A um querido moribundo

Por Camila Appel

Imagino que haja pouco movimento no seu quarto da UTI. Além de um bipe em ritmo, bipe, bipe, bipe, marcando um compasso melancólico. O som das máquinas pode lembrar a introdução de um tango sofrido.  Todo tango é uma despedida. Como esse bipe do quarto que pode ser sua morada final. Tenho a impressão de que você vê música em tudo, não por já ter te ouvido cantar (na verdade, nunca ouvi), mas pelo seu talento com a estética das flores e onde consolidou uma profissão. Conhecido por todos como o jardineiro seu Bruno.

Seu corpo alto e magro de 80 anos está estendido numa cama robótica, vestido com um avental verde. Você detestaria essa roupa se pudesse ver. Mas não pode porque teve um AVC hemorrágico e ainda não acordou. É provável que não acorde mais. Os médicos falaram para sua família ter pouca esperança, o estado que era crítico agora foi piorado por outros problemas e você foi de grave para gravíssimo.

Quem passa despercebido pelo seu quarto não imagina quem está ali na inércia de um fim. Suponho um residente, um jovem médico atualizando prontuários, esperando a hora de anotar um atestado de óbito. Eu chegaria ao lado dele e falaria: não se engane menino, este aí é o seu Bruno, um touro-homem de se admirar. Quase um minotauro numa versão fofa. Ontem mesmo estava em cima de casa, trocando telhas. Antes de ontem estava no Ceagesp comprando flores. Suas melhores amigas são as flores. Ele chega no serviço às 6 da manhã para acariciar as plantas junto ao primeiro toque do sol. Ele fala engraçado, todo mundo sabia. Porque ele é polonês. Com 1.80m, seu Bruno se enfia na terra de calça social, cinto, camisa e chapéu na cabeça. Minha mãe o chama de Gepeto. Mãos e pés engrossados pelo tempo de um jardineiro por escolha.

E eu alertaria o residente: não se apresse em descartá-lo para rodar o leito, porque seu Bruno é agarrado à vida. Nascido como Bronislau e apelidado de Bruno, ele é daquela geração que veio parar no Brasil fugindo de uma guerra. É um sobrevivente. Cicatrizes não faltam, nem por dentro nem por fora. Já enterrou um filho, morto por dengue. E dá uma em quem o desafie. Foi jurado de morte no seu bairro por ter reagido a um assalto. Um moleque pediu para o velho passar a carteira e ganhou uma porrada. O corpo duro e forte, de passos pesados e palavras dóceis – não perde a oportunidade de um elogio à mulherada. Fala o que pensa. Se pudesse falar agora, menino, te diria para deixá-lo sair porque tem que trabalhar.

Pessoas como seu Bruno são cada vez mais raras, eu diria ao residente. São pessoas que amam o que fazem. Não esperam para viver enquanto não estão trabalhando. Fazem do hobbie, seu ofício. Ao invés de se dedicar ao que amam somente nas horas vagas, se ocupam daquilo que amam. São adultos-crianças, brincam consigo mesmas, se permitem o prazer da vida. Fazem todo um universo surgir de dentro de um grão de terra. Porque o universo todo está nelas. Não é egocentrismo, é só a consciência de que somos natureza.

E eu diria para o residente, não se iluda, pois esse velhinho tem uma história de vida incrível. Como todos os velhinhos pacientes desse hospital, eles enganam a todos que passam. Vemos trapos de gente se desmilinguindo, enquanto são, na verdade, majestades. Grandes ondas de um oceano agitado, cansadas da viagem até a praia, prestes a passar do estado carne e osso para o estado imagem e lembrança. Como a imagem que tenho de você, ajoelhado aos pés da árvore, na alvorada. Fazendo carinho para ela “crescer melhor”. Viramos contos, eternizados nas lendas de família, uma fotografia fincada no coração, na memória de quem fica.