Por que não me mato?

Por Camila Appel

Inaugurando a série de artigos e depoimentos enviados por leitores, segue ensaio escrito pela jornalista e mestre em semiótica Lídia Zuin.

Por que não me mato?

Um ensaio sobre o tédio pós-moderno e a morte como força criativa.

 

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Faz quase quatro anos que Lars Von Trier lançou seu filme Melancholia. E também faz mais ou menos esse mesmo tempo que venho batalhando contra (e através) do conceito de morte. Talvez até pudesse dizer que isso tem me assombrado desde então, mas parece que esse fantasma finalmente se tornou um tipo de companhia. Por bem ou por mal, nunca saí do primeiro estágio do modelo de Kübler-Ross, que é a negação, e apesar de eu ter passado por períodos de fúria, nunca barganhei nada ou me senti em um verdadeiro estado depressivo causado pela morte de alguém. Eu simplesmente nego. Questiono. Desafio.

O presente ensaio tem como base e inspiração dois dos textos inseridos no livro Da Religiosidade. A literatura e o senso de realidade (Editora Escrituras, 2002), de Vilém Flusser. O artigo “Em louvor do espanto” sugere que a principal pergunta feita por Albert Camus em O Mito de Sísifo (1942) teria sido “por que não me mato?”. E, com base nisso, o filósofo tcheco-brasileiro disserta sobre a capacidade do homem primitivo em se surpreender com tudo aquilo que encontrava no mundo, sobre como criaturas e objetos eram adorados de maneira quase religiosa. De certa maneira, isso também acontece com um recém-nascido, conforme este vivencia o mundo ontologicamente da mesma forma que a espécie humana o fez fenotipicamente ao longo de sua evolução. Em outras palavras, a pergunta a ser feita não é “por que não me mato”, mas sim “como posso sobreviver”.

Em todo caso, isso aconteceu há muito tempo. De acordo com Flusser, estamos vivendo em tempos blasé: estamos entediados e nada nos surpreende mais, já que nada é novo. “Não estamos jogados no meio das coisas, mas no meio de instrumentos. Esses instrumentos são, no fundo, prolongamentos e projeções do nosso próprio eu”, argumenta o autor, ao mesmo tempo em que reforça a teoria midiática de Marshall McLuhan sobre como os meios são extensões do homem.

As máquinas são nossos braços prolongados, os veículos nossas pernas prolongadas, e o mundo em geral é uma projeção do nosso eu sobre a superfície calma e abismal do nada.

Flusser defende que as imagens digitais são, na verdade, mídias imateriais. Enquanto meios tradicionais como a pintura e a escultura possuem um suporte palpável e em três dimensões, imagens digitais seriam apenas abstrações criadas a partir de números (dígitos, conjuntos de zeros e uns). Elas não fazem parte do mundo tridimensional dos corpos, nem mesmo do mundo bidimensional das imagens tradicionais ou do mundo unidimensional (linear) da escrita. Isso significa que as imagens digitais existem em um espaço nulodimensional preenchido de vazios: um infinito e crescente abismo de abstrações.

À medida que criamos e replicamos nossas extensões, tudo parece se transformar em matéria-prima em vez de se manter como objeto: “Os trovões que ainda trovejam são movimentos do ar projetados por nós para carregar nossos aviões em seu voo fútil. As árvores que ainda brotam são matéria-prima projetada para se tornar instrumento. E os ‘outros’ com os quais dividimos esse mesmo mundo instrumental, eles são, eles mesmos, um instrumento enquanto fornecem ou consomem, enquanto cooperam ou competem”.

Nossa atitude diante desse mundo dos instrumentos é a atitude do déjà vu, a atitude do “já vi tudo”.

