (IASP) em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Veja algumas iniciativas em SP e no RJ.

“Só penso em tudo o que eu poderia ter dito para evitar que ela se matasse, penso que os cigarros dela ainda estão aqui no cinzeiro, penso que eu tinha que ter ligado quando ela não respondeu minha última mensagem, penso que ela nem sequer me disse o que ela queria me dizer”.

Gregório Duvivier – em sua coluna de 7/9

O suicídio tem aumentado no Brasil e no mundo. Segundo relatório da Organização Mundial da Saúde – OMS, uma pessoa se mata a cada 40 segundos, numa taxa que subiu 60% nos últimos 45 anos. Iniciativas relevantes têm se concretizado para frear essa tendência desoladora.

Um ponto crucial, a meu ver, é a conscientização de que o suicídio é possível de ser prevenido. Isso não é o mesmo que culpar os amigos e familiares de suicidas, dizendo que eles poderiam ter feito algo para evitar tal acontecimento. Mas sim mostrar dados e casos de pessoas que desistiram de seus planos terminais e deles fazer exemplos. Até porque 90% dos casos são evitáveis por estarem associados a algum distúrbio mental, passíveis de tratamentos. Mas nem sempre é o suficiente.

A OMS disponibiliza uma cartilha sobre como prevenir o suicídio. Traduzi alguns pontos chaves no post Mitos sobre o suicídio e como preveni-lo”, abordando também outros pontos mencionados pela cartilha da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e pela American Foundation for Suicide Prevention (AFSP). O Ministério da Saúde também disponibiliza um manual de prevenção, voltado a profissionais das equipes de saúde mental.

As cartilhas indicam sinais de alerta importantes, fatores de risco e o fator impulsivo do ato – significando que nem todas as vítimas estão determinadas a morrer e são ambivalentes nesse sentido. Um mito fundamental indicado pela cartilha relaciona-se ao tabu em torno do tema. Há quem considere que falar sobre suicídio poderá, de alguma forma, encorajar o ato. Mas o fato é que muitos das pessoas que pensam em suicídio não têm com quem falar a respeito.

E aqui toco na essência desse post: precisamos falar sobre isso. Os casos “de sucesso” de prevenção do suicídio normalmente permeiam essa questão – a necessidade e o impacto de ser escutado. Andrew Solomon (“Depressão é um Segredo de Família que Compartilhamos”) comenta sobre a dificuldade de acesso a tratamentos psicoterápicos e passa para o resultado de uma série de entrevistas que realizou. Ele percebeu que quem conseguiu lidar melhor com a situação foram os que a encararam, falando a respeito e compartilhando. Um guarda rodoviário da ponte do Rio São Francisco (conhecida por ser o local de maior taxa de suicídios dos Estados Unidos) diz, em palestra do TED, ter salvo um homem que alegou desistir de pular porque “foi escutado”.

Arthur Mondin foi voluntário do CVV – Centro de Valorização da Vida – por 34 anos. Em 2008, Arthur criou o atendimento via chat. Ele conta ao Morte sem Tabu: “No caso dos trabalhos por telefone ou chat como o do CVV, a linha mestra de pensamento é a seguinte:  aquele que pensa em suicídio é fundamentalmente um solitário que necessita urgentemente de desabafar e é nesse momento que surge a figura do voluntário que é um expert na arte de ouvir.  Esse ouvir é que é o segredo do sucesso e precisa ter as seguintes  características:  não julgar, não sugerir, não recomendar, mas simplesmente aceitar, respeitar e compreender o outro como ele é e não como eu gostaria que fosse”.

No Japão, a situação chegou a um extremo desolador. No ano passado, o suicídio foi considerado a maior causa de morte entre jovens de 10 a 19 anos. 1 de setembro é o dia de maior incidência devido à volta às aulas do segundo semestre escolar. Um bibliotecário chegou a tuitar: “o segundo semestre está chegando. Se você está pensando em se matar porque você odeia demais a escola, por que não vir até nós? Temos quadrinhos e romances leves. Ninguém vai te dedar caso passe o dia todo aqui. Pense em si mesmo como um refugiado se você está pensando em escolher morte acima da escola em setembro”. Em 24 horas, o post foi retuitado 60.000 vezes. Um dos motivos seria a pressão de uma sociedade competitiva.

