Hatsune Miku: uma cantora nem viva, nem morta

Por Camila Appel

Ela tem 16 anos, faz aniversário em 31 de agosto, cabelos azul turquesa, voz estridente, e com suas 170 mil músicas no repertório, anunciou sua primeira turnê pelos Estados Unidos. Os fãs gritam seu nome, Hatsune Miku, esperando a garota aparecer no palco.

Só que Hatsune não existe. Pelo menos não de carne e osso. Ela não está viva, nem morta. Ela é uma ideia transformada em pixels, um holograma, a materialização do que seus organizadores chamam de “um guia turístico para o futuro”. Ela é, basicamente, uma cantora virtual de movimentos e voz reproduzidos por um programa de computador.

Até aí não há tanta novidade em Hatsune. A banda virtual Gorilazz fazia sucesso lá em 1998 e, vira e mexe, vemos shows com hologramas de ídolos mortos, como Elvis Presley e Michael Jackson. Tá aí uma área da tecnologia que me parece pouco explorada. Eu iria em um show de Elvis hoje mesmo. Para relembrar seus movimentos, sua voz, chegar em casa e publicar no Facebook: Elvis não morreu! Com uma foto minha sorridente e uma cara meio ridícula na frente do ídolo de pixels.

Mas a novidade de Hatsune, e onde me parece estar seu enorme sucesso, é ir além de ser apenas um holograma. A inovação é se apresentar como uma espécie de projeto coletivo. Seu repertório é composto por músicas escritas por fãs que as cantam utilizando um software chamado vocaloid. Esse programa modifica a voz de qualquer um para imitar a de Hatsune, ou a de outro cantor virtual do programa. Imagino que esse fã vá a um show esperando que, em algum momento, ouvirá sua música cantada por mil pessoas. Ele vê um pedaço de si sendo aplaudido, idolatrado.

Hatsune é mais um espaço para a inclusão, para que possamos nos sentir parte de um grupo, ganhar curtidas, joinhas. Essa é a sacada das novas tecnologias que conseguem grande aderência, como o Facebook e o Instagram. Elas apostam no nosso desejo de sermos valorizados pelo que pensamos, pelo que criamos.

Nesse sentido, é paradoxal dizermos que as redes sociais isolam os seres humanos. Cada vez mais temos a oportunidade de nos colocarmos, comentando artigos, xingando ou elogiando. E também de criarmos, produzindo conteúdo de forma independente. Podemos ser fotógrafos – e divulgar fotos lindas no Instagram, escritores – compondo textos opinativos, os famosos textões, ou poemas, crônicas da vida… E, agora com Hatsune, podemos ser músicos.

Hatsune Miku (e toda sua “espécie”) redesenha nosso conceito do que é estar vivo. É idolatrada como uma pessoa real, ou talvez algo próximo disso. Mas impacta seu público como se de fato existisse. Ela vive de aplausos, sem eles ela morre, desaparece. Seu nome significa “som do futuro”, e ele parece estar certo. É um dos muitos sons do futuro.