A morte e o sexo

Por Camila Appel

“La petite mort”, dizem os franceses quando se referem ao orgasmo. Nele há o escape de uma vida e o instinto de criação de outra. Os amantes esvaziam-se. Exaustos (nas nossa melhor imaginação),  contemplam a finitude e podem sentir a melancolia de um fim.

Se o orgasmo é uma pequena morte, sexo é morrer junto. Há muita intimidade envolvida no ato sexual e mais ainda no ato do morrer. Presenciar a morte de alguém é, sem dúvida, um momento de conexão.

E arrisco dizer: um momento pouco explorado nos dias atuais. As pessoas morrem inconscientes e sozinhas. É triste? Claro que é. A cena do filme bonito que concorre a prêmios não mostra isso. Nele, há uma família em volta do doente, que se despede de cada um e aproveita a vida até o último segundo.

O esvaziar dessa alma, ou dessa consciência como eu prefiro dizer, normalmente não é testemunhado. Ao contrário do sexo, morre-se sozinho, sem trocas. Há uma filosofia médica que se propõe a agir contra essa vertente, chamada filosofia hospice, que é uma unidade completa de cuidados paliativos. (Leia mais aqui)

Um de seus pontos chaves é enxergar a morte como um momento de apoio psicológico e espiritual, e não apenas físico. Apesar de se preocupar, em primeiro lugar, com o fim da dor do corpo. Até acho que os médicos paliativistas não se incomodariam com essa minha analogia.

A relação entre morte e sexo começa com a quebra de um tabu. A morte ocupa, hoje, um lugar que já pertenceu ao do sexo. Não se falava sobre masturbação em público, muito menos na mídia. Isso ficou para trás, com o orgasmo feminino sendo debatido em rede nacional.

A morte e o sexo também têm o medo em comum. Transar é a perda do controle, é libertar-se, é dissolver a consciência. A morte parece ser isso também. Há uma chance de que as pessoas que têm medo do sexo também tenham medo da morte.

Outra característica em comum é o pisar em ovos para falar a respeito. Usamos eufemismos. Sexo é fazer amor, orgasmo é atingir o ápice. Morrer é falecer, ir para o céu, bater as botas. Outro tabu, o envelhecimento, também ganha versões bonitinhas. Ser velho é estar na terceira idade, na melhor idade.

A primeira analogia a ser feita entre sexo e morte é representada em Eros e Tânatos. O que a psicanálise chama de pulsão de vida (Eros) e pulsão de morte (Tânatos), ou instinto de vida e de morte. Freud diz em seu livro “Além dos Princípios do Prazer” (1920), que “o objetivo da vida é a morte”. Levaríamos a vida oscilando entre instintos de vida, de sexo, de sobrevivência e o de morte, de fim, de transformação e de autodestruição.

Eros é o deus do amor na mitologia grega (e o cupido na romana), enquanto que Tânatos é o da morte. Um faz deuses e humanos se apaixonarem e o outro, morrerem ou caminharem para a destruição. Nos mitos gregos mais antigos, Eros não tinha só um lado romântico, mas também desdobramentos negativos, como a luxúria e o ciúme (simbolizado pelas ações de Hera), e a vaidade (com a criação de Medusa por Atena).

Platão dizia que Eros simbolizava o amor físico, mas também o amor interno que supera a atração sexual, afirmando que o amor poderia existir sem sua concretização física. Daí surge a expressão “amor platônico”.

Essa versão de Eros e Tânatos tendo características um do outro em si mesmos faz mais sentido nos tempos atuais do que o dualismo oferecido pelo Cristianismo. Seguimos como as duas pulsões existentes nas teorias de Freud, elas coexistem no mesmo indivíduo.

Vivemos entre os sentimentos de criação e o de destruição, sexo e morte. Já falamos mais abertamente sobre um, agora nos falta começarmos a falar sobre o outro.

É preciso imaginar Sísifo feliz