Quando os heróis morrem – A morte de Domingos Montagner

Por Camila Appel

Mortes emblemáticas como a de Domingos Montagner nos mostram que a morte não fala a nossa língua, ela não é ocidentalizada e não racionaliza. Ela é animal, instintiva, não se domestica. Ela é capaz de deixar um movimento no ar, uma fala inacabada, um bolo por comer, um beijo por dar, uma frase sem fim, um projeto de vida no rascunho. Ela é capaz de interromper uma declaração de amor, de abandonar crianças e bebês. Ela não tem características que demandamos de um mundo civilizado, ela não respeita, ela não tolera, ela não é razoável.

Daí nosso choque. Esperamos que ela simplesmente não aconteça para um homem jovem e robusto, no auge da sua carreira, com três filhos pequenos, talentoso e elogiado como amigo e profissional, um protagonista, um herói, um homem de bem que foi dar um simples mergulho no rio.

Esse mergulho traz um contexto que aprofunda ainda mais nosso choque. Quem sobe em pedras e mergulha em rios? Crianças de férias, crianças sem maldade, aproveitando a vida. Domingos estava em um momento de pleno gozo infantil, foi pego desprevenido em sua ingenuidade. Aí questionamos de novo. Como a morte não respeitou isso? Não, ela não viu, porque ela não vê, ela não escuta, ela não é ela. Não é um dramaturgo que escolhe o momento do ponto final e transforma esse final em desfecho.

A morte de Domingos deixa um universo em stand by. Aguardamos. É a espera pela digestão do acontecimento. Lemos notícias, compartilhamos textos e mandamos mensagens no WhatsApp com declarações de amor, poemas sobre a finitude da vida. O Carpe Diem sai do armário. Ele, que estava lá esquecidinho, de repente, é chamado ao palco de novo. Carpe Diem a todos porque a vida pode ser ceifada a qualquer momento. Sim, podemos não estar mais aqui amanhã. Sim, eu gostaria de dizer que eu te amo, que é preciso alimentar as amizades, ter tempo para o outro, ter tempo para a família, ter tempo para si mesmo, abraçar um estranho, dar e receber amor.

Por um momento, é ok falar sobre o luto e sobre o morrer em público. Por um momento, o tabu da morte é colocado de escanteio. Uma morte como a de Domingos é um aval para externamos nossos medos mais “obscenos”. Hoje, e talvez somente hoje, ninguém vai estranhar uma mensagem como: “eu tenho medo de morrer”, ou: “o que acontece depois que morremos”, “para onde vamos?”.

Amanhã talvez já soe bem estranho. A carta branca tem validade por umas 48 horas, eu diria. Mas não gostaria de parecer crítica e peço perdão se de alguma forma transmito certa ironia. Acho fundamental podermos expressar questões por tanto tempo abafadas e aproveitarmos o espelho dessa morte para uma reflexão interna.

Há um componente cultural nisso tudo. Com o enaltecimento cada vez maior da razão em detrimento da emoção, compreendemos menos essas mortes aparentemente irracionais. E questionamos mais o que acontece depois do morrer – as explicações religiosas já não satisfazem tanto um ser pensante e fruto de uma maior miscigenação de povos e crenças.

Podemos buscar conforto em alguma imagem onírica, como um Domingos sorridente no céu, nadando em uma cachoeira digna do rio São Francisco, eternamente feliz. O rosto de Domingos vai se dissipando e de repente ele vira o nosso. É isso que vemos nele, nós mesmos e nosso terrível pavor de percebermos que estamos lidando com a coisa mais incompreensível, não domesticada e rebelde que temos à nossa frente, a morte.