Como o brasileiro vê o cemitério

Por Camila Appel

O professor e pesquisador Thiago Nicolau de Araújo é fascinado por arte cemiterial e pelo papel artístico e sociocultural dos cemitérios, representados nas artes dos túmulos.

Seu livro “O Que Amamos Não Esquecemos”, (ed. Chiado, 2016) fala sobre a relação do ser com sua própria finitude e de que forma isso se expressa na simbologia presente no cemitério. O livro é fruto de sua tese de doutorado, realizado entre o Brasil e Berlin. Por isso, ele compara cemitérios do Brasil com os da Alemanha e chega a pontos de vistas interessantes sobre como nós, brasileiros, lidamos com cemitérios.

“Nesses anos de pesquisa, percebi que a visão do brasileiro varia demais conforme a sua religião e conforme o tempo. Mas o brasileiro em si tem uma superstição forte, independente da religião. Esse sentimento supersticioso é relacionado à algo ruim estar embutido em cemitérios. Não os vemos como um museu a céu aberto, como o Cemitério da Consolação, por exemplo”, diz.

Na Alemanha e na Europa, não haveria essa relação de negatividade presente aqui. Na Europa, já no final da década de 50, surgiam associações de pesquisa sobre a cultura cemiterial. Por outro lado, quando os brasileiros viajam para fora do país, aceitam o cemitério como uma visita desejada. O Père-Lachaise, por exemplo, é um grande ponto turístico.

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E como surgiu essa superstição? Para Thiago, ela é relacionada ao catolicismo pietista, ao drama da morte, do purgatório e do sofrimento para chegar à redenção. “É resultado dessa bricologem cultural que cria o sentimento de que o local onde tem espíritos é ruim”. Ele também sinaliza dois fatores importantes: uma bagagem educacional pobre, indicando que temos medo daquilo que não entendemos, e uma analogia, mesmo que inconsciente, da morte com a violência que vivemos no cotidiano. Os cemitérios também podem representar essa violência.

Nesse sentido, o medo da violência diária a que somos submetidos, poderia contaminar o cemitério, um espaço de morte.

A simbologia presente nos cemitérios se modifica conforme nossa cultura se transforma. Thiago observa que, a partir da década de 70, as imagens religiosas passaram a ser substituídas por elementos de identidade da vida pessoal do morto. “Já vi símbolos de time de futebol e fotos do morto em tarefas da vida cotidiana.  É um elemento de manutenção de identidade do sujeito enquanto vivo e a diminuição da fé”. Esse processo teria se intensificado ainda mais a partir dos anos 2000.

As gavetas, onde está o grosso da população como diz Thiago, costumavam ter símbolos como cruz e ramos de palma e epitáfios bíblicos (como “fé na vida eterna”). Agora, contam com frases e símbolos pessoais. “Há o nome, data de nascimento, falecimento, foto e símbolo. Já vi em um túmulo de um Cemitério em Novo Hamburgo, duas raquetinhas cruzadas, porque o morto era atleta de Tênis. Em Salvador, tinha um celular esculpido em um túmulo de um adolescente”, conta Thiago.

Apesar desse movimento, Thiago diz acreditar que a fé nunca deixará de existir. “O que teremos é uma transformação na forma de expressar a fé. A Igreja Universal, por exemplo, sempre se transforma e procura atender a essas questões. A igreja católica demora muito para reagir. Eu até entendo, porque ela é milenar e não pode se alterar a cada momento cultural. Ela precisa ter uma base, mas não pode ficar travada durante 500 anos”.

Quando eu perguntei ao pesquisador se Deus está morto, ele respondeu: “não… mas de um ponto científico, ele foi morto no século XIX. Nosso avanço científico é muito mais rápido do que a população é capaz de absorver, e por isso a humanidade ainda recorre a superstições e religiosidades populares. Mas de qualquer forma, mesmo em locais com elevado índice educacional, a fé permanece como algo inerente a existência”.

Thiago Nicolau de Araújo é doutor em Teologia pela Faculdades EST com bolsa-sanduíche pela Freie Universität Berlin – Alemanha (2014), licenciado e Bacharel em História e mestre em História das Sociedades Ibero-americanas.

Serviço:

O Que Amamos não Esquecemos: Cemitérios – Finitude – Teologia

Autor: Thiago Nicolau de Araujo

Data de publicação: Agosto de 2016

Gênero: Ensaio

Onde comprar: Editora Chiado (link: https://www.chiadoeditora.com/livraria/o-que-amamos-nao-esquecemos-cemiterios-finitude-teologia)

Contato: thdearaujo@gmail.com.

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