O sorriso da moça velha

Por Camila Appel

“Que um sonho bom, sem fronteira e sem fim, venha clarear em nós o eu profundo. É preciso rir, ensina Piolin, e na alegria iluminar o mundo”.

Carlos Drummond de Andrade

Lar das mãezinhas é um nome convidativo para uma casa de repouso filantrópica e me parece remeter ao cuidado maternal recebido pelas moradoras. Algumas ali há mais de dez anos, a maioria mal sai da cama.

Conversar com elas é encarar o abismo geracional entre quem passa as horas gerenciando tarefas e aqueles que veem no banho a grande atividade do dia. O tempo é subjetivo, claro. Quanto mais velhos ficamos, mais rápido ele passa. Pode ser o segredo para suportar a realidade de ter seus movimentos transformados em câmera lenta e enfrentar o “estar acamado” com resignação.

A minha visita deu-se num dia especial, um dia de encontro com os palhaços da Operação Conta Gotas. Imagino eu, que o esforço do banho foi a última coisa em que as senhoras pensaram naquele dia. A alegria trazida por eles é capaz de congelar a velocidade do tempo e oferecer um conforto de dias. Com a força de um passeio pelo espaço, e sua gravidade zero, os palhaços conseguiram retirar por um momento o peso do corpo das senhoras, já insuportável. A grande maioria reclama de dores constantes no corpo.

Um peso delineado nos colchões antigos, enfileirados em nichos abertos que se tornaram a última casa de cada uma. Na cabeceira das camas, sinais de quem foram, de quem sempre serão. Uma tem o símbolo do tridente da psicologia com seu nome, Hilda, bordado em azul. Outra, Josemira Luiza de Lima, conhecida como a poeta, tem uma mesa ao lado da cama, com livros, cadernos e canetas. Ela não só escreve poemas, como os declama de cor. Marilda Mallet pintava quadros antes da paralisia de sua mão esquerda, injusto para uma artista canhota. Diz que estão espalhados em museus pelo mundo. Os que sobraram ela pendurou em cima da cama.

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Josemira Luiza de Lima e seus certificados de concursos de poesia

Na ala B do lar, ficam as senhoras que precisam de maiores cuidados, por ser ao lado do posto de enfermagem. Um exercício comum é passar da cama para a poltrona. Ziriguidum Telecoteco Esquindô-lelê, fundador da Operação Conta Gotas, dança agarradinho com uma velha moça. O espaço ocupado por algumas mulheres ligadas a tubos de oxigênio de repente vira um salão de baile para os dois.

Assistir a preparação de um palhaço nunca deixará de ser curioso e, pelo menos para mim, encantador. A maquiagem aos poucos cobre a carne até que o homem sai e o palhaço entra. Esses personagens têm um objetivo claro: alegrar o outro. Que outro? “Nosso trabalho destina-se a pessoas e não a doentes”, diz Sandro Castilho – o homem por trás de Ziriguidum.

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Sandro Castilho, o palhaço Ziriguidum, fundador da Operação Conta Gotas

Inspirado em palhaços brasileiros como Pururuca, Torresmo, Arrelia e Picolino, ele é palhaço há 27 anos e fundou a Operação Conta Gotas há 15.

Hoje têm cem palhaços voluntários cadastrados e estão com inscrições abertas para o processo seletivo de novos. Após a seleção, passarão por um treinamento de 6 meses.

O trabalho não é remunerado, o que leva os palhaços a terem uma atividade paralela. Sandro, por exemplo, é profissional da área de manutenção industrial. Por não aguentar mais o peso da indústria, abriu uma empresa para consultorias, palestras e eventos corporativos lúdicos.

Sandro faz palestras para médicos em hospitais e faculdades. Recentemente palestrou no Albert Einstein, com o título “Virar a página”, sobre o cuidar de quem cuida. Seu foco é abordar o cuidado dos médicos, enfermeiros, recepcionistas e familiares dos doentes e todos os outros envolvidos no cuidado.

Esse acolhimento é inspirado no olhar dos cuidados paliativos e seus conceitos são passados aos palhaços voluntários com o uso de jogos.

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 “Preparamos o palhaço para lidar com odores fortes e feridas, enxergando o ser humano além delas. É pegar na mão de uma criança com epidermólise bolhosa com aceitação. A mãe e o pai dessa criança sabem que não estamos olhando o filho doente deles, estamos olhando o filho deles. Eles reconhecem essa diferença. Meu propósito é trabalhar a igualdade”, diz Sandro.

Veja uma ação da Operação Conta Gotas com crianças do Hospice Infantil da Santa Casa de SP

Sandro vê no riso a promoção de bem-estar, “para fazer as pessoas se sentirem bem”, diz. Seu Ziriguidum toca ukelele (instrumento que parece um mini-violão) e canta. Dra. Anemona Dentedeleão (Marcia Ramos) transforma bexigas em flores recebidas como um presente especial, Dr. Adolpho Fonshito (Ito Nascimento) anima o diálogo de Caco, um fantoche do sapinho dos Muppet Babies e a Dra. Balsamo de Amendoa (Adriana Ribeiro) conversa com as residentes enquanto acaricia suas mãos. Há momentos em que apenas estar presente é o suficiente. Segundo Sandro, o dr ou dra na frente do nome do palhaço indica a linha de trabalho humanitária, distinguindo-os dos palhaços tradicionais.

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Ito Nascimento, Adriana Ribeiro, Marcia Ramos, Ivani Milani (coordenadora do Lar das Maezinhas) e Sandro Castilho

Todos os palhaços são batizados pelo Ziriguidum. Eu mesma recebi simbolicamente um nariz vermelho e um nome: esmeraalldddaaa. A inspiração veio da girafa de um desenho animado, com esse nome comprido que não acaba nunca, condizente com a minha estatura.

Na sala de preparação, Ziriguidum diz que ser palhaço é ter desprendimento, respeito, ser tolerante, aceitar o outro e a si mesmo. Ele retoca a sobrancelha laranja, “eu sou uma pintura, eu sou uma tela que não acaba, todo dia vou complementando”.

Os quatro palhaços terminam de se arrumar e começam a fazer piadas um com o outro (e comigo, a pau de selfie natural, eu rio até hoje quando lembro). A entonação de suas vozes muda. Damos as mãos em roda e cada um fala uma palavra: amor, felicidade, carinho, sabedoria. A minha foi encontro.

A palavra surgiu da oportunidade que esse blog me oferece, de conhecer pessoas admiráveis como essas. Lembro do coveiro Fininho, da tanatopraxista Nina (a ser publicado), das paliativistas Ana Claudia Arantes, Ana Paula Soares, Maria Goretti e Dalva Matsumoto. Lembro da visita ao apartamento da vovó Neuza (a ser publicada), da entrevista com a Eliane Brum, dos psiquiatras e sociólogos que me concedem seus pensamentos sobre a contemporaneidade, como João Figueiró e Thiago Sarkis, de empreendedores funerários humanos e sensíveis como Daniel Arantes e Mylena Cooper, dos depoimentos daqueles quebrados pelo luto, das ricas trocas de e-mails com leitores, e penso nos encontros que surgem no lidar com o fim.

De Ukulele nas mãos e cantando “controlando a minha maluquez, misturada com minha lucidez, vou ficarrr, ficar com certeza maluco beleza”, seguimos Ziriguidum mergulhar na sala onde senhoras aguardavam o passar do tempo e assim que os veem, sorriem.

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