Serviço de realidade aumentada japonês oferece encontros virtuais no pós-morte

Por Camila Appel

A indústria funerária japonesa não para de nos surpreender. Com uma taxa de mortalidade maior do que a média global, esse mercado tem se reinventado. A taxa do Japão é de 0,94% enquanto a global é de 0,84%, e se aproxima da brasileira.

A última novidade no Japão é um serviço de realidade aumentada, a mesma tecnologia do Pokémon, para o setor funerário. O serviço custa US$4,50 dólares por mês e permite a visualização de fotos e vídeos do morto querido nos locais designados. Antes de morrer, é possível deixar essas mensagens gravadas e designar os locais onde elas poderão ser encontradas. É uma espécie de caça tesouro com um fantasma muito querido.

Outra novidade: uma empresa japonesa vai começar a alugar robôs para celebrar velórios. Pepper, como é chamado, oferece seus serviços por volta de R$ 1.430 e é considerado uma alternativa mais barata aos sacerdotes tradicionais. Pepper já é usado para outros fins, como ser mentor de prisioneiros em reabilitação. Lançado em 2015, dez mil unidades do Pepper já estariam em uso no mundo. É um robô que se destaca por identificar expressões humanas.

A cremação é a opção predominante no Japão e chega a gerar filas de dias para o uso dos fornos. É a justificativa para a existência de hotéis para mortos, como o Lastel Hotel, no sul de Tóquio, com 18 quartos refrigerados. Há espaço para os parentes e amigos velarem o corpo a noite toda, se quiserem. Sobre rituais no Japão, sugiro o filme “A Partida”. Já escrevi sobre ele aqui. 

Por quantos anos deveríamos viver?

Em diversos países, funerais ganham a dimensão de um casamento. Nos Estados Unidos, há shows de música ao vivo, buffet, santinhos, vídeos shows com fotos e depoimentos, e um tempo longo para o preparo do evento. Essa rapidez no enterro é algo bem típico do Brasil. Os europeus também costumam estranhar nossa pressa para enterrar o morto, não dando tempo de nenhum preparativo. Acabamos engolindo tudo como se fosse automático, como se não houvessem opções de produtos e serviços, dentro da justificativa de que não podemos “mercantilizar a morte”. Mas é claro que ela já é um mercado e falar abertamente sobre ele só nos trará benefícios.

Leia mais em: o que você quer ser quando morrer

A indústria japonesa mobiliza cerca de 20 bilhões de dólares por ano. No Brasil, não dá dados oficiais do nosso mercado, mas uma estimativa de faturar cerca de 7 bilhões ao ano.

Além disso, no Japão, há uma conferência de três dias que ajuda os participantes a preparar seu próprio funeral. Eles escolhem caixões, urnas, compram as “ending notes”, um bloco de anotações destinado a últimos desejos. E decidem o que fazer com suas cinzas. Na própria conferência, há um balcão de empresas internacionais como a Celestis, que leva cinzas ao espaço em parceria com a NASA, ou um empresa que leva cinzas para o meio do mar. Também escutam exemplos de música, preparam lista de convidados e escrevem legados. Eu acho isso tudo incrível e estou organizando uma palestra nesse sentido. Para maiores informações, por favor mandar email ao mortesemtabu@gmail.com.

 

 

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