A IASP – Associação Internacional de Prevenção ao Suicídio, em parceria com a OMS, promovem fóruns voltados a acadêmicos, profissionais da área, voluntários e sobreviventes do suicídio – como afirmam no site da instituição. Declararam 10 de setembro o dia mundial de prevenção do suicídio, com 500 atividades ao redor do mundo, em 66 países. O dia faz parte do movimento pelo “setembro amarelo” de conscientização desse problema de saúde pública. A American Foundation for Suicide Prevention (AFSP), por exemplo, mobiliza uma semana de eventos com campanhas sociais pelo twitter, Instagram, caminhadas que levarão cerca de 120 mil pessoas e programas educacionais.

Caminhada do CVV, hoje às 20h – saída do Teatro Municipal

O CVV é um dos representantes dessas mobilizações no Brasil. Junto à Associação Brasileira de Psiquiatria, promovem debates, simpósios e outras atividades.

Nesta quinta-feira (10), será realizada uma caminhada noturna, que sairá do Teatro Municipal às 20h. É o terceiro ano da caminhada noturna pela valorização da vida. O CVV é uma ONG fundada em 1962, formada essencialmente por voluntários, com a missão de contribuir para a prevenção do suicídio.

O CVV também está promovendo, no Rio de Janeiro, o “II Debate: A dificuldade de abordagem do suicídio na mídia” no dia 10 e o “V Simpósio Internacional de Prevenção do Suicídio” no dia 11.

Os eventos são gratuitos.

Saiba mais: www.facebook.com/cvv141

Para Tino Perez, facilitador do grupo de apoio a familiares e amigos de suicidas – que se reúne na primeira quarta-feira de cada mês e fez um ano em agosto, as iniciativas são fundamentais. Ele nos conta: “o importante é levar informação para a sociedade. 90% dos casos de suicídio podem ser evitados. Precisamos falar a respeito, quebrar o tabu e o estigma sobre o suicida. As campanhas são necessárias. Quando surgiu a Aids, ninguém falava a respeito. Hoje ela está mais controlada por causa dos movimentos da mídia. Aconteceu a mesma coisa com o outubro rosa – de prevenção do câncer de mama. A gente acredita que se a sociedade começar a falar sobre o suicídio, passará a ser algo que possamos absorver no dia a dia. Quando você chega num lugar e propõe falar sobre o assunto, as pessoas levam um susto. Mas quando falamos sobre suicídio, estamos, na verdade, falando sobre vida, sobre a valorização da vida”.

Colcha da memória da vida – Instituto Vita Alere

Nesta quinta-feira (10) o Instituto Vita Alere (instituto especializado em prevenção e posvenção do suicídio) fará uma palestra aberta – com sua fundadora Karen Scavacini – no CVV de Guarulhos. E lançará a “Campanha Colcha da Memórias Vida”, em parceria com a American Foundation for Suicide Prevention (AFSP) para elaboração de uma colcha formada pelas memórias dos sobreviventes do suicídio.

“Cada quadrado dessa colcha será feito por um sobrevivente diferente, com fotos, textos ou gráficos em memória do(a) amado(a). Cada quadrado é cuidadosamente costurado junto, assim somos lembrados de que nenhum sobrevivente está sozinho – existem milhares de outras pessoas que também sentem a dor e a solidão de perder um ente querido para o suicídio”, dizem na apresentação do projeto.

As mantas colaborativas serão exibidas publicamente em eventos. Para participar, escreva para contato@vitaalere.com.br.

O Vita Alere também inicia hoje um curso online de prevenção do suicídio. O instituto dispõe de um grupo virtual no Facebook. Haverá três reuniões abertas para terapeutas conversarem sobre como é atender pessoas em luto por suicídio. Essas reuniões serão no final de setembro e em outubro, gratuitas. O próximo encontro do grupo de apoio será no dia 17/09 (quinta-feira) às 19:30hs. Para maiores informações, mande um e-mail ao endereço acima ou consulte o site do instituto.

