Como escrever seu próprio obituário

Por Camila Appel

Há diversas razões para escrever seu próprio obituário. Alguns cursos de jornalismo e de escrita criativa o indicam como um exercício.

Terapias e coaching também usam o obituário como uma forma de procurar compreender como se deseja viver a vida.

O portal legacy.com, um banco de dados mundial de obituários, que distribui textos a grandes veículos e tem 37 milhões de visitantes ao mês, fez um artigo com dicas. Um dos motivos colocados é: “começando pelo fim – o que você gostaria que seu obituário dissesse – pode ajudar na compreensão do que você precisa fazer na vida para alcançar seus objetivos”.

O site menciona ser cada vez mais comum as pessoas envolverem-se na escrita de seu próprio obituário. Hoje em dia, um obituário não precisa ser selecionado por um jornal, ele pode ser livremente publicado em blogs ou redes sociais.

Culturalmente, os brasileiros tendem a achar que falar ou pensar sobre a morte é um mau agouro. Se é seu caso, desprenda-se desse pensamento antiquado e vamos em frente. Convido o leitor a escrever o seu e me encaminhar no e-mail do blog (mortesemtabu@gmail.com).

O médico e psiquiatra João Augusto Figueiró diz usar esse exercício em seu consultório e considera a reflexão sobre a finitude e a transitoriedade muito benéfica. “Isso dá uma reordenada na vida da pessoa, no que ela está fazendo. Na medida em que você tem essa consciência, você altera a forma como vive o dia a dia. Para os filósofos gregos antigos, essa reflexão era fundamental para o que eles chamavam de uma vida virtuosa. É uma vida que tenha sido vivida integralmente, até o último momento. Já passei esse exercício em terapia. É uma questão que está sempre presente no meu dia a dia”, afirma Figueiró.

Ele imagina que vai morrer aos 90 anos e usa essa data como um horizonte para planejar sua vida e projetos. “ E o que eu quero ser com 90 anos? Um velhinho sábio, que viva uma boa vida, em harmonia consigo mesmo e com os outros, praticando o bem comum. Eu brinco que eu quero que escrevam no meu obituário caso eu morra antes do 90: Fui, mas contrariado”.

Margalit Fox, do “New York Times” vê a escrita de um obituário como a ação de “resolver o mistério de como uma vida foi vivida”. Ela busca entender a trajetória de uma vida como um mistério, buscando o porquê determinadas ações foram tomadas, como a pessoa percorreu de A para B e depois para C. Margalit também diz pensar sobre como as pessoas incorporaram a era em que viveram e o quanto são produtos do livre arbítrio ou do destino puramente cego.

Já a escritora de obituários da revista “The Economist” prefere não pensar em cronologias, mas sim em encontrar a essência de quem era aquela pessoa e o que era realmente fundamental para ela. Outro jornalista do “New York Times”, Bruce Weber, diz oferecer uma entrevista ao seu “personagem”, quando está escrevendo obituários de pessoas ainda vivas. Leia mais no post: “Obituários: resolvendo o mistério de uma vida”.

Essa preocupação me parece ser fruto de uma cultura diferente da brasileira, pois esses veículos internacionais dedicam muito mais espaço e atenção a obituários do que estamos acostumados a ver aqui.

Abaixo, listei alguns pontos que podem ser considerados na escrita do seu obituário. Eu usei como referência a leitura de obituários, entrevistas com jornalistas especializados em escrevê-los e o site legacy.com.

Dicas:

  • Tenha liberdade para se expressar. Tanto faz escrever em primeira ou terceira pessoa. Para alguns, é mais fácil olhar para a própria vida com um olhar mais distante, como o da terceira pessoa. Veja a forma mais fácil para você. Muitos obituários são bem humorados, então abuse do humor se for esse seu jeito de viver.
  • Quais são os fatos que definiram sua vida? Você pode iniciar pensando em datas importantes:
    • Nascimento e morte – em qual ano você imagina que vai morrer?
    • Formação: Qual foi a área de estudo escolhida? Qual faculdade fez, em que ano se formou ou se não chegou a completá-la e por quê.
    • Datas marcantes na carreira – como mudanças de emprego e prêmios (ou promoções).
  • Traumas: morte de alguém muito próximo, demissão, venda de imóveis por crise financeira, traição, acidentes de carro, e como isso te impactou – se acabou acionando alguma mudança de rumo ou de comportamento.
  • Família e pessoas queridas: quantos casamentos, divórcios, filhos e netos você teve. Como eles se lembrarão de você? Você pode imaginar que tipo de depoimento eles dariam a um jornalista que está escrevendo seu obituário. Grandes amigos também são inclusos aqui.
  • Trabalho voluntário e pertencimento a clubes ou a grupos sociais: se participou de algum movimento, causa, ONG, etc. Você pode mencionar ter doado uma parte do seu dinheiro para alguma instituição após a morte, ou mesmo pertences como livros, móveis, CDs, LPs, roupas, etc.
  • O que te torna único: hobbies ou interesses particulares: lugares que visitou, esportes que praticou, se colecionava alguma coisa, hábitos, paixões, expressões favoritas, coisas que te traziam alegria ou um sentimento de preenchimento, de realização. Essas informações, que tornam você único, são muito valorizadas em obituários, porque são a parte mais saborosa do texto. No fundo, gostamos de ver o que fazia outras pessoas felizes e as tornavam singulares. São os “detalhes” que mantêm uma pessoa viva na memória.
  • Fatos históricos: a vida das pessoas também é moldada pelos fatos ocorridos enquanto viveu, como guerras, crises, políticas econômicas, mandatos políticos. Pode-se abordar como um acontecimento histórico impactou a sua vida.
  • O que te define? Alguns veículos indicam um adjetivo no título. Algo que as pessoas que te conheciam identifiquem como uma característica própria sua. Por exemplo: serero, bem humorado, pioneiro, audacioso, divertido…
  • Causa da morte: do que você imagina que vai morrer? Como e onde? É importante indicar se você prefere que a causa da sua morte seja divulgada ou permaneça sigilosa.
  • Último desejo: você também incluir suas “últimas palavras”. Aqui estou romanceando um pouco, mas há obituários que incluem esse tipo de informação, como dizer: “antes de morrer, Maria pediu que seu cachorrinho fosse levado até o hospital para uma despedida”.
  • Funeral: haverá um velório? Sim ou não e onde. Também é possível mencionar se o corpo será cremado ou enterrado, ou doado para a ciência. Algumas famílias gostam de indicar a doação de órgãos.
  • Considerações finais: você pode usar seu obituário para inspirar o leitor com uma história pessoal, contar lições aprendidas na vida, ou enviar uma despedida aos familiares e amigos. Agora, com o Facebook, o obituário pode ser publicado em sua página, da forma como desejar. Essa escrita também pode ser vista apenas como um exercício e não ter compromisso algum em um dia vir a público. Se você for jovem, pode usá-lo para “prever” seu futuro e acompanhar seu depoimento conforme os anos passam. Mais do que prever o futuro, pode ajudar a moldá-lo e a fazer acontecer.