O Último Abraço

Por Camila Appel

Nelson Golla já não aguentava mais assistir, impotente, a situação de sua mulher quando decidiu explodir uma bomba caseira abraçado a ela em uma clínica de idosos na zona leste de São Paulo. “Não foi um ato de loucura” ele escreveu em uma carta. Para ele, era um ato de amor.

“O Último Abraço” (Ed. Record, 2017) é um livro reportagem de Vitor Hugo Brandalise, que narra a história do casal que ficou conhecido como o “Romeu e Julieta da terceira idade”. Apesar da manchete, o caso de 2014 foi muito pouco noticiado.

Vitor considera que a somatória de tabus representada nesse caso pode ter sido um fator importante. “Vivemos em uma cultura que trata a morte como uma inimiga e evita pensar nela, falar dela. O caso toca em temas como suicídio na terceira idade e decadência do corpo na velhice, por exemplo”, ele conta ao blog “Morte sem Tabu”. Somado a isso, está o momento em que ocorreu, perto das eleições presidenciais de 2014.

Uma história aparentemente negativa, que relata um idoso que explodiu uma bomba em um asilo da Zona Leste de São Paulo, recebeu uma possibilidade de compreensão e de escuta, na voz de um repórter que buscou fazer um retrato humano de uma atitude drástica. “Ela pediu para morrer mais de uma vez, não há duvidas de que ele fez isso por não aguentar mais ver esse sofrimento”, diz Vitor.

Nelson Golla, então com 74 anos e Neuza, 72, estavam juntos há 54 anos. Neusa sofria as consequências de dois AVCs. Ela não podia mais mastigar ou deglutir e recebia alimentação por uma sonda grudada na narina esquerda, que se comunicava direto com o estômago. “Suas reações restrigiam-se a grunhidos e olhares marcados por uma depressão profunda”, descreve o autor no livro.

A gota d’água para Nelson teria sido o momento em que tentou dar água na boca da sua mulher e foi impedido. Ali, ele tomou consciência de sua inutilidade e lembrou da sua mãe dizendo que, para matar a sede das crianças, era necessário dar água na boca. “O fato dele se sentir inútil foi uma das razões para ele tomar essa decisão”, diz Vitor.

A contracapa do livro traz uma passagem marcante: “Nelson visitaria Neusa novamente. Levava dois volumes nos bolsos da calça. Um deles era uma bisnaga de 100 militros que enchera com água de coco de caixinha, como a esposa gostava. Às escondidas, daria de beber a ela. Nelson sabia que era proibido alimentar pacientes que usam sonda, mas, ainda assim, sempre o fazia – uma bebida direto no estômago não mata a sede de uma boca seca – dizia”.

A narrativa desse momento tem desdobramentos profundos. Podemos discutir, por exemplo, a falta de treinamento dos profissionais envolvidos. Não é uma questão de apontar dedos, como o próprio autor comenta, apesar de vermos, aí, uma falta de sensibilidade grande. Mas sim, de compreendermos que a falta de capacitação pode levar a consequências radicais. Cuidados paliativos é uma área da medicina que se propõe a esse olhar. Buscar entender as necessidades não só do paciente, mas da família também.

Vitor mencionou que Nelson poderia ter tido algum espaço para se sentir útil no tratamento da esposa, como molhar seus lábios com algodão. Ele a visitava todos os dias, imagino que seu sentimento de impotência só tenha crescido, até se tornar insuportável.

Neusa morreu imediatamente. Nelson não. Vive até hoje respondendo em liberdade por homicídio doloso qualificado, por ter colocado em risco a vida de outras duas senhoras que se hospedavam no quarto. Elas não se machucaram.

Os três filhos do casal, hoje, não julgam o pai. Compreendem ter sido um ato de amor. Vitor comenta que, no início, houve incompreensão. “Eles não imaginaram que o sofrimento dos pais fosse tão grande a ponto de levar a uma medida extrema como essa. A reação foi se questionar como puderam não conversar mais às claras sobre o que viviam? Mas a maior parte das famílias brasileiras não tem mesmo o hábito de falar sobre o fim da vida”, conta Vitor.

Outro desdobramento desse caso, é a falta de discussão sobre a eutanásia e o suicídio assistido no Brasil. Nelson deixou uma carta em que diz: “Isso que eu fiz é simplesmente uma eutanásia”.

Vitor enxerga um gancho importante para essa discussão. “Esse é um dos casos que pode mostrar a necessidade de falarmos sobre isso”. Ele cita uma pesquisa recente da revista “The Economist”, que analisou quatro países e listou o Brasil como o único que colocou a extensão da vida a frente do sofrimento. Os brasileiros optariam por uma vida mais longa em detrimento de sua qualidade. Um dos motivos para isso seria nossa religiosidade intensa.

Vitor aponta para um fato comum de se escutar nos bastidores de UTIs, o de que a eutanásia já é uma prática, mas ela ocorre de forma velada e sem comunicação clara entre médico e paciente. “Como não é regulamentada, e por ser um tabu muito grande, não se fala sobre isso, mas já acontece. O que vai continuar acontecendo é esse acordo silencioso, individual entre as partes e, eventualmente, casos como esse”, diz Vitor.

O autor também comenta que cuidados paliativos e eutanásia não são excludentes, “você pode ter cuidados paliativos para diminuir o sofrimento e mesmo assim optar pela eutanásia”. Teríamos muito a ganhar se os médicos deixassem de encarar a morte como inimiga, e não “verem mais seu trabalho como uma luta contra a morte”, complementa.