Os seios de Maria Alice

Por Camila Appel

Pela primeira vez, o Instagram censurou uma foto publicada pela Folha. A foto também foi retirada da página do Facebook do jornal.

O Instagram indicou que a imagem não levaria o público a uma “experiência confortável”. A grande maioria dos internautas que comentaram a notícia apoiaram a decisão da censura, alegando ser uma imagem de “mau gosto”, “humilhante”, um “nojo”, e que o idoso deveria ter “noção de dignidade”, ser “discreto”. Alegaram que a retratada, Maria Alice Vergueiro, não deveria se expor dessa maneira.

Capa da última revista “Serafina” (da Folha), essa foto faz parte de um ensaio com a atriz de 82 anos, muito popularizada no vídeo “Tapa na Pantera” viralizado no YouTube. Ela sofre de mal de Parkinson e está em turnê com a peça “Why The Hourse”, na qual encena o próprio enterro, trata de temas como a velhice, a morte e a fragilidade humana, com cenas oníricas e metafóricas. Um espetáculo muito bonito, que dribla a razão e incita emoções inesperadas. Saí dele procurando não entender uma peça, mas sim senti-la. O que é um desafio para mim e talvez para grande parte da minha geração, que tende a racionalizar o mundo e não vê espaço na sociedade se não for através do uso incansável da razão.

Eis que essa foto traz à tona um pouco dessa reação. Ela fala diretamente com uma emoção, com o medo, com a surpresa diante do inesperado. Ela nos tira de uma zona de conforto, causa um aplauso enérgico ou uma torcida de nariz – de “nojo” de uma imagem que chegou a ser comparada a uma “intimidade de banheiro” por certa internauta, como se fosse escatológica.

No meu caso, trouxe um espanto positivo. Aplaudi, venerei. Maria Alice, sempre corajosa na sua maneira de se expressar, resolveu quebrar mais um tabu. O que ela mostra à câmera é algo absolutamente normal. São seios naturais, que sofreram o impacto da gravidade como todos os seios do universo. Salvo aqueles que se mantêm erguidos pelo bisturi. São bem-vindos esses também.

Os que repulsaram os seios de Maria Alice podem se lembrar de que o impulso para achar algo feio ou bonito é uma construção cultural. Nossa percepção estética é manipulada. No Renascimento, as mulheres mais gordinhas, com formas voluptuosas, eram consideradas bonitas, porque a gordura significava dinheiro extra para comer extra. Hoje, as magras são aceitas e as gordinhas são deslocadas.

Por isso, achar uma coisa bonita ou feia não depende totalmente de você. O gosto é fruto da interação social, dos dogmas do momento. Temos menos liberdade do que imaginamos na hora de um julgamento. Dois homens se beijando era considerado feio e nojento. O Instagram e Facebook (que controla o Instagram) deve ter censurado um monte de fotos dessas, mas duvido que continue fazendo atualmente. O beijo gay já é transmitido em rede nacional nas novelas. Digo o mesmo dessa foto. Quanto mais fotos expuserem a naturalidade do corpo, da velhice, menos reações horrorizadas teremos e menos censura.

Maria Alice não é uma minoria. O IBGE calcula que em 2030 já seremos um país de velhos. Em 2050, a população de velhos ultrapassará a de crianças e jovens de até 29 anos. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), nossa população acima dos 60 anos cresce acima da média mundial. Eu até acho que, quando chegarmos lá, a faixa para alguém ser considerado velho já terá subido consideravelmente.

Esses velhos, nós, devemos ter a liberdade para tirar a camiseta na frente do espelho sem nos sentirmos fracassados e nojentos. Envelhecer é um ato de coragem, de sabedoria. E cada ruga, cada marca ou cicatriz está aí para ser venerada, exposta com orgulho. O que não pode ser feito é o retrocesso: aceitar essa censura como legítima e inibir futuros ensaios como esse. Ao contrário, Maria Alice abre portas para uma nova liberdade. A liberdade para envelhecer, para se reinventar na velhice. Que seja considerado feio por um tempo, até a relatividade de nosso olhar dar as graças, derrubar esse tabu de vez, e finalmente passar a ser aceito. Como tudo na vida.