A morte segundo Frei Betto

Por Camila Appel

“Morrer se tornou uma falta de aducação”, diz Frei Betto nesta entrevista realizada por e-mail e complementa: “nessa cultura da glamourização do corpo, para a qual a velhice é humilhação, tentamos nos convencer de que somos imortais….”. Ele prefere usar a palavra transvivivenciar para se referir à morte, e ao ser questionado sobre qual título daria para seu obituário, responde: “Transvivenciou um peregrino de Deus que viajava a bordo de um paradoxo”.

Como escrever seu próprio obituário

Seu livro infantil “Começo, Meio e Fim” (Rocco, 2014), sobre como falar sobre morte com as crianças, parte do princípio de que “a morte é um importante rito de passagem e quando a encaramos com naturalidade damos mais valor à vida”.

Frei Betto fala sobre suicídio, aborto, e o principal problema filosófico da atualidade – “a desistorização do tempo”.

Com 60 livros editados no Brasil e no exterior, vencedor e finalista de vários prêmios literários, esse Frade dominicano (uma ordem religiosa católica) nos oferece iscas para reflexões. Boa leitura.

Como a ordem dominicana ou a Teologia da Libertação veem a morte?

Encaramos a morte segundo as palavras de Jesus nos evangelhos – é uma travessia (= páscoa, passagem) desta vida para a vida eterna. Porque acreditamos no testemunho dos apóstolos de que a morte não venceu Jesus, conforme descrevo em meu romance “Um Homem Chamado Jesus” (ed. Rocco, 2009). Ele ressuscitou. É uma questão de fé.

Para onde vamos quando morremos? 

Para a plenitude do amor de Deus, que a linguagem expressa por metáforas – Céu, Reino de Deus etc. O Universo é o ventre de Deus. Quando nascemos, todos riem e nós choramos. Quando transvivenciamos (não gosto da palavra morte), todos choram e nós sorrimos.

Existe alma e espírito? Eles acabam com a morte?

Em meu livro “A Obra do Artista – Uma Visão Holística do Universo” (Ed. José Olympio, 2012) trabalho com os conceitos da física quântica, acentuando que toda matéria é energia condensada. Portanto, o espírito ou a alma estão em nosso coração e também na unha que acabamos de cortar. Somos uma unidade de matéria e espírito. Não há conflito entre os dois, exceto para cabeças platônicas… Por isso o apóstolo Paulo escreve que todo o Universo será resgatado em Cristo, e nós teremos, do outro lado da vida, um corpo espiritual… conceito difícil de ser assimilado por nossa cultura influenciada pela filosofia de Platão. O dualismo platônico não existe na Bíblia.

A morte segundo o espiritismo – entrevista com Heloísa Pires

Há um julgamento sobre nossos atos quando morremos?

Segundo os evangelhos, seremos julgados de acordo com as doses de amor e desamor ao longo desta vida. Mas também Jesus acentua que Deus é sumamente misericordioso, como o pai da parábola do filho pródigo. Penso que quanto mais somos capazes de amar nesta vida – e, portanto, desdobrar o nosso ego (fonte do ego-ísmo) – mais absorveremos a plenitude do amor de Deus.

O que te inspirou para escrever seu livro infantil “Começo, Meio e Fim” (ed. Rocco, 2014) – sobre falar de morte com as crianças?

Muitas famílias cometem o erro de não levar crianças em velórios e enterros ou cremações de entes queridos, como os avós. Para a criança, fica a sensação de que aquele pessoa amada foi abduzida… Isso me levou a escrever sobre a morte para crianças. É preciso desmistificar a morte, hoje banalizada pelo excesso de violência no noticiário, na TV e em filmes. A morte é um importante rito de passagem e quando a encaramos com naturalidade, damos mais valor à vida.

Você lembra do seu primeiro contato com a morte e como reagiu?

Sim, quando minha tia Dirce faleceu de pneumonia. Eu tinha 4 anos. O velório foi na sala da casa de meus avós maternos. Ali estava o caixão. Pedi um banquinho para poder chegar à altura de observar o corpo. Isso me fez bem.