Talvez seja por isso que argumentos nostálgicos e comparativos ainda pareçam justos o suficiente para continuarem sendo usados com tanta frequência. Com o passar do tempo, parece também que nos tornamos mais velhos e mais ranzinzas em intervalos cada vez mais curtos. Vejo pessoas de vinte e tantos anos reclamando de adolescentes de dezessete da mesma forma que nossos pais ou avós fazem conosco. Pode ser que isso esteja relacionado à grande velocidade com que a tecnologia vem evoluído, já que a Lei de Moore parece mesmo se aplicar. Há algumas semanas, talvez você não fosse capaz de fazer certas coisas tão facilmente quanto pode agora que seu aplicativo foi atualizado. E assim por diante…

Os instrumentos não nos advêm da penumbra misteriosa, não são venturosos. Pelo contrário, estão aqui, diante da nossa mão para servir-nos. Tomados de nojo dessa servilidade somos nós que saímos em busca desesperada da aventura, desautenticando, por esse nosso movimento deliberado, a própria essência da aventura, que é um “advir”, e não um “ser buscado”. Essa nossa busca inautêntica de aventura, que é no fundo uma fuga do tédio, e que caracteriza tão bem a situação atual, é já uma tentativa fracassada de responder à pergunta “por que não me mato?”.

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“O caos reina”. Antichrist (2009), de Lars Von Trier

Mundo em desencanto

O progressivo uso e produção de instrumentos estão matando o sentimento religioso. Enquanto o homem primitivo não era capaz de entender a origem das coisas (natureza), tudo era visto como sagrado. Mas, agora, instrumentos podem preencher esse vazio e, assim, também matam o sagrado e geram banalidade. No melhor dos casos, somos capazes de ver instrumentos como representações do trabalho manipulador que exercemos e, portanto, a única coisa que seríamos capazes de adorar neles é, justamente, o trabalho humano que há por trás. Porém, Flusser considera “nojenta” essa “adoração autoerótica”: “Não dá um autêntico significado à existência humana”. Então seria isso também uma crítica ao Ateísmo? Acho que não exatamente.

Em uma situação como essa, acabamos vítimas de uma busca constante por algo que possa nos surpreender novamente: procuramos algo que preencha nossas expectativas agora tão altas. Estamos atrás de uma “segunda ingenuidade”, uma forma completamente nova de enxergar o mundo e de se expressar por meio dele – tal como pretendiam os Surrealistas por meio de sua arte. Mas Flusser defende que todas essas tentativas são em vão: “A ingenuidade não é algo que pode ser procurado. Assim como a virgindade, ela não pode ser reconquistada”.

Face ao mar, por exemplo, não podemos reconquistar o espanto primitivo, porque não podemos suprimir, autenticamente, os nossos conhecimentos quanto ao conteúdo salino e iodino de sua água. Tendo sido elaboradas as tábuas das marés, nunca mais o mar poderá servir de berço a Afrodite, a nascida da espuma. Não é por esforço deliberado que poderemos reconquistar o espanto nem encontrar um significado da existência humana. A transformação das coisas em instrumentos é um processo irreversível e as tentativas reacionárias de fazê-lo refluir estão fadadas ao malogro.

Quanto mais manipulamos a natureza na intenção de produzir instrumentos, menos ela nos parece deslumbrante, assustadora ou espantosa. Apesar de continuar sendo uma força que não podemos controlar totalmente, nós já a “domesticamos” até certo ponto – da previsão do tempo ao reflorestamento, dos transgênicos aos membros prostéticos. Com isso em mente, será que estamos mesmo tão entediados em um mundo de constantes descobertas científicas e tecnológicas? Provavelmente não. O que talvez ainda nos aborreça seja o fato de que estamos vivendo em uma transição de épocas e nos encontramos bem no meio desse processo, como aponta Flusser: “Esse tédio de fin de siècle nos faz perguntar: ‘por que não me mato?’. Mas sentimos as dores de parto de uma Idade nova”.

Apesar de a natureza ter sido (em parte) esvaziada pela ciência e pela tecnologia, há ainda um novo encanto a ser descoberto. De acordo com Flusser, o único risco que temos é o de que a ciência e a tecnologia se tornem “anti-intelectuais”. Para evitar, nossa geração tem a tarefa de fazê-las “intelectuais”, já que tal atitude poderia nos conduzir também à resposta para a infame pergunta “por que não me mato?”. Contudo, este é um trabalho que exige o espanto, como explica Flusser ao citar Aristóteles: “Propter admirationem enim et nunc et primo inceperunt homines philosophari” (É pelo espanto que os homens começaram a filosofar antigamente e hoje em dia).

