Enganando a morte

Por Camila Appel

Capa da revista “The Economist” dessa semana traz a frase: “Cheating death” (enganando a morte). O artigo se refere a descobertas científicas que podem desacelerar o envelhecimento. Nas décadas passadas, a expectativa média de vida da população aumentou devido a melhorias na alimentação, saúde pública, medicação e habitação. Agora, essa expectativa continuará crescendo devido ao uso de determinados remédios antienvelhecimento. Alguns, inclusive, já existem.

Em breve, não será apenas a expectativa média de vida que irá aumentar, mas sim a expectativa máxima. Poderemos viver mais. Partes do corpo já desgastadas serão substituídas por novas partes desenvolvidas a partir da célula da própria pessoa.Técnicas de edição de genes também serão possíveis, já que é sabido que algumas características de certos genes podem nos fazer viver mais.

O artigo toca num ponto importante: do ponto de vista do indivíduo, viver mais é muito bom. Mas do ponto de vista da sociedade, pode trazer desafios e não ser tão bom assim, ao exacerbar problemas econômicos e sociais já existentes.

Como, por exemplo, na área da saúde pública. Se viver mais é caro, como definir quem terá acesso ao tratamento antienvelhecimento primeiro? Como serão mais acessíveis aos mais ricos, aumentará anda mais a desigualdade social de democracias que já sofrem com essa realidade?

O artigo coloca outras questões a serem pensadas: os trabalhadores mais velhos sofrerão discriminação como ocorre hoje em dia? Os chefes vão continuar suas carreiras por mais tempo ou vão cansar ou decidirão fazer algo completamente diferente? Os velhos vão manter uma atitude mental e física jovial ou a sociedade vai ficar mais conservadora (porque os velhos tendem a ser mais conservadores)?

Há a possibilidade da vida tornar-se cheia de novos recomeços, ao invés de ser apenas uma única história. Esse ponto é meu predileto e aí o aumento da longevidade me anima. Gosto da expectativa de recomeçar várias vezes ao longo de uma vida, testar diversas profissões, estudar várias áreas do conhecimento, nos especializarmos em diferentes assuntos nas várias fases.

No lado econômico, a política de aposentadoria precisaria ser reformulada. E a família? Haveria uma tendência ainda maior de termos mais de um “grande parceiro” na vida. Os filmes poderiam começar a refletir a busca de algumas almas gêmeas ao invés de uma.

O artigo em questão cogita um futuro no qual as famílias se assemelhariam a labirintos. Com a ajuda da tecnologia, poderíamos reproduzir por muito mais tempo e, assim, termos filhos com diversos parceiros.

E toca num ponto muito falado aqui blog : focar em qualidade de vida e não apenas em quantidade, para não correr o perigo de acabar igual ao tadinho do Títono – aquele que pediu vida eterna aos deuses mas esqueceu de pedir também a eterna juventude.

Se órgãos forem realmente substituídos por novos órgãos desenvolvidos do zero a partir de nossas células, ou mesmo impressos em tecnologia 3D, eu acho que a mente será um desafio sem soluções no horizonte.  Como substituir o cérebro? Um remédio poderia tornar nossos neurônios atletas olímpicos? Mas e nossa capacidade de armazenar memórias?

Outro artigo dessa mesma edição da revista,  menciona tratamentos com restrição de caloria. Em animais, experimentos com esse tipo de restrição diminuiu o risco de câncer e doença do coração, por desacelerar a degeneração dos nervos.

Esse tratamento ainda não foi clinicamente comprovado em humanos, mas sugere que o envelhecimento não é apenas um acúmulo de defeitos, e sim um fenômeno por si só, que está sob o controle de genes e do ambiente. Dessa forma, poderia ser manipulado, seja por mudanças no ambiente (como a dieta de restrição de calorias) ou acessando os caminhos metabólicos dos genes via remédios.

Esse tipo de manipulação (focando no envelhecimento como um processo) poderia aumentar a quantidade e qualidade de vida de forma que os remédios focados em doenças específicas não conseguiriam.

Hoje em dia, as agências reguladoras não permitem drogas antienvelhecimento. Me incomoda a abordagem de ver o envelhecimento como uma doença a ser curada. Me parece uma visão distorcida e cheia de preconceitos, mas é justamente o ponto do artigo da “The Economist”: “Se os reguladores mudarem seu posicionamento, o interesse seria imenso. Uma condição que afeta a todos é o maior mercado potencial que se possa imaginar”. Há indícios de que essa proibição deva ser modificada em breve e drogas anti-idade sejam aprovadas.

O interesse mercadológico tem crescido com descobertas sobre biologia celular, funcionamento de genes e análise de dados de sequências do genoma humano, demonstrando como o envelhecimento ocorre e como pode ser restringido.

Pesquisa no Human Longetivity Inc, por exemplo, descobriu que algumas variações genéticas são ausentes em pessoas mais velhas. O que implica que sua presença pode gerar expectativas de vida mais curtas.

Um tratamento de regeneração que vem sendo estudado é o rejuvenimento de animais com o uso do sangue de animais mais novos – há pesquisas com infusões do plasma de sangues mais novos para tratar Alzheimer (ainda sem resultados conclusivos).

O artigo coloca o limite máximo que poderíamos viver, com o uso de tratamentos e drogas, em 120 anos, “porque parece ser mais ou menos o limite superior natural de uma expectativa de vida humana”.

Um artigo da revista “Time” não concordaria com esse número, pois já publicou uma capa com uma bebê e a manchete: “Esse bebê poderia viver até os 142 anos” (leia post sobre essa edição nesse link).

No velhice da geração que está nascendo agora, teremos sim limites “mas ninguém pode adivinhar quais serão esses limites”, conclui o autor.

Sobre esse assunto, recebi uma carta do leitor Fabio Storino. Reproduzo uma parte aqui: “Penso muito sobre essa questão do “viver para sempre”, que me vem à cabeça quando converso com meu filho Tom (3 anos e 8 meses) sobre a morte. E sempre chego à conclusão de que isso seria péssimo para a humanidade. Além da questão de sustentabilidade econômica e ambiental, tem outra que me pega muito: hábitos e práticas demorariam muito mais para mudar. Muita coisa avança na sociedade “um funeral de cada vez”, com a chegada de novas gerações, novas ideias, novos paradigmas. Olhando para uma foto instantânea da nossa sociedade é muito fácil ver como as múltiplas gerações que convivem hoje carregam, cada uma, alguns valores e hábitos muito próprios. Às vezes a sociedade como um todo muda, mas, muitas outras vezes, velhos hábitos vão sendo enterrados junto com as pessoas e novas mentalidades dependem de novas mentes. Tenho meus momentos de “get off my lawn, you punks!”, mas também tenho um profundo otimismo quando vejo parte da velha turma “saindo” e a turma nova que está chegando! Acho esse ciclo fundamental para a sociedade”.

Quer ler mais sobre o assunto? Clique em “envelhecimento” na aba lateral do blog. Para saber mais sobre cuidados médicos no final da vida, olhe em “cuidados paliativos”. Curioso sobre como funciona o setor funerário? Vá em “bastidores da morte”.