De frente para o sol

Por Camila Appel

Durante minha licença-maternidade, abri o blog para depoimentos de leitores. Os interessados em ler artigos já publicados, por favor pesquisem nas abas laterais. Há cem posts disponíveis, separados por temas. Ou entrem na página do Facebook do blog. Para enviar seu depoimento, escreva para mortesemtabu@gmail.com.

Um abraço, Camila

Segue o depoimento de Rubia Sammarco Leuenroth, 37 anos. Rubia escolheu o título “De frente para o sol”, inspirada no livro de Irvin Yalow. Ela diz acreditar que esta é a definição mais singela do que é o luto, “afinal, quem consegue ficar de olhos abertos, sem piscar, encarando o astro-rei? Pois creio que deveríamos entender este tempo como um aprendizado para olhar ´de frente para o sol´”.

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pôr-do-sol visto da estação espacial internacional da Nasa. Foto escolhida por Rubia, que ofereceu seu depoimento ao blog

 

“Acompanhei a partida de duas grandes amigas de vida: uma desde infância, fase de alfabetização e de quem nunca me afastei; a outra, de faculdade, e de quem também sempre estive perto. Eram duas irmãs de alma, sim. Em um arco de dois anos, as duas saíram do meu convívio e partiram para o outro lado. No caso da primeira, foi meu primeiro choque. Não dava pra acreditar que, em dois anos, saiu do corpo de uma moça para uma mulher tão sabida, tão serena e tão ciente de sua finitude. A religiosidade, a serenidade e o autoconhecimento que afloraram assim que ela descobriu o câncer inoperável no cérebro emocionaram todos os conhecidos.
Foi em um 4 de julho. Convulsão. Exames. Câncer inoperável no cérebro. Um golpe e tanto para quem tinha planos de vida. Muita vida. No ano seguinte, ela se casaria e sairia da casa dos pais. No mês anterior, ela havia mudado de emprego. Em julho, ela ganhou uma passagem para o estrangeiro. E em dois anos se foi. Do meu lado, venci todos meus medos. Enfrentei com (e sem também) coragem o maior medo, aquele que mais assolava minha vida até então – 36 anos. Em nome do amor de amiga, deixei todos os temores de lado e segui ao lado dela, pois sabíamos muito bem que o tempo dela nesta Terra seria bem curto. Ela passou por muita coisa neste período, e eu testemunhei de perto a dor da descoberta e a serenidade subsequente que aflorou do momento. Ela sabia que morreria e ficou muito bem com isso. Falou, inclusive, em um de nossos tantos encontros ao longo destes dois anos que “a morte não é mais um grande tabu para mim”. Uma frase forte e muito marcante pra mim. Um divisor de águas, por que não?
Na verdade, a morte nunca deveria ser temida ou considerada maior do que o é. Temos duas certezas na vida, nascer e morrer. Deveríamos cuidar melhor do que fazemos neste entretempo.
No caso da segunda amiga, desde a tenra infância, ela foi subtraída de minha vida em praticamente 10 dias. Desde que saímos do colégio, estávamos juntas. Ela testemunhou todos os momentos, mais ou menos gloriosos, de minha vida. Ela sempre estava lá, e eu no lá dela. Em meu aniversário de 2015, ela me deu uma pulseira Life com cinco pingentes bem significativos: dois muranos marrons, uma árvore da vida, o divino espírito santo e um trevo de quatro folhas. Ela sempre foi muito generosa com presentes, o fato que salta aos olhos não é o valor monetário, mas o significado muito forte de todos estes símbolos que ela me entregou sem sequer imaginarmos que seria o último. E eu amo a pulseira, é minha cara e vive comigo. Meu aniversário é em agosto. Em novembro, viajamos com uma turma do colégio (que segue unida desde então, com alguns hiatos, mas unida sempre) para o casamento de um deles em Minas Gerais. Dançamos funk, ela ficou até tarde, conversamos muito sobre um assunto denso. Na volta, ela me manda um e-mail muito carinhoso e também com objetividades acerca do tema. Seria o último mais denso, e a gente não imaginava. Em dezembro, o tradicional “amigo-secreto-ladrão” da turma na pizzaria de sempre. Em janeiro, umas conversas via mensagem. Em fevereiro, um telefonema da irmã dela. Foram dez dias de muitos encontros de todos nós, a turma, com ela. Algumas conversas. Ela passando mal com o também câncer sem solução. Em 03 de março, o enterro. Foi inacreditável. Não parece real até hoje, mais de dez dias depois.
Ainda estou digerindo este luto, mas atravessei tudo de uma forma mais serena desta vez. Entre estas duas partidas, mergulhei no Espiritismo. Estudei. Li. Acolhi. Fui acolhida. Entendi os tempos da vida, a hora da partida. Temos um tempo aqui. A casa ficou pronta, partimos. A maternidade, que começou em minha vida por meio do Fernando há 3 anos, iniciou todo este processo de reconexão com o fluxo e o tempo da vida. Tudo junto, vida e morte. Estou aqui, viva, firme e forte. E, neste exato momento, com saudade e ainda meio sem entender esta partida repentina, mas respeitando meu luto e o luto dos outros. Melhor assim, os dois tempos são justos e são da vida”.
Rubia disponibilizou seu e-mail para contato: rubiasammarco@yahoo.com.br