Morte fértil

Por outro lado, será que não podemos afirmar que o fato de que continuamos vivos, mesmo sabendo que iremos morrer, não é algo surpreendente? Em “O tema exclusivo”, artigo que sucede “Em louvor do espanto”, Flusser explica:

Viver é fazer algo a despeito da evidente futilidade de tudo. Viver é portanto tentar negar a futilidade evidente de tudo. E por que é evidente essa futilidade? Pela morte. Viver é tentar negar a morte. Viver é fazer de conta que não há morte. Mas há. Não é isto espantoso? Sugiro ao leitor que a morte é o tema exclusivo e universal da vida. É portanto um tema sussurrado.

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Melancholia (2011), de Lars Von Trier

Criamos valores para que possamos encobrir e superar o tema da morte. Nossa sociedade está constantemente tentando negar a morte ao inserir valores e significados a objetos, instrumentos, pessoas, ações e emoções, à vida – isto é, a tudo aquilo que, a princípio, não significa nada. Mas é quando alguém decide sair do jogo, ao cometer suicídio, que nós novamente tentamos encontrar uma justificativa, uma explicação para o que é a morte.

Essa morte que admitimos e discutimos já é a negação daquela morte que negamos, e é justamente por isso que a admitimos. A morte que negamos é indiscutível. Não pode ser enquadrada no contexto biológico, ou psicológico, ou teológico, ou qualquer outro contexto, já que todo contexto é uma tentativa de negá-la. A morte admite somente duas atitudes: negá-la e continuar representando, ou aceitá-la e cair no mutismo.

Talvez seja por isso que eu nunca cheguei ao estágio da “aceitação” do modelo de Kübler-Ross. Continuo negando a morte enquanto, ao mesmo tempo, tento encontrar suas representações por meio da arte, da música, filmes, filosofia, tecnologia e assim por diante. É por isso que estou incluindo imagens de filmes de Lars Von Trier ao longo do texto. Além de ser um dos meus diretores preferidos, sinto que algumas de suas obras (especialmente Melancholia) nos fazem mais próximos desse inatingível e ininteligível conceito de morte. E isso é simplesmente absurdo.

Se me levanto da cama, se me visto, se tomo café e vou trabalhar, é que nego que vou morrer e faço de conta que sou eterno. Não fosse essa minha negação, ficaria na cama. Já que vou morrer, diria, tanto faz morrer hoje, ou amanhã, ou daqui cem anos, e ficaria na cama. A negação da morte dá portanto não somente significado à vida em geral, mas a cada vivência individual, a cada ato meu. Mas a negação da morte dá esse significado somente porque se sabe a si mentirosa. Se fosse honesta essa negação, se realmente estivéssemos convencidos de que não há morte, não levantaríamos da cama, exatamente como não levantaríamos se não tentássemos negá-la. Se realmente não há morte, se o meu futuro é ilimitado, então nada tem urgência, nada precisa ser feito agora, o que equivale dizer que nada precisa ser feito nunca. Podemos portanto concluir desta primeira consideração que a urgência do instante (que é a própria essência da vida) é resultado de uma desonestidade: já que nada urge se aceito sinceramente a morte, e já que nada urge se a nego sinceramente, finjo negá-la e tudo urge. Em outras palavras: urge escrever esse artigo, e urge lê-lo, já que escrevê-lo e lê-lo nos torna ainda mais imortais que somos, já que poderíamos morrer antes de escrevê-lo e lê-lo.

Dar urgência e significado à vida é uma desonestidade para Flusser. Mas, curiosamente, para Camus isso é honesto. O autor francês acreditava que aceitar a morte e continuar vivendo apesar disso é uma decisão honesta. Flusser argumenta que tal atitude seria justamente o contrário já que, em todo caso, estamos ainda mentindo.

