Violência de gênero na morte

Por Camila Appel

O post de hoje toca num tema ainda não explorado pelo blog: machismo na morte. O depoimento de Thaís Tannús nos chama a atenção para essa questão. Ela relata a experiência, junto com sua irmã, em lidar com a morte da mãe. “Com a vida mais sob controle, comecei a pensar como teria sido toda a situação se uma de nós fosse homem – ou mesmo casada – e a visualizar cenários bem diferentes para alguns absurdos vividos, o que me trouxe a certeza de que infelizmente vivemos numa sociedade machista do nascimento à morte”.

Thaís é mineira, geógrafa e trabalha com sustentabilidade. Diz procurar “trazer e fazer mudanças que podem mudar o mundo”. Escreve e fotografa nas horas vagas. Segue seu depoimento.

Envie seu depoimento para mortesemtabu@gmail.com. Para ler sobre outros assuntos, pesquise nas abas laterais. Há mais de cem artigos e pesquisas, separados por temas.

“Herdeiras Diretas: questões sobre empoderamento feminino na morte e uso de imagem

Por Thaís Tannús

Minha mãe faleceu subitamente antes dos 50 anos e deixou para trás duas filhas, uma casa enroscada em um divórcio complicado há mais de uma década e uma família que, apesar de amorosa, não é nem de perto uma releitura de comercial de peru de natal.

Além disso, deixou sonhos não realizados, conselhos a serem lembrados e um desamparo na minha vida e na da minha irmã que ninguém, além de nós duas, é capaz de compreender, muito menos de tentar preencher.

Embora sejamos nós que absorvemos com maior intensidade o impacto da morte e a ausência diária dela em nossas vidas, não faltaram pessoas que, apesar nem tão próximas, começaram a encher redes sociais, com pedidos de amizade, fotos, vídeos de homenagens com músicas que ela nem mesmo gostava; e uma competição velada de quem sente mais falta dela. E mesmo considerando “natural” estas expressões em um primeiro momento, elas eventualmente começaram a nos incomodar.

Além disso, desde o início temos sido alvo de julgamentos e pré-conceitos de (uma suposta) nossa condição frágil como mulheres com menos de 25 anos, o que para essas pessoas culminaria na nossa incapacidade de lidar com tarefas cotidianas, de conduzir um processo legal de inventário, da “necessidade” de alguém para cuidar da gente – traduzida na urgência de resgatar uma figura paterna ausente há mais de 10 anos. Até uma reunião sobre como seriam as nossas vidas foi realizada – sem a nossa presença, diga-se de passagem – onde foram discutidas questões como: vão morar com o pai ou com a avó, os cachorros terão que ser doados, a irmã caçula terá que voltar para a cidade ou não, elas tem que retomar a amizade com as pessoas da igreja, próximos passos do meu namoro etc.

Hoje, há dois anos vivendo este cenário, vejo com clareza essa violência oculta de gênero também na morte. Violência tal, que de certa forma, me privou de viver, após o susto naqueles primeiros dias, o luto e entender o que estava acontecendo da maneira como eu gostaria ou tinha o direito de viver para tomar a rédeas da situação.  Vi nisso um objetivo imediato, inclusive para honrar a vida da minha mãe, que foi um exemplo de mulher empoderada, que me ensinou justamente que ser menina não significava ser menos capaz, nem ser dependente de ninguém e nem ser o sexo frágil.

Mas ao definir limites, assumir o meu papel como herdeira legal e gestora dos procedimentos pós-morte da minha mãe e mesmo ao contratar um advogado para orientação das questões legais, ainda fui acusada de ser individualista, controladora e mesmo de gananciosa por achar necessário abrir questões relacionadas a bens e finanças, ou por procurar ajuda legal.

Com a vida mais sob controle, comecei a pensar como teria sido toda a situação se uma de nós fosse homem – ou mesmo casada – e a visualizar cenários bem diferentes para alguns absurdos vividos, o que me trouxe a certeza de que infelizmente vivemos numa sociedade machista do nascimento à morte.
E me questiono ainda hoje o que eu poderia ter feito diferente? Ou melhor, como os outros poderiam ter agido diferente? Por mais que para quem esteja de fora as coisas não sejam tão sérias, ou para quem nunca passou por situações semelhantes não consiga entender que na morte, você acaba conhecendo o lado mais generoso e também os mais obscuros dos que estão à sua volta.

Pergunto-me, ainda, como deixar um legado transformador na minha própria morte para as minhas futuras herdeiras? Como eu poderia ajudar outras meninas e suas irmãs que passam por situações semelhantes, ou mesmo piores, devido à condições socioeconômicas mais desafiantes? Como eliminar violência de gênero na morte, inclusive em relação a quem morreu (comentários como “a separação foi difícil” ou “tadinha, ela não casou de novo” foram relativamente comuns no velório da minha mãe)?

Sobre a superexposição em redes sociais, eu e a minha irmã começamos a nos perguntar como ficam as questões de uso do nome e imagem da pessoa comum – não aquelas que cobram copyrights ou deixam testamentos, após a morte? Da mesma forma como alguns pais hoje pedem para não expor seus recém nascidos nas redes sociais, podemos também fazer o mesmo pedido ou após a morte a imagem se torna pública? E ao fazê-lo, como não ferir os sentimentos e intenção daqueles que à sua maneira estão fazendo uma homenagem? Como transmitir a mesma mensagem à aqueles que por alguma proximidade genética ou civil se acham herdeiros deste direito de imagem tanto quanto as herdeiras diretas de fato, inclusive legais? Ao fazer tal pedido, também devo me privar de expor alguma foto ou lembrança, para não ferir aqueles que pedimos para não compartilhar, e correr o risco de ser hipócrita?

Várias dessas questões ainda atormentam a minha mente em madrugadas de insônia como esta, e para muitas ainda não tenho resposta. Mas após o convite à colaboração para o blog, me perguntei muito o que deveria escrever, e elegi estes temas como contribuição de quem está vivendo o luto e pensando em questões relacionadas à morte diariamente, na esperança de ao conversar mais sobre ela, a morte deixe de ser um assunto tabu e possa contribuir com outras discussões transversais e com outras pessoas vivendo situações semelhantes”.

Contato da Thaís: thaistannus@gmail.com