Sobre a mobilização do setembro amarelo, Karen fala ao blog: “o mundo se une para mostrar que o suicídio está aumentando e que precisamos falar sobre o assunto. Isso faz com que as pessoas assumam que ele existe, aumenta sua conscientização e mostra que muito pode ser feito. Pressiona governos a tomarem iniciativas para sua prevenção e promoção de saúde mental, pois o suicídio é um indicador da doença mental de um país. Se pensarmos que nos últimos dez anos, o suicídio no Brasil cresceu mais que a população, do que os acidentes de trânsito e mais do que homicídios no país, demonstra que algo maior e mais estruturado precisa ser feito. Mostra que as pessoas precisam de ajuda, que é a ação e não a omissão que faz a diferença, que fazer de conta que ele não existe não faz com que ele desapareça. Demonstra que é a dor, o desespero, e não a covardia que fazem com que ele ocorra. Mostra àqueles que estão em sofrimento, que eles não estão sozinhos, que as pessoas se importam e que existem outras saídas. Educa as pessoas para perceberem os sinais e serem agentes de mudança e prevenção. Indica que qualquer pessoa pode prevenir um suicídio. Honra e lembra as histórias dos que se foram, dá suporte e une os sobreviventes. Se ele existe, podemos e devemos fazer a nossa parte, como pessoas, profissionais, sociedade e governo”.

Acenda uma vela

A IASP convida a todos para acenderem uma vela nesta quinta-feira (10) às 20h – em horário local de cada país, para demonstrar suporte à prevenção do suicídio, lembrar dos que se foram e dos sobreviventes. Veja foto abaixo.

Ferramentas de prevenção

A central de ajuda do Facebook tem um uma seção direcionada para “ajudar um amigo em necessidade”, estimulando usuários a relatarem ameaças de suicídios. Na “linha direta” ainda não há endereços ou telefones de ajuda no Brasil. Ao clicar em “tenho pensado em automutilação ou suicídio”, há recomendações como: fale com um amigo, procure uma linha de ajuda, saia, seja criativo, acalme seus sentidos, relaxe, mas ainda não há informações aplicadas à realidade brasileira – como uma lista de instituições nacionais que trabalham com prevenção e posvenção ao suicídio.

Em fevereiro desse ano, o Facebook lançou, nos Estados Unidos, uma ferramenta para que amigos de usuários reportem posts suspeitos – que indiquem uma tendência ao suicídio. Após analisar o pedido, uma equipe da empresa manda uma mensagem ao usuário em questão, contando que um amigo pensa que ele está passando por dificuldades e oferecendo canais de ajuda – ver uma seção de dicas e suporte ou falar com um amigo ou um profissional da área. Ainda não disponível em outros países.

A organização Samaritans chegou a lançar o aplicativo “Samaritans Radar” para alertar sobre usuários do Twitter com risco de se matar. O risco era medido por frases e palavras que indicassem a tendência, como “me odeio”, “cansado de estar sozinho”, “ajude-me” e “preciso falar com alguém”. O aplicativo foi cancelado nove dias após seu lançamento (novembro de 2014) devido a críticas sobre invasão de privacidade e facilitar que pessoas mal intencionadas tivessem acesso àqueles que estão em seu momento mais vulnerável.

Há diversos aplicativos internacionais gratuitos disponíveis para celular oferecendo informações – como mitos sobre o suicídio, sinais de alerta, como ajudar alguém em situação de risco, como ter uma conversa difícil, como ser um bom ouvinte… Mas eu não encontrei um aplicativo brasileiro nesse sentido.

O suicídio precisa ser tratado como um problema de saúde pública e não como um tabu. É importante termos iniciativas que falem abertamente sobre a realidade do suicídio, seus mitos, como preveni-lo, como falar com uma pessoa que possa estar em risco, e divulgar grupos de apoio a amigos e familiares destroçados por um evento desses. Nesse sentido, termos uma iniciativa de conscientização mundial é muito bem-vindo, tanto o setembro amarelo – de prevenção do suicídio, quanto um dia do ano (10 de setembro) para incentivar iniciativas ao redor do mundo. A prevenção parte da ideia de que normalmente o suicida não quer deixar de viver, mas sim parar de sofrer. E para isso há outras saídas.

Que sejam frutíferas.

cvvlight_a_candle_on_wspd_portuguese

 

Posts relacionados

Grupos de apoio aos amigos e familiares de suicidas

Mitos sobre o suicídio e como preveni-lo

A era dos adictos

Escritor admite ter tentado o suicídio

É preciso imaginar Sísifo feliz