Admito que vou morrer, e o admito não apenas em teoria como figura de retórica, mas compenetro-me vivencialmente desse fato, incluo a morte em cada instante. Todo meu instante passa a ser final e definitivo, passo a viver à bout de souffle. Nessa situação todos os supostos valores da humanidade se apresentam para mim como mentirosos, e toda conversação a respeito deles como conversa fiada grandiloquente destinada a fazer esquecer a morte. As religiões, as artes, a ciência e a filosofia são outras tantas figuras inautênticas e pretensiosas, já que supõem que buscam ‘uma vida melhor’, quando, na realidade, o que buscam é escapar à morte. Toda essa conversa fiada de uma “vida melhor” me enche de nojo, porque sei que se trata de uma mentira pomposa. Não é o caso de viver o melhor possível, mas simplesmente de viver o mais possível. Face à morte o que conta é a quantidade, e não uma suposta qualidade. A honestidade me força a admitir a vacuidade de toda moralidade.

Notícias recentes apresentaram uma conversa registrada com a inteligência artificial/chatbot do Google, na qual ela teria respondido a pergunta “Qual é o sentido da vida?” como “Viver para sempre”.

 

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Imagem de Her (2014), de Speke Jonze.

UntitledNão importa se você escolhe ser honesto ou não quando ambas as opções são fictícias. Aliás, face à morte, a liberdade não é nada senão uma ficção. Contudo, é somente por meio desse dilema que poderemos superar o absurdo que é a morte, como explica Flusser: “Face à morte não podemos fingir, e todo esse processo chamado ‘vida’, e seu epifenômeno chamado ‘pensamento’, é portanto fictício. No entanto, com esta afirmativa estamos nos aproximando, quer me parecer, da chave do dilema”. Isso nos leva à conclusão de que a morte é o tema exclusivo da vida, apesar de negá-la, e a vida é o tema exclusivo do pensamento, apesar de também a negar.

A vida faz de conta que é imortal, embora surja da morte, desemboque na vida, e seja permeado por ela. O pensamento faz de conta que é autônomo e ontologicamente primário, embora surja na vida, desemboque na vida, e seja permeado por ela.

Tanto Edgar Morin quanto Vilém Flusser sugerem que humanos são os únicos seres vivos cientes de sua própria morte. “O saber da morte me parece ser o traço distintivo do homem. O que equivale dizer que o homem é um ser irônico”, aponta o último. Abandonamos portanto a nossa animalidade ao nos definirmos como seres pensantes, e assim também negamos a forma como os animais vivem: eternamente, apesar de seus atos serem uma defesa contra a morte (instintos).

Ainda assim, Flusser defende que a vida animal não deixa de ser uma ficção profundamente séria, um teatro triste. Por outro lado, nossa capacidade de pensar acaba nos tornando uma simples paródia desse teatro, conforme desafiamos a morte a partir da ironia. “[O homem] ousa sorrir da vida e da morte. É um ser lúdico, brinca com a vida e com a morte”. E fazemos isso simplesmente ao pensar, o que significa que também acabamos provocando a morte, como se perguntássemos “onde estás, morte?”.

Enquanto que a vida se esconde da morte, tremendo, o pensamento sai em busca da morte, desafiando. É verdade que, se a vida não consegue escapar à morte, tampouco consegue o pensamento encontrá-la. Ambos, a vida e o pensamento, são processos absurdos. São, como disse, fictícios. Fazem de conta que há liberdade em face à morte. Mas o clima de ambos esses processos é radicalmente diferente. O clima da vida é, fundamentalmente, o da angústia, enquanto que o clima do pensamento pode ser, se cultivado, o do sorriso.

Pensamento que desafia

Se, por um lado, o Existencialismo entende o pensamento como um meio de combater a morte, Flusser propõe que este seja um meio de conspirar contra a vida e de revelar a morte. Se a vida é uma mentira que contamos todos os dias, com a finalidade de esquecermos da morte, o pensamento poderia servir como um constante memento mori: lembre-se de que irá morrer e que, por esse mesmo motivo, não deve se esquecer de pensar a respeito. Por isso, não sei se a filosofia, a arte, a ciência e a tecnologia podem ser sempre consideradas uma fuga da morte, mas sim poderiam ser vistas como maneiras de compreendê-la.

