Por que o tempo passa mais rápido conforme envelhecemos?

Por Camila Appel

Não sei muito bem quando foi que começou. A segunda-feira de repente apareceu colada na sexta. Passei a me guiar por esses dois dias. Ou eu estou numa segunda, ou na sexta. Os outros são rabiscos no calendário, uma lista de coisas a fazer que eu vou cumprindo como se estivesse dormindo. Não pela leviandade de sonhos, mas pelo fator onírico e subjetivo deles.

Aí eu lembro como, pouco tempo atrás, a semana era uma extensão longa de horas e de dias. Cabia de tudo ali. Só que minha vida não está mais atarefada do que era antes. Não lembro de uma época em que eu achava que sobrava tempo. O que mudou, eu me pergunto. Será que meu cérebro passou a digerir o tempo de forma diferente?

Há algumas teorias e experimentos nesse sentido. Todos se baseiam na ideia de que, realmente, temos a percepção de que o tempo passa mais rápido conforme envelhecemos.

Em 1877, surgiu uma teoria chamada “a teoria da proporcionalidade”, baseada na ideia de que comparamos intervalos de acordo com a quantidade de tempo que já vivemos. Conforme envelhecemos, nosso sentido do presente começa a parecer curto comparado ao total do tempo que já passou nas nossas vidas. Dessa forma, uma criança vê um ano como uma eternidade, porque comparado à quantidade de anos que ela já viveu, é muito. Se você tem 90 anos, 1 ano significa pouco perto de todos os vividos. É nesse sentido que surge a proporcionalidade do tempo e a sensação de que ele vai passando cada vez mais rápido.

Outro ponto importante seria termos menos novidades na vida conforme envelhecemos. O psicólogo Wiliam James descreveu em um artigo de 1890, “Princípios da Psicologia”, essa teoria baseada no fato de que a falta de novidades da fase adulta interfere na sensação da passagem do tempo. As experiências parecem se repetir e a sensação de familiaridade com o mundo e com os acontecimentos aumenta.

Você ir a um lugar pela primeira vez é inusitado, é novo, é uma aventura. Vamos prestar mais atenção em tudo e nos adaptar a um novo contexto. A experiência parecerá mais vívida. Se já é a centésima vez que você vai a esse lugar, o tempo passará mais rápido. Como há menos informações a serem processadas, nosso cérebro cria atalhos. Por exemplo, quando somos crianças, ir à praia pela primeira vez é inesquecível, ou visitar um país novo, ver a neve… Na fase adulta a chance de já termos cumprido toda a lista das “primeiras vezes” é maior.

Um estudo no início dos anos 60, dividiu a percepção do tempo entre dois grupos: jovens de 18 a 20 anos e adultos de 70 anos, com o uso de metáforas. Os jovens descreviam o tempo como algo mais estático (tempo é um oceano parado) enquanto os adultos o associavam a algo acelerado (tempo é um trem que anda muito rápido).

Há outros efeitos interessantes sobre a sensação do tempo passar mais rápido ou devagar. Essa percepção varia conforme nosso nível de foco, estado físico e humor. Quando estamos em uma situação ameaçadora, o tempo passa mais devagar, porque nosso cérebro irá se concentrar em garantir nossa sobrevivência. Quando estamos entediados, o tempo também passa mais devagar, porque o cérebro não tem muito com o que se ocupar e vai prestar atenção na própria passagem do tempo. Quando desempenhamos diversas tarefas ao mesmo tempo, prestamos menos atenção na passagem do tempo e temos a percepção de que ele passa mais rápido. O envelhecimento interfere na nossa capacidade em desempenhar diversas funções ao mesmo tempo o que também pode interferir nessa sensação.

Tanto nosso metabolismo quanto nosso nível de dopamina (o neurotransmissor que nos dá sensação de bem-estar e recompensa) caem conforme envelhecemos, o que também pode influenciar nossa percepção. Nessa linha, podemos afirmar que nosso relógio interno desacelera conforme envelhecemos. Em comparação, o relógio externo (a contagem de horas e de dias) vai parecer mais acelerado do que antes.

Também há teorias sobre o tempo passar mais rápido quando estamos nos divertindo. Então, em uma versão mais otimista da vida, conforme envelhecemos vamos gostando mais de viver, mesmo sem as surpresas da infância, mas com a sabedoria da história.