Conversando sobre morte com Gilberto Gil

Por Camila Appel

Tive a honra de perguntar a Gilberto Gil em rede nacional, “o que você quer ser quando morrer”, no novo programa diário da Globo, “Conversa com Bial”, que vai ao ar nessa madrugada. Seu idealizador, apresentador e redator final, Pedro Bial, nos convida a desmitificar tabus, inclusive o da morte, ao qual se refere como “o último tabu”.

“O que você quer ser quanto morrer” é uma questão colocada aqui no blog para se referir a opções do destino do corpo. Podemos enterrar, cremar, transformar cinzas em cristais, diamantes, doar para a ciência, doar para os vivos, usar as cinzas para fazer um quadro (arte picto-crematória), jogar no mar, mandar para a lua, serviço oferecido pela Nasa em parceria com o Crematório Vaticano, por exemplo. Que não foi adiante por falta de interesse.

O que está por trás dessa indagação é a possibilidade de termos autonomia sobre nosso próprio corpo. Tanto na vida, quanto na morte. A decisão sobre o que deve ser feito com esse composto orgânico, o corpo, é nossa. Ou pelo menos deveria ser.

Essa autonomia envolve, também, a forma como queremos morrer. Tratar esse assunto com a naturalidade que ele merece, abordando as opções que temos à nossa disposição. Podemos optar por uma morte na UTI, explorando todas opções que a medicina moderna nos possibilita, ou uma morte mais natural, digamos assim.

Trazer o tema para debate nacional é um grande passo.

Quando acompanhei autópsias em um necrotério, tive justamente a sensação descrita na música de Gil na abertura do programa: “Não tenho medo da morte, eu tenho medo é de morrer”. A morte é calada. O corpo sem vida é nulo. É um boneco oco, feito de plástico e tinta vermelha. A morte concreta é menos assustadora do que a simbólica.

Nessa entrevista, Gil menciona algo interessante, que já tinha sido me dito pela jornalista americana Mary Roach, escritora do livro “Para que serve um cadáver”. O destino do corpo é uma autonomia que nós devemos ter. Mas, ao mesmo tempo, ele é importante para quem fica e não necessariamente para quem vai.

Por isso, pode ser uma decisão tomada em família, sobre qual seria a melhor forma de oferecer um conforto aos que sofrerão o luto dessa perda.

Na essência de tudo isso, está os benefícios de haver essa reflexão, e quem sabe, trazer essa conversa para a mesa. Sem pesos, sem cobranças e sem mau agouros. Essa balela de que falar sobre morte a atraí, não é verdadeira. A gente já fala super pouco sobre ela e ninguém deixou de morrer por causa disso.

Mantermos a morte na esfera do mau agouro e do macabro só nos traz prejuízos. Isso resulta em profissionais mal capacitados e mal pagos, consumidores sem saber quais são seus direitos, muito menos a quem reclamar, e pessoas morrendo muito mal, com sofrimento desnecessário, exames invasivos que trazem mais custos, financeiros e psicológicos, do que benefícios.

Alguns assuntos tocados durante a entrevista merecem mais esclarecimentos. Vou enumerá-los, com links para maiores informações, para quem tiver interesse: testamento vital, ritual do funeral celeste tibetano, coveiros, eutanásia e morte assistida, o conceito de morte digna e a boa morte.

Pensar sobre a morte é também uma reflexão filosófica. Um mergulho no que significa ser humano. Ser vivo, ser mortal e absolutamente substituível – a despeito do que nosso ego acredita. Schopenhauer chamava a morte de a musa da filosofia. Sem ela, sem a inquietude que nos traz, talvez nem existisse a filosofia.

Lembro da frase da dramaturga Consuelo de Castro, que morreu no ano passado, me dizendo que a maior qualidade do homem é e inquietude. Hoje, é um dia importante e sinto falta da sua voz, a maior defensora desse blog, que me apoiou lá no começo de 2014. Ela sentiu que essa era uma necessidade da população e havia um certo vácuo na mídia. Ela teria orgulho em ver essa entrevista com Gil, e adoraria assistir o “Conversa com Bial” hoje, e todos os outros dias.