A esperança e a amargura

Por Camila Appel

“A esperança e a amargura… são parecidas”, escreve Milton Hatoum em “Dois Irmãos” – livro que estreará em formato de minissérie na TV Globo, em janeiro.

Passei alguns dias tentando “não sentir” o mundo. Meu objetivo era tentar não alimentar esperanças, nem amarguras. Estou acostumada a ler jornal com um lenço na mão de tanta empatia que me solta pelos poros, mas dei um basta nisso aí e resolvi me anestesiar um pouco. Acho que foi ressaca da foto da menina morta na capa da Folha (inciativa que apoiei, inclusive).

Lá se foram os sentimentos e fiquei no limbo. Uma leitura aqui, outra ali, repetindo frases como: ha, a história mais uma vez se repete, ou, é só mais do mesmo, o mundo não será melhor amanhã, nem pior, e tanto faz, porque eu tô aqui, sem esperanças, sem amarguras, me deixem em paz com meu coração congelado.

Achei que esse exercício poderia me trazer um pouco de sossego. Não esperar nada de ninguém, de situação nenhuma, não torcer e não me decepcionar.

A tarefa não seria nada fácil, dei o azar de me colocar nessa missão justo na semana em que o avião dos Chapecoenses caiu, o helicóptero com a noiva se despedaçou perto do altar, um incêndio matou 40 nos Estados Unidos e por aí vai. Bom, tragédias e assassinatos pipocam toda semana, pensei eu, se eu esperar uma semana mais amena para tentar a neutralidade, tô ferrada. Ainda mais em final de ano.

Então segui. Claro que não deu muito certo, mas fiquei impressionada com a falta de espaço para os que desejam viver assim, em uma anestesia psicológica. A comunidade virtual não perdoa quem não se compromete. Não há tolerância com quem opta por um olhar mais frio, para os que não se engajam em um luto coletivo, não aproveitam a oportunidade para agradecer por estarem vivos e edificar a vida em conjunto.

Vi um humorista ser massacrado por fazer piada com a situação. Para alguém fazer piada com tragédia precisa, no mínimo, se distanciar emocionalmente do ocorrido – atitude necessária em um humorista. Uma empresa foi criticada por ter aumentado o preço da camiseta do time e uma página do Facebook foi dizimada por ter aproveitado uma oportunidade para navegar na onda da vez e trazer informações consideradas relevantes por sua equipe editorial. Relevante nesse contexto quer dizer: criar manchetes se aproveitando de um tema que está “quente”, está na boca do povo, para aumentar a leitura, aumentar os cliques. Não estou aqui julgando. Só comento que me parecem iniciativas insensíveis, distanciadas.

O problema de não se sensibilizar diante de uma catástrofe é deixar o outro perceber essa anestesia, esse distanciamento. Porque não será perdoado. Alguns típicos acontecimentos (me veio à mente os assassinatos do Charlie Hebdo e do Bataclan) não permitem isso.

Não dá para obrigar alguém a sentir as coisas à sua volta, mas dá para orientar as pessoas a usarem alguma percepção do entorno para entender que talvez o lugar da anestesia é o mais reservado possível. Nesse âmbito privado ela pode, inclusive, florescer.

Me dá uma certa vontade de defender os que se colocam numa situação de tamanho distanciamento, mas quando percebo que a maioria assim o faz em benefício próprio, para lucrar com a situação, desisto da intenção. Retorno de onde nunca saí. Continuo aqui cheia de esperanças, e toda cheia de amarguras, escrevendo sobre uns assuntos esquisitos para tocar o insensível que acaba escolhendo esse caminho por outro motivo: por não aguentar mais ser machucado o tempo todo. Ele cansou de andar por aí em carne viva e se fez uma casquinha. Esse, no fundo, é o mais sensível de todos e só está tentando sobreviver.