“Morte sem Tabu” pede licença para parir

Por Camila Appel

“Morte sem Tabu” completa cem artigos, pede licença para parir e convida leitores para enviarem depoimentos.

Camila Appel267556
Camila Appel. Foto de Hudson Senna @estudiotocha

“Morte sem tabu” pede licença para parir e coloca o blog à disposição de depoimentos dos leitores. Serão bem-vindos relatos sobre envelhecimento, perda, luto, acompanhamento de pessoas em final de vida, opiniões sobre aborto, suicídio, eutanásia, depressão, dilemas morais, reflexões filosóficas, relatos médicos, a ciência e o futuro da morte, enfim, os temas abordados por aqui.

Pensar na morte, hoje, é um ato secreto e acanhado. Há certo constrangimento em dedicar-se a algo que de nada agrega à produtividade óbvia da sociedade. Se bem que a morte em si é bem produtiva porque gira um mercado enorme, aquele que você só descobre quando precisa desesperadamente dele e tem pouco tempo e disposição para fazer uma pesquisa mínima, como faz ao consumir um produto ou serviço de qualquer outro setor.

Puxar uma conversa franca sobre receios em relação ao envelhecimento, como dizer que sua memória está te pregando uma peça, ou falar sobre o medo de ser um fardo, de ficar sozinho, pensar no legado de uma vida ou fazer um testamento, são atitudes vistas como inconvenientes.

Refletir sobre a finitude seria uma perda de tempo comparado aos mil artigos opinativos que poderíamos escrever sobre  a política e a economia do nosso país. Ainda bem que há gente o suficiente para esmiuçar todo esse terreno “quente”, como dizem nas redações dos jornais. E ainda bem que existe espaço para os terrenos “frios”, como esse aqui.

Estou prestes a parir e tenho facilidade em procurar informações relacionadas a como ajudar alguém a nascer: tipos diferentes de partos, de médicos, vantagens e desvantagens do parto humanizado ou da cesárea, do parto em casa ou institucionalizado, fazer episiotomia ou não, tomar anestesia ou não, os tipos de anestesia, as fases do parto, quem são as doulas e como podem ajudar, para que serve uma fisioterapia de assoalho pélvico, benefícios de amamentar imediatamente, o corte do cordão umbilical, o que é a depressão pós parto e seus riscos, enfim, o conhecimento a respeito está disponível.

Numa pesquisa sobre como ajudar alguém que está no leito de morte, o cenário muda completamente. Ficamos perdidos, sem saber onde encontrar informações confiáveis. Tratamentos, tipos de médicos, morte em casa ou institucionalizada, sedar, sedação paliativa, entubar, não entubar, esperar, agir, doar, quais decisões tomar. Há uma confusão mental e física num momento de extrema vulnerabilidade. E depois da morte, os trâmites… enterrar, cremar, inventário, herança, homenagear, sofrer e sobreviver. Em muitos casos, a saída é fechar os olhos e aguardar. Torcer para que esse momento passe rápido e o mais longe possível. O que os olhos não veem, o coração não sente, dizem por aí.

Não precisaria ser assim. Nem vai ser assim por muito tempo, porque as coisas estão mudando. A rede social permite testemunhos e confidências de todos os tipos, inclusive sobre a perda. Em breve, será comum falarmos sobre os dilemas do final da vida. O IBGE calcula que em 2050 o Brasil será classificado como um país velho.

Criaremos novas estruturas sociais, como políticas públicas de cuidados paliativos e licenças, num molde similar à licença-maternidade, para quem deseja auxiliar um parente no final da vida. E criaremos novos tabus, principalmente sobre o que é morrer bem ou morrer mal, como existe hoje em relação ao parto.

Como a morte, a maternidade também é uma viagem ao desconhecido, mas nessa aqui temos o privilégio de continuarmos a ser testemunhas e atores do tempo, do movimento cíclico da vida. E com a dádiva de sermos de carne e osso para poder sentir os frios da barriga que nos dominam quando uma grande mudança está prestes a acontecer.

Até daqui a pouco.

OBS: Enviem os depoimentos para mortesemtabu@gmail.com ou entrem em contato pela página do blog no Facebook.

Ensaio de fotos feito pelo meu marido, Hudson Senna (@estudiotocha): A força da natureza e seus 4 elementos (terra, água, fogo e ar – a foto da gravata borboleta não representa um elemento, é só uma brincadeira minha. Ou talvez esse seja um quinto elemento: a descontração).