Como aconselha alguém a lidar com um parente que está perto de morrer? 

Acompanhei muitos doentes terminais, como Tancredo Neúdves, Carlito Maia e outros menos conhecidos. Deve-se passar tranquilidade, orar com a pessoa (se ela tem fé), passar carinho (ficar de mãos dadas), ajudá-la a se resignar com o destino inelutável. Mesmo quando o enfermo não tem fé, pergunto se quer receber a bênção da saúde. Nunca ouvi um não. E quem mais me surpreendeu ao dizer sim foi Giocondo Dias, então secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro, quando o visitei no hospital em Moscou, conforme descrevo em “Paraíso Perdido – Viagens aos Países Socialistas”(Ed. Rocco, 2015).

Há um tabu da morte no Brasil? 

Sim, morrer se tornou uma falta de educação. Já não tem choro nem vela nem fita amarela. Da UTI segue-se para o rápido velório e, dali, para o enterro ou cremação. Não se guarda luto, nem se faz um culto pelo falecido. Isso porque tememos encarar a morte de frente. Nessa cultura da glamourização do corpo, para a qual a velhice é humilhação, tentamos nos convencer de que somos imortais… Até porque, à nossa volta, lidamos com incessantes mortes virtuais, do bonequinho do videogame às chacinas na periferia e aos filmes belicistas. Os outros morrem… eu não!!!

Qual é o principal problema filosófico dos nossos tempos? (ou um deles pelo menos)

A desistorização do tempo. Devido ao neoliberalismo, estamos perdendo a consciência do tempo como história. Tudo é aqui e agora… Ora, toda a cultura ocidental está apoiada na historicidade, que os hebreus assimilaram dos persas. Por isso ela é marcada por três eminentes judeus: Jesus, Marx e Freud. Sem a percepção do tempo como história, o legado deles perde o sentido. Mas o neoliberalismo insiste em afirmar que “a história acabou…”

O suicídio é um pecado ou um direito? 

Um direito exercido por quem já perdeu a saúde mental ou, como no caso de Frei Tito de Alencar Lima (Vide meu livro “Batismo de Sangue” ed. Rocco, vencedor do prêmio Jabuti em 1982), por quem teme perder o livre arbítrio. Como bem disse Dom Paulo Evaristo Arns, Tito não se matou, buscou do outro lado da vida a unidade perdida deste lado em consequências das cruéis torturas que sofreu.

Pecado é culpar um suicida.

O aborto é crime?  

Depende da lei de cada país. Sou pela descriminalização do aborto, embora contrário a ele, pois conheci muitas mulheres que abortaram, mas nenhuma que me tenha dito que foi “uma curtição”…

Você acha que um dia, com o avanço da tecnologia, poderemos deixar de morrer?

Minha fé no futuro da humanidade não chega a tanto… Como bem frisa Simone de Beauvoir em “Todos os Homens são Mortais” (ed. Nova Fronteira), seria muito enfadonho viver para sempre. Até os imortais da Academia Brasileira de Letras morrem…

Como você vê o apocalipse descrito na bíblia e a ressurreição dos mortos? Essa ressurreição poderia ser metafórica?

Sim, são imagens metafóricas para afirmar verdades de fé: o mundo e a humanidade têm começo, meio e fim, e a morte não tem a última palavra sobre a vida. Se a vida aqui é amorosa, do outro lado ela é terna.

Haverá um juízo final, sucedido por uma guerra final na história humana?

Pura mitologia. Ao morrer renascemos em Deus.

O Armagedom será uma batalha real?

Só no cinema.

Se você morresse hoje, teria algum arrependimento?

De não ter reservado mais tempo para orar e meditar.

Se você pudesse dar o título de seu próprio obituário publicado em um jornal como a Folha, qual seria?

Transvivenciou um peregrino de Deus que viajava a bordo de um paradoxo.

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