Por uma nova consciência funerária

Por Camila Appel
Hoje o blog traz o depoimento de Rafael Roldan sobre sua opção pela doação do corpo para estudos acadêmicos, no que ele chama de “uma nova consciência funerária”. Para saber mais, veja o post: “Como doar seu corpo”. Outras informações em “O que você quer ser quando morrer”.
 “Minha mãe e eu resolvemos doar nossos corpos porque enxergamos que seria a melhor maneira de contribuir com a sociedade que nos cerca quanto a esse tocante da destinação de defuntos. Sempre pensamos que, se há alguma continuidade da consciência após a morte, seja de que forma isso ocorre, ela não dependerá mais do corpo. Ela não aceitava a hipótese de que não haja continuidade de nenhum tipo, mas eu, sim. Nessa segunda hipótese, mais plausível para cidadãos cosmopolitas do século 21, maior sentido ainda faria não descartar ou simplesmente queimar o corpo.

Acho que enterrar é a pior opção, pois ocupa muito espaço à toa, é lúgubre e poluente. A cremação, a meu ver, viria em segundo lugar, pois embora pareça mais poluente (não há pesquisa científica séria dizendo se é ou não mais poluente do que enterrar), pelo menos não dá o trabalho de todo ano ter que limpar o túmulo da família, além do que já mencionei sobre necrópoles. Meu pai se impunha (e me arrastava junto) a esse tipo de limpeza e digo que não leva a nada melhor do recordar dos entes queridos que se foram no conforto do seu lar. Até mesmo meu pai, que tinha arraigada essa tradição familiar de limpar o túmulo dos antepassados ao menos no Dia de Finados, reconhecia que hoje, com fotos e filmes, nada melhor do que prestar as homenagens aos mortos dentro de casa mesmo.

Isso para não dizer que boa parte dos cemitérios sem espaço para crescer abriga hoje um odioso esquema de comércio ilegal de sepulturas, que sempre são de posse por concessão e não de domínio pleno por escritura de imóvel. Depois de passar os últimos 4 anos e pouco em que perdi nada menos do que 4 pessoas importantíssimas na minha vida, pude constatar também o comércio que gira ao redor do funeral, no qual alguns municípios até mesmo permitem monopólios aviltantes, com custos exorbitantes.

Portanto, enterro e cemitério, para mim, além do óbvio conteúdo sofrido da morte, além da desconcertante ocupação de largos espaços de terra com poluição do solo e da água, representam mais uma área em que a corrupção e a injustiça grassam.

Não me venham falar que os cemitérios não poluem, pois recentemente fiz a exumação de corpos no túmulo da família e, ademais de perceber como são insalubres os restos mortais, ouvi relatos de arrepiar dos coveiros e sepultadores que fizeram o serviço. Um deles até já parou em UTI com uma infecção poderosa por ter respirado o ar tumular, chegando a ser entubado e quase perdendo a vida, pois não lhes era fornecido nenhum tipo de EPI (equipamento de proteção individual, como luvas e máscaras) até alguns poucos anos atrás…

Tenho tentado convencer pessoas a doarem seus corpos para pesquisa em instituições universitárias. Escuto diversos absurdos como justificativa, desde o simples apego ao corpo – ao qual a pessoa não sabe o que responder quando a confronto dizendo que a sua consciência já não mais estará ali – até às teorias conspiratórias as mais estapafúrdias, como a de que muitos corpos já são doados às faculdades, sendo até subaproveitados (essa vinda de uma pessoa que dizia que não se declarava doadora de órgãos por medo de sequer chegar viva a um hospital caso sofresse um acidente)…

Há aqueles que usam e abusam das justificativas religiosas, como o Juízo Final e outras lendas, mas se algumas destas parar para pensar e pesquisar, verá que isso não se sustenta nem mesmo teologicamente falando. Afinal, mesmo os corpos mais preservados não permanecem os mesmos, que dirá da maioria. Isso é resquício de primitivismo, que levou tantos povos às técnicas de mumificação. Pelo que vemos do Antigo Egito, se os faraós ainda estão esperando Amon-Ra ressuscitá-los, que dirá então aquele que espera segundas-vindas e outras promessas simbólicas contidas nas religiões ainda vivas hoje.

Na exumação de meus parentes, só restaram ossos e pedaços que não vão seguramente ressurgir num mítico final dos tempos. Fico a me perguntar o que seria das pessoas que morrem afogadas no fundo do mar, das que são devoradas por animais selvagens ou das que terminam seus dias num incêndio. Para essas, não haveria igualdade de oportunidades só porque não foram enterradas?! Ou estaria Deus abrindo exceção para elas? Acho tudo isto absurdo, principalmente nos tempos em que vivemos, nos quais inevitavelmente nos deparamos com diversas religiões e, quando chega o assunto morte, nenhuma delas têm a palavra final. Suas hipóteses são, muitas vezes, completamente díspares. Por isso, não consegui chegar a outra conclusão senão a de tornar meu corpo útil para depois da minha morte, doando o mesmo para alguma universidade que faça bom uso dele.

Ah, claro, para aqueles que dizem que a medicina é só para os ricos e, por isso, não vão doar seu corpo para ajudar quem não precisa, eu só tenho a dizer que isto é outra bobagem. Essa posição ignora que, embora os avanços da medicina ainda não estejam acessíveis a todos igualmente, a cada dia avançamos mais nesse sentido. Isso depende mais de política e boa vontade do que de ciência.  Eu é que não vou deixar meu corpo apodrecer!

Teologicamente, doar o corpo para uma faculdade não impede um funeral com toda a liturgia possível (só que, ao invés de enterrar, ele fica à disposição da ciência) e o corpo fica até mais conservado para um hipotético (porém improbabilíssimo) momento de mortos se levantando no Juízo Final.

Tanto faz se há ou não continuidade da consciência após a morte, pois espiritualmente tudo se resume ao aqui-agora. Todas as religiões se resumem a essa vida aqui, pois por mais que falem de alguma continuidade, sempre fica claro que ela depende totalmente de como nos portamos nesta própria vida.

Isso porque se existir paraíso, reencarnação, renascimento ou outras propostas de continuidade, esta vida – nossa única certeza – é a soma de tudo que passou e o fator determinante para tudo que virá. Se não houver nenhum tipo de existência após o fim do corpo, mais ainda importa esta vida!

Isso não num sentido hedonista, mas sim de nos enxergarmos como meras e diminutas peças num esquema maior que é a civilização humana e a vida em geral. Uma coisa é certa: se houver algum tipo de experiência post mortem, essa não será com a personalidade atual que temos – outra ilusão, pois na verdade, nossa psique não passa de uma mutação constante, uma dança de elementos – mas sim com outro tipo de experiência de identidade, já que nossa identidade como seres humanos é formada em sua maior medida pelo nosso referencial maior que é o corpo e sua história genética e cultural”.