“Sobre sobreviver a si mesmo” e “O suicídio do meu marido”

Por Camila Appel

Para fechar o setembro amarelo – mês de conscientização do suicídio, trago dois depoimentos sobre o assunto. O de Letícia (nome fictício) sobre a morte de seu marido e o de Ivana, abordando uma experiência própria.

Depoimento: “o suicídio do meu marido”

“Há muito tempo que venho ensaiando este texto, mas não tinha certeza do que escrever. Até hoje não tenho. Faço isso mais por minha sobrevivência do que pela reanimação de um morto. Talvez eu queira, além de manter-me viva, manter vivos os meus sentimentos por aquele que tanto amei.

Conheci Igor numa aula onde ele era professor. Assim que o vi, senti que algo dentro de mim mudara, a chave da rebeldia virara e com ele eu queria ter tudo o que nunca tivera: filhos, família, vida… Igor era professor de português e 18 anos mais velho do que eu. Quando nos conhecemos, eu tinha 21 ou 22 anos. Nova de idade, mas com uma bagagem sentimental muita carregada, pesada. Até aquele dia, eu dizia aos quatro ventos que nunca iria me casar, que seria mãe solteira e que viveria livre, assim como via nos filmes de hippies. Queria construir ou viver numa comunidade autossustentável, numa época em que isso era somente escolha de vida e não um modismo, com todo o respeito.

(Estou tremendo, mãos suando…É tão difícil…)

Quando vi Igor, isso tudo mudou. Foi amor à primeira vista. Acabamos ficando, namorando, separando, reatando, morando, discutindo, refazendo, casando… Igor sempre terminava nosso relacionamento e eu entrava em depressão profunda. Foi numa dessas que comecei meu affair com a terapia. Porém, um dia, imbuída de um cansaço e exaustão de ver nosso relacionamento seguir por um caminho que eu já não estava mais a fim, resolvi terminar. Liguei para minha mãe pedindo para voltar para casa – ela respondeu que a casa sempre foi minha.

Igor entrou numa onda estranha e difícil de identificar. Nunca tinha visto ele naquele estado… tão deprimido. Ele me ligava e pedia para eu voltar. Dizia que iria mudar, que iria me amar. Escreveu lindas e longas cartas de amor, pedindo perdão, desculpas e dizendo que não passaríamos mais nossas tardes assistindo Raul Gil… que sairíamos. Até escreveu que eu tinha razão e que deveríamos, sim, mudar de casa.

Voltei. Mas ele começou a beber. Bebia cachaça. Tomava pura com limão espremido. E foi assim que fomos indo, diluindo, escorrendo, escorregando, vacilando, esquecendo, amornando. Tentamos fazer terapia de casal. Não deu. Igor era muito culto e bem informado. Ele era um homem acima da média. Conversa com todos sobre tudo. Era capaz de conversar sobre astrologia e astronomia, referenciando cada uma no espaço e tempo. Ele era admirável.

Há muito estávamos sem ter relação. Eu tinha acabado de concluir a pós-graduação quando, não encontrando meios de construir carreira na empresa na qual trabalhava, resolvi fazer um intercâmbio de um ano. No aeroporto, demos um beijo no rosto um do outro. Parecíamos dois amigos, não um casal. Chorei. Tinha certeza de que havia acabado.

Fiquei um ano fora do Brasil. Estudei muito, trabalhei, conheci pessoas, culturas, outras línguas, ampliei. Em uma de nossas conversas pelo Skype, ele disse que também pensava em separação. Aquilo foi um alívio. Eu disse para ele: “que alívio ouvir isso, pois achei que estava ruim só para mim”. Estava certa de uma única coisa: não queria mais viver daquela maneira. Queria construir… (Lágrimas)

Voltei e ficamos juntos por mais um ano. Continuava sem coragem de pedir separação. Eu o amava. Eu o amava, mas isso não era suficiente. Por quê? Por que amar não era suficiente para manter um casamento? Quando eu disse que queria a separação, em meio a um choro convulsivo, ele me perguntou se eu tinha mais alguma coisa a dizer, e eu disse: “saiba que com você eu quis casar, ter filhos e construir uma família”. Nesse meio tempo, ele foi despedido do emprego. Ele estava estranho e não me disse o real motivo do desligamento. Ele sempre foi fechado com relação aos seus sentimentos. Nos amávamos por admiração. Ele também não parava de beber. Eu dizia que a cachaça era a amante dele. Bebia muito ou pouco? O suficiente para roncar, não transar, e só beber. Preciso medir isso? Preciso contar os copos, as doses? Preciso de uma régua? Onde ficam os acordos que cada casal faz? Lá na sua intimidade, entre quatro paredes e a sós?

