Um som para a UTI 

Por Camila Appel

As UTIs já foram classificadas como “branches of hell” (uma espécie de inferno na Terra) em estudos sobre tratamentos intensivos. Uma pesquisa do ano passado afirma que um quarto dos pacientes sofrem de transtornos pós-traumáticos até um ano após a internação. Esse estudo chegou a mencionar que você tem as mesmas chances de ter stress pós-traumático após a UTI do que se tivesse sido estuprado ou ido para a guerra.

Pacientes em cuidados intensivos vivem sob pressão mental forte. Sentem muita dor, vulnerabilidade, impotência, depressão, culpa por demandar atenção familiar e ser motivos de brigas, como irmãos discutindo quem cuida mais, quem paga menos. Para a família, o doente vira uma demanda. E uma lembrança horrorosa de que, em algum momento, todos estarão ali naquela cama.

O tratamento dos médicos e enfermeiros ajudam na passagem do dia, no afeto, na sensação de voltar a se sentir gente. Eles aplicam empatia, buscam ter leveza no toque e na voz. Explicam cada ação e conversam, mesmo se o paciente estiver em coma (ou pelo menos deveriam).

Um aspecto que poucas pessoas param para pensar é o som em um ambiente de UTI. Bipes, alarmes sinalizando que um batimento cardíaco ficou muito baixo ou muito alto. Ou que a oxigenação caiu, um elétrodo saiu do lugar. Também é constante o som da televisão, o som de uma respiração artificial, o som de um choro contido. Enfermeiros e médicos passam plantões, celulares apitam, telefones tocam.

Esse tipo de som não contribui para a recuperação de um doente em unidades intensivas. Aí eu me pergunto: por que não termos som ambiente nos quartos de UTI?

Reportagem da revista eletrônica AEON conta um evento fora do comum. Na unidade de cuidados críticos do Hospital da University College de Londres, foi organizado um show ao lado do hospital, transmitido ao vivo aos pacientes, via wifi. Foram entregues fones de ouvido e ipads esterilizados aos pacientes que demonstraram interesse em escutar a performance. Muitos deles, conectados a máquinas e com poucos dias de vida. Guitarra, sax, flauta e clarinete tocavam “The Mermaid of Marmara” (a sereia de Marmara). A música é linda. Parece a trilha sonora para um show de ondas quebrando na areia. A reportagem também cita uma reportagem do “The Guardian”, em que uma ex-paciente de UTI descreve um som “constante e assustador”, que não parava nem a noite.

As UTIs são, normalmente, relacionadas ao desumano na medicina. São um espaço evitado dentro de um espaço já evitado (o próprio hospital). Mas não precisaria ser assim. As UTIs existem para os pacientes serem monitorados de perto e tenham atendimento o mais rápido possível. Existem para tornar possível sua sobrevivência. Ou para possibilitar um caminho mais natural para a morte. Pelo menos deveria ser assim.

Quem sabe, uma música ambiente poderia ajudar a tirar essa imagem das UTIs darem “medo”, de serem assustadoras e insuportáveis. A cultura popular já internalizou a noção de que os efeitos da mente se traduzem em efeitos no corpo. Acredito que seria um ganho importante para a qualidade de vida dos pacientes nas Unidades de Tratamento Intensivo, mesmo que essa vida dure segundos. Quem sabe, na essência de tudo, esteja ver pacientes como mais do que simples pacientes. Como dizem os organizadores desse show no hospital em Londres: “Por algumas horas, estranhos trataram esses pacientes como algo além de uma série de problemas complexos que precisavam ser resolvidos com máquinas”.

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