Cai o rei

Por Camila Appel

Após o efeito da renovação da meia-noite do Reveillon, Cinderela volta à realidade. Acessa seus e-mails e lê jornais. E o que ela vê? Ela vê que vivemos um momento visceral. As entranhas das instituições finalmente dão as caras. As pessoas parecem dizer mais o que pensam, o que sentem. Com a ajuda da fácil divulgação de qualquer pum em rede social, marcam suas posições e movimentos. Deslocam-se em pensamentos. Metamorfoses ambulantes. Mas apontar é mais fácil do que se enxergar. Quem são esses perfis tão decididos? Tão donos da verdade sobre o que a sociedade precisa, o que ela não precisa, o que deve ser feito e por quem, quem fica, quem vai, quem escolhe os escolhidos, quem julga os juízes, quem fiscaliza os fiscais.

Os castelos desmoronam, as estruturas são questionadas, os valores colocados à prova. E o refrão de uma música não me sai da cabeça. “Cartomante”, de Ivan Lins e Victor Martins, na voz de Elis Regina. Cai o rei de espadas, cai o rei de ouros, cai o rei de paus, cai, não fica nada.

Cai o meu rei também. Tiro minha própria máscara. Despido meu rosto bonitinho e encaro a feiura que tem debaixo da pele. Tenho, quem sabe, o privilégio de conhecer minha própria caveira, que decido expor aqui.

A imagem foi presenteada por Gilberto Formigoni, um otorrinolaringologista (pausa para respirar) que em determinado momento de uma consulta para averiguar o motivo de uma sinusite crônica, transformou despretensiosamente meu exame de seios da face na minha própria caveira em 3D, com a ajuda de certo programa de computador. Fico pensando que daqui a pouco, com a impressora 3D, cada paciente poderá sair do consultório com um molde de sua própria caveira. Devo ser a única a achar isso legal. É um legal de sorriso de canto, com meia boca, oferecido só aos que nos amedrontam.

Tento me reconhecer na figura. Nossa, não sabia que meu rosto era tão comprido, os anos de aparelho dentário surtiram efeito, as cavidades oculares parecem simétricas até, e que desvio de septo é esse, meu Deus? Meu nariz disfarça bem seu interior. Reto por fora, torto por dentro. E penso que a cada contagem de anos, a cada grito de fogos de artifícios, me aproximo mais dela. A pele vai derretendo, cedendo à força da gravidade, a cobertura que afina. Quanto mais eu olho a imagem, menos medo ela passa. Quem sabe consigo amá-la. Mas não hoje.

Olhar a representação da própria caveira é modernizar o monólogo de Hamlet (o famoso monólogo “ser ou não ser” é muitas vezes encenado com Hamlet segurando uma caveira, mas a passagem em que o príncipe medita sobre uma é outra). Usar a tecnologia para enfim perceber não apenas a finitude, mas também aquilo de que Hamlet toma consciência durante seu trajeto de herói. Que a corrupção, o feio, está presente em todos os lugares e não apenas em determinados grupos sociais, e principalmente, está presente nele mesmo.

Somos isso. Somos ossos. Aliás, somos ossos bem tortos. Amáveis também.

caveira
Imagem da caveira de Camila Appel