Hoje é Dia do Saci-Pererê!

Por Camila Appel

Como diz o historiador Jorge Caldeira, o Brasil não é apenas fruto de uma simbiose sanguínea, ele também é uma simbiose cultural e é pouco destacada a herança Tupi na formação do nosso país. Somos muito mais influenciados pelos costumes e pela organização social Tupi do que imaginamos.

O Saci-Pererê pode ser considerado um exemplo dessa simbiose cultural na formação do Brasil.

Dia 31 de outubro é normalmente conhecido como o Dia das Bruxas, ou Halloween (Veja curiosidades sobre essa data aqui). Mas hoje também é o Dia do Saci-Pererê. A data foi criada em 2005, com o intuito de diminuir a influência norte-americana da celebração do Halloween e valorizar o folclore nacional. A Sociedade dos Observadores do Saci, por exemplo, coloca em seu manifesto a resistência contra o imperialismo cultural e o resgate do imaginário cultural brasileiro.

Não acho que o Saci deva entrar em pé de guerra com as bruxas. Hoje é dia de comemorarmos os dois. Uma visão mais embrutecida vai dizer que, independente do país de origem, esse tipo de data existe para alimentar uma indústria de consumo e deve ser renegada. O Halloween é uma das datas mais rentáveis dos Estados Unidos, por exemplo. Ainda há uma expectativa de  quebra um recorde nesse ano. De qualquer forma, lendas e mitos existem para dar graça ao nosso cotidiano e eu valorizo cada uma delas. A contação de histórias é uma marca registrada de nossa espécie, não vivemos sem elas (ainda bem).

E como o Saci representa a simbiose cultural brasileira? Ele é uma lenda que começou em tribos indígenas do sul do Brasil e, à medida que novos povos foram chegando com seus mitos, a figura do Saci se transformou.

No início, ele era um menino indígena, de duas pernas e um rabo, que vivia fazendo travessuras na floresta. Uma das teorias diz que essas travessuras tinham o objetivo de proteger as terras contra invasores, como o “homem branco”.

Com a influência da cultura africana, o Saci virou um menino negro, que perdeu uma das pernas jogando capoeira e ganhou um pito, um cachimbo típico dos costumes africanos.

O gorro vermelho teria vindo de um personagem do folclore de norte de Portugal, o Trasgo. Esse gorro dá poderes mágicos ao Saci, principalmente o de fazer coisas sumirem.

A descrição mais comum é a de um menino travesso que atrapalha a cozinha, troca o sal pelo açúcar, faz a comida queimar. Esconde coisas e faz tranças nos cabelos dos animais.

Ele ainda herda a função de proteger as matas. Dizem que é o guardião das florestas e assobia para espantar os viajantes. Domina as plantas e suas propriedades. Em algumas regiões, é visto como um personagem malvado, uma espécie de bruxo que usa plantas para feitiços e medicamentos.

De qualquer forma, é um personagem misterioso. Ele se move em moinhos de vento, aparece e desaparece sem vestígios. Pode ser capturado com uma peneira e seu gorro deve ser retirado para que não tenha mais poderes mágicos. Ainda deve ser guardado em uma garrafa e pode atender um pedido feito por seu capturador.

Monteiro Lobato fez do Saci um personagem de sua literatura, que vive aprontando lá no Sítio do Pica-Pau Amarelo. No começo da década de 50, as histórias de Monteiro Lobato viraram uma série na televisão, espalhando o Saci pelo Brasil inteiro. Ele também é um personagem que aparece nas histórias do Chico Bento, de Maurício de Souza e de Ziraldo, com a criação da Turma do Pererê, em 1958.