Um depoimento sobre aborto espontâneo

Por Camila Appel

O depoimento abaixo foi enviado por Odete dos Santos. Odete é uma das fundadoras do grupo “Unidas Pela Dor” – grupo de apoio a mães que sofreram um aborto espontâneo, fundado em 2002. E escritora do blog “Perdi meu bebê, e agora?“.  Um abraço, Camila

“Ao se deparar com seu corpo ensanguentado, a mulher grávida se depara, na maioria das vezes, com a perda gestacional – nome mais aceitável para o aborto espontâneo.

A dor nunca é física, a dor é no coração.

Todo o desejo, amor, carinho e felicidade se desfaz naquele mar de sangue, às vezes nem tão intenso.

A alma dói e o sentimento principal é de revolta. Surgem então os questionamentos, por quê?

O que eu fiz? Por que comigo? O que aconteceu com meu filho?

As respostas sempre são evasivas, não correspondem ao que realmente se quer saber.

Mas ainda tem a pior parte.

É verdade, há ainda a pior parte.

Quando te perguntam, sem saber o que aconteceu: que barriga pequena, já nasceu?

Ou quando sabem e dizem: Logo você engravida novamente. Foi vontade de Deus. Deus sabe o que faz. Melhor assim, o bebê poderia ter problemas. Ah, esta é a pior de todas, como dói ouvir isto.

Na perda gestacional, o que a mulher precisa é:

Carinho, todo tipo de carinho.

Um abraço bem apertado.

Ouvidos dispostos a ouvir.

Uma sopa quentinha.

Alguém que chore junto. Só isso.

E importante: deixe-a viver o luto, pode ser por um dia, um mês, um ano, mas viver o luto é importante, chorar, caminhar sozinha…

Nunca faça visitas com um bebê ou criança junto, por mais que a mulher ame esta criança, o efeito será contrário e devastador.

O silêncio é tudo neste momento.

E médicos: não chamem o filho perdido de “restos gestacionais”.

Respeitem a mulher que sofre a perda gestacional”. Odete dos Santos, engenheira civil. Mãe de um lindo menino de 10 anos e que sofreu duas perdas gestacionais, aos 2 meses de gravidez e também sofreu a perda da gêmea de seu filho aos 20 dias de vida dentro de uma UTI Neonatal.

Leia mais no blog

Mitos e verdades sobre o aborto espontâneo

Observação:

Durante minha licença-maternidade, abri o blog para depoimentos de leitores. Os interessados em ler os artigos já publicados, por favor pesquisem nas abas laterais. Há cem posts disponíveis, separados por temas. Ou entrem na página do Facebook do blog. Para enviar seu depoimento, escreva para mortesemtabu@gmail.com 

Um abraço, Camila