Vamos começar pelo fim?

Por Camila Appel

Foi pensando no “adolescente virtualizado” que a pesquisadora Kate Rigo criou a pedagogia cemiterial. Sua teoria é descrita no livro “Vamos Começar Pelo Fim?”, lançado pela editora Chiado. O adolescente virtualizado é descrito pela autora como aquele que prefere interagir emocionalmente e racionalmente pela internet e acaba se distanciando cada vez mais da realidade.

Uma consequência brutal desse comportamento é não conseguir perceber a morte como concreta, o corpo como finito, e também seria um dos motivos para o crescimento das taxas de suicídio e de comportamentos autolesivos entre os jovens. “As coisas acontecem tanto no plano virtual que ao se cortar e ver o sangue escorrendo, eles se sentem vivos. São os adolescentes que precisam urgentemente de ajuda. Eles não se sentem vistos pelo outro, pelos pais e pelos professores”, comenta Kate.

Uma forma de lidar com esse problema social é, conforme sua sugestão, a pedagogia cemiterial, que se baseia no uso de cemitérios como forma de ensino. Kate levou seus alunos para esses espaços para discutir temas como geografia e história.

Apesar de haver muita superstição envolvida (um pai chegou a pedir para o filho ir banhado em sal grosso), Kate considera a recepção muito positiva. “O que me chamou atenção é que era um local para perguntarem coisas que na escola não há espaço. Eles conseguiam chegar a conclusões entre si respeitando a fé de cada um. Tinha uma troca social riquíssima”.

Comportamentos autolesivos seriam motivados por transtornos psicológicos, pela busca do alívio do sofrimento e também haveria um componente de modismo forte, com a influência de vídeos no YouTube com adolescentes se cortando. Mas a internet também pode ser uma fonte de consolo, por oferecer várias páginas no Facebook que acabam virando terapêuticas, unindo outras pessoas com essa dor.

Há alguns sinais de alerta, como mudanças de vestimenta. O adolescente passa a usar roupas de inverno mesmo no verão, para esconder as marcas. Ele começa a se retrair, tanto em casa quanto na escola. Kate orienta buscar auxílio na psicologia e fazer o encaminhamento necessário em cada caso.

Na essência de tudo, estaria o aumento da depressão e da ansiedade, como um sintoma da falta de espaços para reflexão e da falta de afeto em casa e na escola.

Um ponto importante é a carência de escuta que ela vê no tratamento com o adolescente. “As pessoas não têm mais tempo para conversar umas com as outras. Os pais não têm mais tempo para os filhos. É só olhar no restaurante, ninguém conversa entre si, só com o smartphone. A solidão acaba se propagando”.

A falta de apoio na fé tradicional do Deus cristão também contribuiria para essa solidão. “O adolescente virtualizado quer informação, quer imagem, ele quer provas, e a teologia não dá essa perspectiva para ele”, comenta. Como alternativa, buscam o que Kate chama de o “Deus Google”, onde encontram todas as repostas para suas perguntas. Mas ela considera ser importante o adolescente buscar algum tipo de espiritualidade que sirva como apoio. “Pode até ser a ciência, o importante é ter um foco, um objetivo, algo que dê sustentação para ele continuar vivendo”.

A pedagogia cemiterial de Kate é uma proposta de ferramenta para tratar dessas questões, na medida em que mostra ao adolescente que a morte é algo concreto e “não um videogame onde você tem várias vidas”, como ela mesma coloca. Acima de tudo, é uma forma de interação real.

Quando falamos sobre morte, sinto que se estabelece uma conexão especial, como se estivéssemos transgredindo, tocando em um assunto proibido. Talvez esse seja um ponto importante na pedagogia de Kate. O adolescente cria intimidade e vê uma oportunidade para se abrir. Arrisco dizer que todo mundo busca relacionamentos profundos e significativos na vida. O que pode faltar é um ambiente que promova isso. Usar o cemitério me parece uma ótima sugestão.