Leitor escreve sobre ter previsto a morte do pai

Por Camila Appel

Professor Trindade enviou um depoimento sobre um sonho premonitório que teve aos cinco anos, com a morte de seu pai. João Trindade é jornalista, advogado e professor universitário. Nasceu em Piancó, na Paraíba e hoje mora na capital do estado, João Pessoa.

Depoimento: Lembranças da morte

Por João Trindade

“Foi sinistro aquele 17 de janeiro de 1963. Com apenas cinco anos de idade, acordei assustado; sonhara que uma mulher matara meu pai. Eu nunca houvera visto um revólver antes, mas era nítida a visão da mulher, de revólver em punho, e meu pai caindo na cama.

Acordei assustado. Chamei meu pai e minha mãe e lhes contei o sonho. Meu pai, com o orgulho e o machismo peculiares do sertanejo, limitou-se a dizer: “Deixe de besteira, meu filho; nem um homem não me mata, quanto mais uma mulher!”. E saiu para a roça, não sem antes pedir à minha mãe que ficasse comigoaté que eu adormecesse que eu estava assustado.

Minha mãe estava fazendo o café na sala de jantar, quando, mais uma vez assustado, agarrei-me às pernas dela e afirmei, chorando: “Sonhei que uma mulher matava meu pai”.

Nove horas da manhã do mesmo dia. Um emissário vem avisar que meu pai está “muito doente”. Na roça. Minha mãe, desesperada, já prenuncia: “Vocês estão me enganado; Zé Trindade já morreu”. Lembro-me, então, da carreira que demos para a roça: eu, mamãe e Francisco, um irmão mais velho que eu. Quando chegamos no Zoiti*, o povo já vinha em fileiras, lá da roça, como se fosse uma procissão. Sapecado (um “doidinho” conhecido na cidade), desavisado, vinha falando alto: “Mataram”. “Mataram quem, meu filho?”. “Nada, não; um galo. A gente estava vendo uma briga de galo”. A partir daí, minha mãe disparou no choro. Estávamos, então, próximos da casa onde meu pai, já sem vida, recebia a visita dos inúmeros amigos que tinha na cidade.

Como tirar a lembrança desse dia da minha cabeça? Como me livrar, sobretudo, da fatalidade de haver previsto a morte de meu pai? Ele não foi assassinado, segundo a versão oficial, mas morrer no mesmo dia, namesma manhã da minha previsão?… Fico me perguntando como uma criança de apenas cinco anos teria tido um sonho assim. E a mulher? Seria uma metáfora da morte?

Eu não sabia o que era morte. Tanto que só fui sentir mesmo a morte do meu pai quando alguém, incauto na minha visão, colocou-me bem à beira da sepultura e eu vi jogarem pedras por sobre o caixão. Um barulho terrível de pedras e terra ecoava, na hora final do enterro. Foi aí que eu chorei. Compreendi, ali, que meu pai não voltaria mais. Na minha inocência, não entendia por que estavam jogando terra no meu pai.

No mesmo dia do enterro, meu pai me apareceu no banheiro. E não foi uma aparição rápida. Ele me olhava como se me quisesse dizer algo. Seu olhar pedia que eu lhe escutasse. Era fim de tarde. Como tinha “medo de alma”, corri com medo do meu próprio pai. Quando contei, ofegante, o caso à minha irmã Auxiliadora, ela me incriminou, pelo fato de eu não haver falado com ele.

* Zoiti é uma área aberta, entre a casa onde morávamos e o rio a que se refere a crônica. É uma localidade em que, na época, havia muitos pés de Oiti, um tipo de árvore conhecida no nordeste brasileiro. É um campo aberto que abriga, ainda hoje, a primeira igreja da cidade. Funcionava como uma espécie de “parque” ao ar livre. O Zoiti ficava vizinho à roça do meu pai, que, por sua vez, ficava à margem do Rio Piancó . Piancó é a cidade em que nasci”.

Atualização às 16h: perguntei a João Trindade qual foi a causa da morte de seu pai. Segue a resposta: “Oficialmente, morreu de um colapso.Só que eu, depois de grande, comecei a duvidar de tal história, por causa de alguns dados. Conto-lhe: Quando chegamos à roça, contaram a seguinte história à minha mãe (ela me contou): Papai estava cavando cova de milho com um morador dele (que morava na casinha onde papai foi acolhido, e na qual estava o corpo, já na cama) e resolveram apostar quem cavava mais, em menos tempo.Passado algum tempo, o companheiro se sentiu mal e chamou papai para tomarem um chá. Tomaram (a mulher do morador fez chá para os dois). Ocorre que, ao voltarem a trabalhar, após tomarem o “bendito” chá, meu pai caiu morto. Já adulto, comecei a desconfiar de tal história. Tenho guardado comigo e atestado de óbito de papai e ele não está assinado por médico (o único médico da cidade estava fora). De modo que tenho dúvida acerca da verdadeira causa da morte. Oficialmente, foi colapso. Para mim, não está bem esclarecida”.

Contato: professortrindade1@hotmail.com

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