Ao voltar de uma aula de meditação, encontrei um bilhete sobre a mesa cujo título, em letras garrafais, dizia ADEUS. No recado, de três linhas, citava os filhos e eu. Não dizia muita coisa. Foi apenas um bilhete. Ao final, ele assinou que nos amávamos muito, MUITO. Era quase meia noite quando vi este recado e liguei apavorada para uma amiga. Eu sequer toquei no papel. Não podia acreditar naquilo. Aquilo só acontecia em filmes. “Aquilo” só acontecia com os menos esclarecidos, com os perturbados, com doentes crônicos, viciados, loucos. Igor não era nada disso. Ao contrário. Ele se diferenciava por sua cultura, por sua memória singular, por articular e transitar em todas as áreas devido ao fato de ser extremamente bem informado. Ele não! Não era possível! E ele era um covarde! Era covarde para ter um filho comigo, para comprar um apartamento, então, como iria fazer “aquilo”?

Fui tomada por acusações, dor, desespero, medo. Liguei para uma amiga que imediatamente ligou para um delegado. “Só aceitamos boletim de ocorrência após 24h” (ou 48h, não lembro). Liguei. Chorei. Orei. Sonhei. Acordei e fui trabalhar com medo de olhar para os lados. Como não tinha encontrado a carteira dele em casa, supus que ele tivesse ido para a cidade onde sua família mora.

Ilusão. Não tinha ido. Voltei para casa. Ao chegar, vi a porta da garagem entreaberta. Corri. Agachei. Vi. Meio braço. Meia perna. Meio turvo. Sufocante. Grito. Copo caído. Desespero. Morte. Perda.

Igor havia se enforcado.

O horror da cena, a dor da perda, a impotência diante de uma dor não vista, de uma ação não calculada. No celular, o registro das minhas inúmeras ligações e uma mensagem que eu nunca haveria de receber: “VOCÊ NÃO TEM CULPA DE NADA”.

Isso não alivia. Em nada. Definitivamente não alivia. Ainda choro. Choro de amor, de dor, de saudade, de arrependimento. Culpa? Sinto, assim como não sinto. Cicatriza? Não sei, ainda não está.

O que dói de verdade, além do meu sofrimento narcísico, é me perguntar como. COMO uma pessoa tão bem informada e estruturada intelectualmente não dá importância para as questões da alma, do emocional, do inconsciente. COMO ele não pode acreditar? COMO eu não pude ver?

O estigma que carregam os psicólogos, terapeutas, psiquiatras e demais profissionais de saúde é pesado e bruto demais.

Tem uma frase que li no site “projetodraft” de Nana Calimeris que acho belíssima: “quem decide morrer não o faz por falta de amor à vida, mas porque o sofrimento se tornou insuportável.”

Eu queria abraçá-lo. Ele não gostava muito de carinho. Mas poderia ficar abraçada a ele por um tempinho. O tempinho que ele me permitisse ficar…”

Leia mais no blog: a máscara em que você vive: sobre suicídio entre homens

Leia mais no blog: setembro amarelo: mês de conscientização do suicídio

Depoimento: Sobre sobreviver a si mesmo

“O tabu sobre o suicídio é de tal forma arraigado que nem nossa imprensa livre se atreve a comentar. Julgar é o que mais fazemos, em todas as circunstâncias que a vida apresenta. De alguma forma sempre temos que ter uma opinião, nem sempre formada por informação.

Sofro de transtorno de ansiedade generalizada e já tive alguns graves surtos de pânico. Atentei contra minha vida duas vezes. Sobreviver a mim mesma foi mais difícil que me entregar ao desejo de por fim ao sofrimento.

Tenho duas filhas, já adultas. Na época, duas adolescentes. Como explicar que não se tratava de escolha entre estar com elas ou morrer? O inferno no meu espírito, o tumulto de milhões de pensamentos catastróficos, invasivos em minha mente, num ir e vir sem fim. Só eu sei como é. O inferno de cada um não é compartilhado ou compreendido, mas pode não ser julgado.

A cicatriz nos meus pulsos hoje são marcas da guerra. A cicatriz na alma foi melhorando com o tempo e o amadurecimento dos filhos. Mas quem bate no peito para dizer que sobreviveu a si mesmo? O que era para ser um ato de superação se torna vergonha, pelo peso que o suicídio ganha como pecado contra a vida.

Sigo tentando não julgar qualquer comportamento. Difícil. Mas sei eu daquele que, nas drogas ou no álcool achou a paz que a realidade não lhe permite viver?  Hoje, ando nas ruas e me vejo em muitas pessoas. Vejo minha dor empatizando com a dor de tantos com quem cruzo pelo caminho.

A compreensão que veio com a minha experiência talvez também seja só minha, assim como os meus paraíso e inferno particulares.

Gostaria que as pessoas que passam por estas situações pudessem se ver, se enxergar num grupo. A solidão dessa dor é única”.