Uma música indecente

Por Camila Appel

Sobre a “Marcha Fúnebre” de Chopin

Estava eu no trânsito, escutando a Rádio Cultura FM (103,3 em São Paulo) quando começou a tocar a “Marcha Fúnebre”, do compositor polonês-francês Frédéric Chopin (1810-1849). Um lindo dia de sol e eu enfurnada numa lata de rodas ao som da famosa trilha da morte.

Quando começou aquele tan, tan, tantan dramático, tão característico da música, minha barriga gelou. Fui num ímpeto trocar de estação. Tive a sensação de ter escutado uma música indecente e obscena. Aí, eu pensei: Oras bolas, se eu, que tenho um blog chamado “Morte sem Tabu” vou rejeitar esse som, quem é que vai dar uma chance para um dos ritmos mais conhecidos do mundo, todo marcado por uma aversão cultural?

Deixei tocar. Aos poucos, fui tomada por um deslumbramento. A composição é realmente linda, e para meu espanto, alegre.

Fluida, ela faz a gente querer fechar os olhos e se deixar levar pela dramaticidade de uma narrativa musical genialmente composta. Há ali um texto, uma história, movimentos, falas, a tradução mais pura de um sentimento. Essa marcha, infelizmente, tem um estereótipo de algo negativo, mas ela é, no fundo, uma grande homenagem.

Segundo os relatos da época, Chopin não nomeava suas composições. Indicava apenas o gênero e o número. A sonata Op.35 teria recebido o apelido de “Marcha Fúnebre” por outros. E nada consta sobre ter sido escrita como uma referência a alguma perda pessoal do compositor.

Chopin morreu aos 39 anos, provavelmente de tuberculose. Como ele tinha pavor de ser enterrado vivo, dias antes de sua morte pediu para que seu coração fosse retirado antes do enterro.

O receio fazia sentido porque esse tipo de coisa acontecia na época. Os batimentos cardíacos muito suaves podiam passar batidos (me desculpem o trocadilho) e algumas pessoas acabavam acordando debaixo da terra.

Edgar Allan Poe abusou dessa temática. Seu conto “O Enterro Prematuro” é narrado em primeira pessoa por um homem que sofre de catalepsia e teme ser enterrado vivo. Sendo Poe, imaginem o que acontece com o homem. “Em A Queda da Casa do Uscher”, a irmã do protagonista tem crises de catalepsia e acaba sendo enterrada viva pelo próprio irmão. Já no conto “ O Barril de Amontillado”, Poe explora uma espécie de “enterrada” como uma forma de vingança contra uma ofensa. Esse conto é terrivelmente incrível.

Na procissão do enterro de Chopin, tocou-se Réquiem de Mozart, seguindo seu desejo explicitado pouco antes de morrer. Ao lado do túmulo, sua “Marcha Fúnebre” foi tocada. Três mil pessoas assistiram o compositor ser enterrado no famoso cemitério de Paris, Pére-Lachaise. Amigos teriam jogado terra de sua cidade natal, na Polônia. O coração foi mesmo retirado e está até hoje na catedral de Varsóvia, na Polônia. Provavelmente, no mesmo frasco de cristal no qual foi lacrado.

Tudo isso para concluir que a “Marcha Fúnebre” é uma música linda e que merece toda entrega que costumamos oferecer a uma obra prima. Deixa ela entrar.

Leia mais sobre Chopin no arquivo de música clássica da Folha.