Tome Melancholia como exemplo novamente. Diante da inevitável colisão entre o planeta Melancholia e a Terra, o que nos resta? Todos os personagens do filme, mesmo quando não cientes disso, têm sua posição (e caráter) definidos: Justine (Kirsten Dunst) aceita a morte enquanto Claire (Charlotte Gainsbourg) a nega até o final. Ao aceitar a morte, Justine nega a moralidade (casamento, laços familiares etc) e cai em depressão profunda. Ao negar a morte (ou fingir que a nega), Claire reforça todas as convenções sociais e, ainda assim, vê-se miserável.

Apesar de Justine parecer mais honesta, é por meio da desonestidade que Claire enfrenta a (consciência de) morte. No fundo, ela sabe que a destruição da Terra é iminente e inevitável, mas ainda assim não deixa de se recusar a aceitar o destino ao pesquisar sobre o planeta, ao questionar seu marido e ao continuar checando a proximidade do corpo celeste regularmente. No fim das contas, ambas as irmãs acabam na mesma cabana simbólica (a ficção) que Justine costumava montar para fazer seu sobrinho se sentir mais seguro. Ainda que sempre estivesse a par da morte próxima, a personagem não consegue evitar o medo e a angústia durante os últimos segundos que antecedem o impacto – ela, inclusive, participa do ritual ao dar as mãos para o sobrinho e a irmã.

Talvez o planeta Melancholia não fosse uma metáfora da morte e sim da depressão, como já vi interpretarem, mas o filme, para mim, sustenta a ideia da morte como uma força criativa em dois níveis diferentes: como inspiração e como tema. Tanto o enredo gira em torno da morte (Melancholia) quanto a morte gira em torno da criação de um filme que, em última instância, quer desafiar a vida ao revelar a morte.

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Ophelia (1852), de John Everett Millais.

Com isso posto, ainda me resta responder a pergunta “Por que não me mato?”. Talvez eu simplesmente não sinta vontade de fazer isso. Porque, afinal, a morte é o que me mantém viva e o que dá sentido à minha vida. Aliás, essa foi a mesma questão que o filósofo romeno Emil Cioran se fez por anos. Apesar de o suicídio ter sido um importante tema em sua obra, ele ainda assim não se matou. Na verdade, pensar sobre a própria morte era algo que o fazia bem. Em uma entrevista para Fritz Raddatz, em 1996, Cioran afirmou:

Na minha juventude eu vivi todo dia com essa ideia do suicídio. Mas tarde também, e até agora, mas talvez não com a mesma intensidade. E se eu ainda estou viva é graças a essa ideia. Eu só pude suportar a vida graças a ela, ela foi meu suporte: ‘És mestre de tua vida, podes matar-te quando quiseres’, e todas as minhas loucuras, todos meus excessos, foi assim que eu pude suportá-los. E pouco a pouco essa ideia começou a se tornar algo como Deus para um cristão, um apoio; eu tinha um ponto fixo na vida

Por fim, eu ainda poderia listar vários outros exemplos de como a morte serviu de inspiração para outros pensadores e artistas, sem que estes caíssem na armadilha que Flusser chamava de “mutismo” – depressão, torpor, apatia. Mas será que este ensaio não é afinal uma investida metalinguística de qualquer forma? Talvez todas essas tentativas sejam uma prova de que artistas e pensadores nunca realmente aceitaram a morte, mas a negaram a ponto de fazê-la seu tema durante a vida. Como citado por Flusser, Rainer Maria Rilke já defendia: “Der Tod ist gross. Wir sind die seinen lachenden Munds” (A morte é grande. Nós somos suas bocas sorridentes).

OBS: esse ensaio foi escrito originalmente em inglês para o site medium.com/lidiazuin. Contato direto da autora: lidiazuin@gmail.com

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Lidia Zuin – arquivo pessoal